Eu me sentia muito suja, suja pra caramba. Talvez fosse o calor, talvez não, ainda assim eu tinha de matá-los. Pisquei e forcei a vista por entre as árvores até a clareira lá embaixo, onde cinco homens, meus alvos, de roupas típicas de tropeiros, com chapéu de couro e gibão encardido, estavam sentados à beira da estrada de barro, ao lado de um caminhão.
Um sexto, o vigia, continuava embrenhado entre as árvores, ao passo que o líder, meu principal alvo, ainda não tinha retornado, fosse lá o que estivesse fazendo no interior da mata. Ajeitei o corpo, evitando fazer muito barulho, e algumas folhas balançaram no tronco onde eu estava.
Quanto mais as horas passavam, mais a fome começava a nublar minha mente, piorada pelo desconforto de ficar tanto tempo enfiada nos galhos de uma árvore de pau-brasil. Ainda assim, bastou uma brecha para minha mente escapar até Nina, minha irmã, e o tronco avermelhado sob o meu corpo virou a mesa da nossa cozinha, ao passo que o prato fundo de cuscuz com queijo coalho surgia diante de mim, junto de uma coxa de frango assada cujo gosto e cheiro quase senti.
Engoli em seco. Minha boca já estava seca, como se eu tivesse comido terra, e o corpo implorava por um gole d'água, então balancei a cabeça e mandei a imagem embora. Agora não... não era hora de pensar nisso. Contudo, cabeça vazia é a oficina do diabo, então outro pensamento brotou no mesmo instante.
Embora fosse mais sensato me preocupar com ele, ferido do jeito que estava, do que com minha irmã, não devia ter deixado ela sozinha com aquele homem. Deixei um sorriso suave escapar, certa de que ela daria conta, e voltei toda a atenção para a estrada.
De longe, o grupo até podia passar por um bando qualquer de tropeiros indo da capital provincial para a maior cidade do interior, mas bastava ficar de olho por algum tempo para notar aquele tom acinzentado na pele exposta, principalmente na base do pescoço. Cedo ou tarde, algum Chico acabaria farejando aquele bando e exterminaria os semi-vampiros, só que, dessa vez, o trabalho deles seria bem mais fácil.
Como diz o povo, quem solta um aluado no mundo acaba criando um demônio, e talvez fosse justamente para evitar esse tipo de dor de cabeça que tinham me contratado. O pagamento não tinha sido ruim, então não cabia a mim reclamar do serviço.
Permaneci imóvel, acompanhando cada movimento sem deixar o caminhão sair do meu campo de visão, porque ele estava estacionado alguns metros adiante, fora da estrada de barro, um modelo velho de carga, com a lataria corroída pela ferrugem. Fosse lá o que transportasse, parecia valioso o bastante para justificar o grupo espalhado ao redor, protegendo o perímetro.
Droga, seria complicado pegá-los desprevenidos. Se fossem só um grupo de aluados recém-enlouquecidos, eu não teria problema, mas ainda precisava descobrir se tinham injetado sangue de vampiro havia pouco tempo ou se eram apenas um bando de idiotas que imaginava ser capaz de controlar os próprios poderes e acabou enlouquecendo. Por isso, continuei de olho neles e deixei o tempo passar, esperando qualquer sinal.
Um dirigível cruzou o céu acima de mim, e aproveitei o zumbido dos motores para mudar de posição e relaxar o corpo. Quando sumiu no horizonte, voltei a atenção para a estrada e deixei os minutos escorrerem, acompanhando o sol que descia a oeste ao passo que as sombras se esticavam pelo barro. Até que um deles se levantou, e os outros começaram a se mexer, pegando os mosquetes e se preparando para partir.
Ele então finalmente apareceria?
— Deusa Zara, antes do meu primeiro passo, tu já conheces o caminho... — eu disse a oração em voz baixa, e o vento passou pelo meu corpo como sempre passava quando eu iniciava uma prece — Antes do meu último suspiro, tu já viste o fim. Permite que o fluxo do tempo caminhe ao meu lado e que tua vontade seja meu abrigo.
O peso do meu corpo pareceu sumir com a bênção, as garras da transformação em caracará se ajustaram ao galho ao passo que as penas do peito se eriçavam com a passagem do vento. Meu pequeno corpo emplumado estremeceu e a pele nua ao redor do bico, antes avermelhada, adquiriu um tom amarelado, a cor de alerta. Aquele era o sinal. Ele, de fato, tinha chegado.
Com a audição aguçada, minha cabeça se encheu de ruídos. Concentrei-me nos sons que vinham da parte mais densa e escura da floresta, forçando os sentidos até conseguir ouvi-los.
— Arrumem tudo, precisamos partir logo — disse uma voz mais grossa, vinda do meio do mato.
— Estamos perto da rota certa? — perguntou uma segunda voz, que presumi ser do vigia, por conta da distância.
— Estamos… mas já estamos atrasados. Os outros parecem já terem chegado — respondeu a primeira, e finalmente enxerguei o dono dela.
À primeira vista, era um homem bonito, com pouco mais de trinta anos, cabelos curtos e pretos, olhos amendoados e uma expressão carrancuda. Vestia uma casaca azul, camisa de gola alta e colete, roupas típicas da aristocracia imperial de Mandacarú. A única coisa que o diferenciava dos outros eram os olhos vermelhos, sinal claro de que aquela aberração já tinha sangue de vampiro correndo nas veias havia bastante tempo.
O líder era aquele, ou pelo menos era o que eu acreditava, com base nas descrições que me deram. Virei o rosto e observei o caminhão outra vez. Por baixo do ruído do vento e dos sons da conversa, outro barulho começou a se destacar: vozes abafadas, batidas fracas e gritos de ajuda vindos da carroceria. Pisquei, surpresa. Não tinha percebido nada daquilo antes.
Estava tão concentrada na caça que deixara passar o fato de que havia vítimas? Droga... sua idiota.
Meu alvo gesticulou para o caminhão, e os outros aluados murmuraram entre si até que um deles soltou uma risada esquisita, fazendo meu corpo estremecer de nojo. O líder se aproximou do veículo, bateu duas vezes na lataria e gritou:
— Silêncio aí dentro! Não quero atrair a feiticeira.
Sorri de lado. Desculpa, amigo, eu já estava aqui.
Os gritos pararam, trocados por um choro abafado. Talvez sentissem mais medo da minha lenda do que das aberrações que as capturaram. Contei pelo menos dez vozes diferentes, todas adultas e femininas, e fechei os olhos por um instante ao passo que respirava fundo. Eles tinham capturado aquelas mulheres para se reproduzirem? Mas os aluados não podiam... não desde a última guerra. Se aquilo fosse mesmo o que eu estava pensando, então o sangue rubro estava voltando a se manifestar. O pensamento me levou direto até Nina, de novo, e mordi de leve a língua. Eu precisava verificar o sangue dela, só para ter certeza.
Como estava pensando demais em coisas que ninguém tinha me pago para pensar, balancei a cabeça. Nina podia esperar, pelo menos até eu terminar aquilo.
Memorizei a posição de cada um e calculei quantos passos levaria para cobrir a distância entre eles, até que o líder finalmente virou as costas para a árvore onde eu estava e gesticulou para que os outros entrassem no caminhão. Era o momento perfeito.
Respirei fundo, e um grito estridente escapou do meu bico — o chamado alto de um carcará —; então joguei a cabeça para trás em um movimento instintivo da ave, pulei do galho e alcei voo na direção do grupo. Um clarão surgiu na retaguarda, seguido pelo estampido dos mosquetes. O vigia deles parecia ter bons reflexos, porque estava atento o bastante para me perceber.
Desviei com facilidade em pleno voo.
— Uma feiticeira! — berrou o líder.
Sim, idiota!
Ainda no ar, desfiz a metamorfose. Minhas pernas se alongaram, o corpo se endireitou e os cabelos castanhos caíram sobre meu rosto. Afastei-os com um movimento da cabeça antes de cair entre eles, pousando agachada. Minhas mãos encontraram os cabos das duas lâminas presas à cintura e, antes que o aluado à minha frente conseguisse erguer a arma, girei sobre o pé e passei meu facão na horizontal pelo pescoço dele.
A cabeça se separou e o sangue espirrou sobre meu rosto. Pelo canto do olho, acompanhei a quantidade que escorria do pescoço antes de avançar, porque precisava deixá-lo incapaz de continuar lutando, mas não podia me dar ao luxo de esvaziá-lo... ainda não.
Veio uma coronhada da minha direita, e levantei a adaga na mão esquerda para desviar o mosquete ao passo que recuava. Girei o corpo no mesmo movimento e escapei do golpe, ficando ao lado do aluado, com o cano do mosquete passando diante do meu rosto. Era a abertura que eu precisava. Enfiei o facão sob o braço dele, cravando a lâmina na junção entre a axila e o tórax, a puxando.
Um disparo veio da minha esquerda e me abaixei no susto. O tiro passou por cima da minha cabeça e acertou o aluado que vinha por trás. Quando ergui os olhos, vi a cabeça dele se abrir sob o impacto.
Porra.
Antes que ele pudesse preparar outro disparo, avancei na direção do atirador. Ele tentou recuar ao passo que puxava o mosquete para junto do corpo, mas cheguei perto o bastante para impedir que apontasse a arma. Eles ainda não sabiam usar a própria velocidade e força sobrenatural, e isso me ajudava. Cortei o braço que segurava a arma e, quando ele tentou se afastar, atingi a coxa do mesmo lado. A perna cedeu e o corpo tombou para o lado, então completei o movimento e cortei-lhe o pescoço.
Mas essa era a parte chata. Precisava fazê-los sangrar o bastante para inutilizá-los, sem desperdiçar o sangue que ainda precisava para testar a compatibilidade. Soltei um suspiro curto ao ver o corpo se debater no chão. Era sempre uma merda ter que dosar em meio à pancadaria, mas eu precisava... pela minha irmã.
Quando outro aluado avançou sobre mim, rolei para a esquerda e, no meio do movimento, soltei a adaga e meus dedos fecharam sobre uma pedra. Quando terminei a rolagem, me levantei, lançando a pedra contra o rosto de um deles. A cabeça foi para trás com o impacto e o corpo cambaleou. Ataquei antes que ele recuperasse o equilíbrio, cravando o facão no alto do crânio.
Ao puxar a lâmina de volta, me impulsionei sobre o corpo que tombava, passando por cima dele ao passo que procurava os outros. Dois ainda estavam de pé.
O líder recuou em direção à margem da clareira, ao passo que o último aluado, o vigia, se colocou entre nós, alguns metros à frente dele, com o mosquete apoiado nas duas mãos. O líder ergueu o pistolão por trás do ombro do companheiro.
— Sua feiticeira desgraçada! — o líder rugiu.
Avancei pela clareira, desviei para a esquerda e o líder atirou logo depois, fazendo o chumbo arrancar cascas do tronco. Mudei de direção outra vez, passei rente ao tronco seguinte e saltei sobre uma raiz que atravessava meu caminho.
Quando aterrissei, puxei uma nova adaga da cintura e arremessei contra o vigia. Ele tentou se jogar para o lado, mas exagerou na esquiva e girou o corpo mais do que precisava. Passei por ele sem diminuir a velocidade e fui direto ao líder. Ele tentou apontar o pistolão para mim, mas eu estava perto demais para ele conseguir me mirar direito. Baixei o corpo e dobrei os joelhos ao passo que a corrida me impulsionava pelo chão, deslizando com o facão estendido ao lado. O fio atravessou as duas pernas logo abaixo dos joelhos e o líder perdeu o apoio.
Ouvi um disparo que passou perto do meu ombro. Rolei para o lado, apoiei a mão direita no chão e girei o corpo para ficar de frente para o meu atacante. Cravei o facão no chão para interromper o giro e usei o apoio para me erguer. O líder ainda se mexia, o que era um bom sinal. Puxei outra adaga da cintura e avancei em direção ao vigia.
Tentou levantar a arma para mirar, mas seus movimentos eram rápidos demais para o próprio corpo, e o cano passou do ponto antes que conseguisse alinhá-lo comigo. Entrei pela lateral, agarrei o mosquete com a mão livre e empurrei o cano para cima no instante em que ele apertou o gatilho.
O disparo se perdeu acima das árvores. Aproveitei a abertura e passei a lâmina pelo braço que segurava a arma, separando-o acima do cotovelo. O aluado gritou e tropeçou, e eu girei o corpo, girando o facão até alcançar o pescoço.
Caiu o corpo na minha frente, e apertei o cabo por um instante antes de baixar o facão. Precisei puxar o ar algumas vezes até controlar a respiração. Tinha sido rápido dessa vez, não? Talvez fossem mais novos do que a mensagem dizia.
Caminhei até o corpo do líder e me agachei ao lado dele. Por mais esquisito que fosse, passei o facão pelo pescoço, rasgando a carne, e peguei a cabeça, que ainda me xingava, antes de me afastar alguns metros. Sentei-me apoiada no tronco de uma árvore e coloquei a cabeça à minha frente, ao passo que mantinha a espada apontada para ele, que piscava freneticamente.
— Podemos conversar um pouco? — perguntei, relaxando os ombros e ainda com dificuldade de controlar a respiração — Eu só... preciso de um minuto.
— Você acha mesmo que eu quero conversar com você, feiticeira? — o líder cuspiu as palavras.
Fiz um biquinho e encolhi os ombros.
— Não precisa querer... só responde com monossílabas ou grunhe. Não tô pedindo tanto assim — dei um sorriso malicioso — Até porque, sem o resto do corpo, você não vai muito longe.
— Você tá com medo de a sua metamorfose te mudar? — ele hesitou — Há quanto tempo você tá viva?
— É falta de educação perguntar a idade de uma jovem... — respirei fundo, sentindo o corpo se acostumar de novo à forma humana — Agora você parece interessado em conversar, não é?
— Por quê? — ele me encarou — Por que uma feiticeira tá caçando a gente? E, principalmente... por que ainda tá do lado deles? — ele fez uma pausa, e o tom ficou mais amargo: — Eles quase exterminaram todas vocês também, não foi?
Deixei escapar um sorriso irônico.
— Não foram os humanos que mataram meu pai, então... — estalei o pescoço de um lado para o outro, soltando a tensão dos músculos — Não tenho nada contra eles. Não... ao passo que não mexerem comigo de novo.
— Então por que nos atacou? A gente não fez nada pra você... — O desdém na voz dele ficou ainda mais evidente — Feiticeira.
Inclinei a cabeça e apontei para os corpos espalhados dos outros membros do bando.
— Preciso do sangue de vocês e... — trouxe a ponta da espada de volta para ele — Me pagaram pra caçar vocês. Então é só negócio... e, no fim, foram dois coelhos com uma cajadada só.
O líder apertou o olhar.
— Que parece seu está… doente? — ele pareceu engolir em seco.
— Isso não é exatamente relevante pra nossa breve e prazerosa conversa — devolvi, no mesmo tom de desdém que ele tinha usado — Chupa-sangue.
— Se você me ajudar, posso levar você até o nosso mestre. Ele pode curar os efeitos do Sangue Rubro... — houve uma breve pausa antes de ele continuar: — Se é por isso que você precisa do nosso sangue, talvez eu consiga ajudar. Me leve até o norte.
Comecei a rir. Era irônico pra caralho pensar que até os malucos geneticamente modificados pelo sangue amaldiçoado acreditavam em alguma coisa. Apertei as pálpebras e balancei a espada.
— Você realmente acredita nesse... seu mestre?
— E por que não? — ele uniu as sobrancelhas — Qual é o problema em acreditar que existe alguém guiando a gente? Nosso mestre pode não estar aqui, nesse mundo, mas isso não quer dizer que esteja ausente.
— Então é um deus novo? — franzi a testa — Sempre achei que vocês fossem, sei lá, sedentos por sangue e poder. Pelo jeito, a vida da deusa Zara vai ficar ainda mais complicada.
— A deusa Zara sabe que a gente tentou viver em paz com vocês — continuou ele — Mas os Chicos olham pra gente e já veem uma aberração. Um monstro. É mais fácil chamar a gente assim do que admitir que vocês também fazem as mesmas merdas. A Grande Sede só escancarou isso. Vocês já brigavam por terra, por comida, por cidade, por qualquer porra que achassem que era de vocês. E isso foi muito antes de alguém enfiar sangue de vampiro nas veias da gente. Então por que a gente deveria abrir mão do sangue, se os seus amados guerreiros fazem exatamente a mesma coisa?
— Vocês, vírgula, chupa-chupa. Eu não participei da guerra. Só caço quem ataca vila humana, e ainda me pagam pra caçar vocês... — apontei a espada para o caminhão — Então nem vem com esse papo de que vocês nunca fizeram isso... que são só vítimas das circunstâncias.
Ele ficou quieto por alguns segundos.
— Não tô negando o que a gente fez — ele, finalmente falou.
— De qualquer forma, obrigada pela conversa — eu disse, me levantando e sentindo o corpo finalmente acostumado à forma humana.
— Então você destruiu a gente só por dinheiro e pelo nosso sangue?
— E por que você acha que eu faria isso por qualquer outro motivo? — dei de ombros de novo.
— Humana desgraçada... mesquinha. Sua infeliz da costa oca!
Ao me levantar, um sorriso de canto tomou meus lábios. Andei até o primeiro corpo e, ao olhar de lado, notei que o líder continuava me encarando. Peguei uma seringa pequena dentro da minha bolsa e retirei um pouco de sangue pelo pescoço.
— Ah, e eu não sou humana.
— Você respira e tem sangue, não tem? — ele perguntou.
Abri a pequena bolsa de couro presa ao cinturão, ajeitei a saia branca que usava quando fazia esse tipo de serviço e tirei um aparelho de tela quadrada. Pinguei um pouco do sangue sobre ela e esperei pela reação ao sangue de Nina. Alguns símbolos começaram a surgir na superfície ao passo que a tela processava o resultado.
— Você também tem sangue e nem por isso se considera humano — respondi, meio distraída, de olho no visor.
— Mas você ainda quer nos destruir.
— Eu disse que só quero o seu sangue... sou apenas uma feiticeira mesquinha — dei ênfase na palavra e caminhei até o aluado seguinte.
Olhei por cima do ombro, mas ele não disse mais nada. Fui de corpo em corpo, retirando amostras de sangue. Quando terminei, voltei a me sentar em frente à cabeça do líder.
— Vai me dizer ou não o porquê de vocês estarem levando essas mulheres para o norte? — perguntei.
— Isso não é da sua conta... — ele respondeu, com uma careta — Feiticeira.
— Bem, isso é verdade, desde que... não me paguem para descobrir — falei com um sorriso — Agora falando de negócios, se você... desembolsar uma boa quantia, posso até levá-lo ao seu destino.
— Você realmente faz tudo por dinheiro — disse ele, em um claro tom de desprezo.
A tela foi exibindo vários resultados negativos, um atrás do outro, e só faltava o do líder. Levantei o olhar e o encarei.
— Não tudo... — disse eu — Mas pela minha irmã, eu faço qualquer coisa.
— A sua irmã não conseguiu se adaptar ao sangue dos seus antepassados? — perguntou ele, e, pela primeira vez, sua voz perdeu o tom de desprezo.
Puxei o ar e desviei os olhos. As memórias daquele dia eram algo que eu preferia manter trancadas a sete chaves, porque já tinha passado tempo demais para aquele lugar ainda conseguir me afetar dessa forma. Concentrei-me em pegar a amostra do sangue do líder, depois caminhei até a árvore e me sentei, encostando as costas no tronco outra vez.
— Parece que agora você está disposto a conversar, não é? — disse com ironia — Está sentindo que seu sangue é o que eu preciso?
Ele soltou um som de desdém. Quando eu menos esperava, a tela bipou em verde.
— Pelo visto... — eu disse, levantando a sobrancelha — o nosso acordo profissional não será mais possível.
— Espera... — a voz dele continha medo — Eu posso ajudar.
— Sim, você pode — disse, caminhando até ele — Com o seu cérebro, pelo menos. Já sei de algo mais útil pra ele do que o que você estava fazendo.
Peguei um pequeno dispositivo dentro da bolsa e apertei um botão. Ele foi se ampliando até virar uma redoma de proteção, uma caixa usada para transportar órgãos. Caminhei até a cabeça dele e a peguei com cuidado, apoiando a ponta da espada no topo ao passo que fazia o corte circular. Ele gritou e me xingou de tudo quanto era nome, mas ignorei até terminar o serviço e colocar o cérebro na caixa de transporte. Com ela em mãos, fui até o caminhão e entrei na cabine, onde conferi o tanque parcialmente cheio antes de desligar o motor e me acomodar no banco do motorista. Só então abri o porta-luvas e tirei tudo que havia ali.
Não havia nada de valor ou importância, apenas um mapa da região. Abri-o na minha frente e observei as marcações: uma rota que vinha da capital provincial, Itamaré, passava pela Mata Cajazeira, onde havia uma marcação em vermelho, e seguia até a Mata do Louzeiro, onde estávamos. Depois dali, nada. Mordisquei o lábio, tentando entender. Por que pararam ali se queriam ir para o norte? Será que ele estava falando da grande floresta ou das províncias mais ao norte?
Traçando com o dedo a rota que passava por toda a província de São Serafim até ali, observei o mapa. Eles poderiam ter ido direto da capital para a capital do Rio Potengi. Examinei as marcações, mas aquela rota continuava sem fazer sentido. Para onde queriam ir, afinal? Suspirei. Enfim, não era meu trabalho descobrir, por mais curiosa que eu estivesse... Talvez eu devesse ter pressionado mais para arrancar essa informação e ganhar um pouco mais de dinheiro.
Imitando o som de um sabiá, saí da cabine e assobiei. Após alguns segundos, um sabiá-laranjeira pousou na capota do caminhão, então enrolei o mapa até caber no cilindro preso às costas da ave. Puxei um papel da minha bolsa e escrevi:
O trabalho foi feito, como esperado. Estou mandando um mapa que pode ajudar você a se manter um passo à frente dos chefes dos Chicos, e não precisa pagar, é brinde pela ajuda com minha irmã. Ah, uma coisa, o líder disse que eles estavam indo para o norte, talvez isso ajude. Envie o dinheiro para a agência de sempre e avise o pessoal sobre isso.
Enrolei a carta junto do mapa e coloquei no cilindro. Ao passo que o sabiá alçava voo, fui até a parte de carga do caminhão. Bati três vezes com a lâmina no cadeado, arrombando-o, e abri a porta. Tinha de fato, uma dezena de mulheres ali dentro, amontoadas como fardos e encolhidas no fundo do contêiner.
— Vocês estão seguras agora — eu disse, da forma mais gentil que eu podia — Sigam a estrada para o sul e chegarão à Vila Nova da Imperatriz em alguns minutos. Se forem rápidas, conseguiram chegar antes do anoitecer.
— Quem é você? — perguntou uma delas, de voz mais firme.
— Ninguém importante — falei, com um sorriso breve — Vão logo, antes que os animais nada agradáveis apareçam.
Ajudei as mulheres a descerem da carroceria, entreguei um cantil de água para elas e apontei o caminho. Elas seguiram juntas pela estrada, amparando-se umas às outras, ao passo que esperei até suas silhuetas desaparecerem no horizonte.
Doía o corpo inteiro, e eu precisava chegar logo em casa para ver se Nina estava bem e tomar um bom banho. Desviei o olhar para a mata quando um assobio ecoou de lá, então guardei o facão na cintura e me recostei na carroceria, encarando as árvores até uma mulher surgir entre elas, baixa, de pele morena, cabelos longos e negros.
— Então era você... Luna — disse a entidade.
— Peço desculpas por perturbar a paz da sua floresta, Cumadre — disse, dando alguns passos até ficar de frente para ela. A encantada era bem mais baixa do que eu, e isso fazia muita gente confundi-la com uma criança — Mas só os matei por necessidade.
A entidade desviou o olhar para os corpos ao nosso redor, e acompanhei seu olhar. Quando voltou a me encarar, fez uma careta para a caixa que eu segurava, onde estava o cérebro do aluado.
— A medicação de Nina já está acabando? — perguntou Cumadre Florzinha — E precisa mesmo tirar o sangue deles desse jeito? Não dá pra descobrir a compatibilidade de outra forma?
— É o jeito mais rápido — dei de ombros — E os monstros daqui não costumam reclamar do banquete.
Dei as costas para ela e comecei a andar.
— E obrigada pelas últimas ervas que mandou pra Nina. Ajudaram bastante... — olhei por cima do ombro. — Se acontecer alguma coisa, me chama.
— Você devia pensar um pouco mais no que a minha sobrinha se sente sobre tudo isso.
— Somos parentes distantes, Cumadre. Umas dez gerações de diferença, se não me engano — Sorri e balancei a mão por cima da cabeça — Apareça lá em casa qualquer dia desses pra comer um pirão. Prometo não usar nenhum bicho... da sua floresta.
Depois de algum tempo, ouvi o estalo das raízes e o barulho do caminhão sendo destruído, seguido pelos ruídos dos corpos sendo destroçados. Continuei andando debaixo do sol do fim da tarde, que ainda ardia como se o próprio inferno tivesse descido sobre minha cabeça, uma das tantas desgraças deixadas pela maldita Grande Sede. Minha garganta estava cada vez mais seca, e eu já não sentia nem vontade de umedecer os lábios, quando o cheiro de café recém-coado veio do armazém à beira da estrada. Parei na mesma hora. Só precisava de um café e alguma coisa para comer antes de chegar em casa, então empurrei a porta do armazém de secos e molhados.
Assim que entrei, a mulher atrás do balcão ergueu os olhos e a expressão ficou carrancuda. Pelo jeito que sempre estreitava os olhos quando me via, não parecia ir muito com a minha cara. Talvez fosse por causa dos boatos de que eu era feiticeira, o que era verdade, embora ela não soubesse, ou da história de eu ser descendente da primeira bruxa da Cuca, que também era verdade. Dei um sorriso para ela, só para provocar.
Atrás do balcão, um rádio velho tocava alguma música, até a programação ser interrompida pelo noticiário das cinco e meia da Gazeta da Aurora. Continuei andando, mas prestei atenção quando ouvi que o novo imperador de Mandacuru tinha acabado de ser coroado e o príncipe dos encantados não apareceu na cerimônia. Quando o locutor mencionou os cangaceiros vampiros e o risco de aquilo virar problema entre o reino dos encantados, o Império e os vampiros, mordi o canto da boca. Não era difícil imaginar onde aquilo podia parar.
— Quero uns puxa-puxas — disse, deixando a notícia de lado antes que começasse a me dar dor de cabeça.
— Não temos isso aqui — respondeu dona Ana, seca — Eu já disse que não tem, toda vez é a mesma coisa...
Olhei para o cesto de palha ao lado dela, cheio dos docinhos brancos, brilhantes e delicados, quase parecendo pequenas esculturas de porcelana.
— Não? Então aquilo ali é o quê? — Apontei para a cesta.
Ela lançou outro olhar feio para mim.
— Alfenim.
— Isso. Quero alguns deles. E um pão na chapa com café preto.
Ela resmungou alguma coisa que não entendi, pegou os alfenins e os embrulhou no papel de pão, depois colocou o pão na chapa e uma caneca de folha de flandres cheia de café sobre o balcão.
— Me devolva quando passar por aqui de novo — disse Dona Ana, apontando para a caneca — E não encha sua irmã de doce, ela precisa comer direito...
Assenti. Dona Ana podia não ir muito com a minha cara, mas gostava de Nina, então eu não ligava muito para o jeito que ela me tratava. Deixei as moedas ali e peguei tudo com cuidado para não derramar o café, saindo antes que ela resolvesse me transformar em sapo.
Minha garganta estava seca daquele jeito, o sol ainda torrava meu miolo e eu ali, tomando café como se fosse a coisa mais sensata do mundo. Mas uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa, até porque toda hora era hora de café. Guardei os puxa-puxas na bolsa e fiquei imaginando a cara da Nina quando encontrasse os doces, seguindo pela estrada ao passo que o sol baixava e o céu escurecia aos poucos. Quando dei por mim, a lua cheia já iluminava a estrada e a silhueta da nossa casa apareceu mais adiante.
No alto do barranco ficava nossa casa, de onde dava para ver boa parte da fazenda. Mais abaixo estavam o curral, o galinheiro e o estábulo, e, depois deles, o pomar, que não era grande coisa, só algumas árvores frutíferas, a maioria laranjeiras, espalhadas pelo terreno até o precipício que delimitava a propriedade. A casa em si era simples, mas espaçosa, do tipo que tinha em qualquer canto da região. Paredes de pau a pique, telhado de telha de bica. Na frente, uma varanda comprida, apoiada em uns esteios grossos de madeira. Quando o calor apertava, era ali que eu gostava de ficar. Estendia a rede, deitava e deixava as horas passarem devagar.
Empurrei a porta da varanda e entrei em casa.
— Nina, cheguei! — gritei.
Só o silêncio de uma casa vazia respondeu, e parei por um segundo.
— Nina? — Uni as sobrancelhas entrando com pressa — Você já dormiu uma hora dessas?