Dizem que, desde o surgimento da Grande Sede, setecentos anos atrás, não tínhamos enfrentado um período de mudanças climáticas tão louco quanto esse e, mesmo já tendo vivido um décimo desse tempo, eu nunca tinha sentido tanto calor como se o próprio inferno estivesse dentro de casa.
Mesmo sendo uma casa, geralmente, mais fria por dentro do que por fora, o calor estava quase insuportável, então vesti a roupa mais leve que eu tinha, um vestido amarelo florido, de renda e uma alpercata.
Ainda meio sonolenta, olhei para a cama, onde a mini-feiticeira continuava dormindo e me dei conta de que nem sequer sabia como ela se chamava. Como parecia estar dormindo tão bem, resolvi apenas deixar, perto da cadeira ao lado da cama, uma muda de roupa que Nina usava quando tinha a idade dela, uma regata de algodão leve e um short folgado.
Quando saí do quarto, senti o cheiro de café moído na hora se espalhando pelo corredor. Nina tinha acordado bem disposta pelo visto. Caminhei até a cozinha e parei na porta, olhando as costas dela, enquanto coava o café no pano sobre o bule de aço.
O jeito como Nina se movia pela cozinha me fez pensar logo na nossa mãe. Ela se parecia em quase tudo, na aparência, no jeito de fazer uma boa comida, na costura e, até em mandar e desmandar nos outros, uma verdadeira matriarca. Já eu tinha herdado o quê?
Franzi o cenho, talvez a teimosia, a boca suja, a mania de achar que todo problema se resolve com uma facão na mão e o costume besta de sair acolhendo todo bode desgarrado.
Quase fui capaz de ver o nosso pai sentado ali, segurando Nina ainda bebê, ou melhor, o homem que eu considerava meu pai, já que nunca conheci o meu de verdade. A lembrança foi tão vivida que quase me fez escutar a risada de mainha sempre que ele contava uma piada idiota. Respirei fundo, eram boas lembranças, mas esse período ficou no passado há muito tempo.
— Como você tá? — perguntei, sentando-me à mesa.
Nina virou o rosto e o sorriso dela tinha uma calma que fez todo o meu corpo relaxar. Mesmo tendo perdido a maior parte dos poderes, Nina ainda era uma feiticeira e aquele simples sorriso ainda era capaz de aliviar qualquer enfermidade.
— Oi, mana... tô bem. Tô até disposta hoje. Essa medicação nova me fez enjoar bem menos.
Deixei o ar sair pelo nariz e assenti.
— Dei uma mexida na fórmula e botei mel. Ficou melhor?
— Com certeza, até chá de boldo perdia pra aquele gosto esquisito.
Estalei o pescoço, tentando relaxar os músculos e olhei pela janela. Não havia uma nuvem sequer no horizonte e o céu, ainda dourado pela manhã, começava a ganhar aquele azul que parecia dominar tudo. Lá no alto, a esfera, uma espécie de miniplaneta que pairava sobre o céu, estava bem mais vermelha do que eu me lembrava de ter visto nos últimos ciclos.
Só de olhar para aquilo, já dava para saber que o dia prometia ser um forno, daqueles em que parecia haver dois sóis para cada pessoa.
— Você arrumou mais uma nova gata pra criar? Você tá ficando igual à mainha… — disse Nina, colocando uma caneca de ágata na minha frente — Onde achou essa menina?
— Ela é uma de nós e… — eu disse, ainda olhando para o céu. style="font-weight: 400;">Talvez fosse um bom dia para levar todo mundo até o riacho — Uma mestiça.
— E você viu nela um pouquinho de mim?
Nina estava sorrindo, enquanto enchia a minha caneca. Suspirei, pois sempre me surpreendia como a minha irmãzinha me conhecia melhor do que qualquer pessoa.
— Sim... e ela tem um irmãozinho doente também... — acompanhei a fumaça do café subindo da caneca — Não consegui não ajudá-la…
— Você vai cobrar alguma coisa dela?
— Não! — respondi, quase ofendida — Não sou tão mesquinha ao ponto de cobrar algo de uma criança.
— Sei... — Nina disse, dando uma risada brincalhona, à medida que enchia a própria caneca — E como ela se chama?
— Eu... — desviei o olhar, meio envergonhada — Ainda não sei.
— E eu achando que você tava ficando igual à nossa mainha... — Nina passou a mão pela testa se sentando — Deixa comigo, eu acordo a menina e vejo o que descubro, já você... vá acordar o bonitão. Pelo tanto de risinho que ouvi ontem, acho que vocês dois estão bem… próximos.
Arregalei os olhos.
— Você tava... escutando?
— Com certeza, principalmente, a parte em que ele prometeu que vai se casar com você — Nina gesticolou as mãos como se soltasse uma magia invisível para mim.
— Ele não disse isso, ele... ele sugeriu — eu disse, gaguejando.
— Sei... De toda forma, a sua recusa não me pareceu muito convincente — Nina bebeu mais um gole — E já tá na hora de você arrumar um marido pra parar de viver no meu encalço.
— Você tá querendo se livrar de mim? — perguntei, incrédula.
— Sim, eu tô! — Nina piscou — Ele é um nobre, bonitão e já se ofereceu pra casar com você. Vai esperar o quê? Um convite por escrito? Um dote bem gordo?
— Nenhum dos dois, porque isso não é uma historinha dos seus folhetins de romances, irmã!
— Você é insuportável quando quer ser! — ela suspirou teatralmente.
— Só porque eu não quero me casar com... ele? — perguntei, ainda mais incrédula, apontando para o quarto do nosso pai — Nina, você se esqueceu que a gente ainda não sabe quem djabo ele é ainda.
— E isso importa? — ela deu de ombros.
— Claro que importa! — revirei os olhos — E se ele for um psicopata?
— Ué, você conseguiria lidar com qualquer idiota que tentasse nos machucar... — ela abriu um sorriso malicioso — Ou será que você tá com medo de não conseguir colocar esse bonitão na linha quando tiver entre quatro paredes?
— Nina!
Nina começou a rir e eu não consegui me segurar, gargalhando com ela.
— Você tá muito assanhadinha ultimamente — eu disse, começando a sentir o pé da barriga doer.
Nina deu de ombros mais uma vez e se levantou.
— De toda forma, vá tirar ele daquela cama. Ele precisa se movimentar, porque se continuar assim, ele não será capaz de me dar sobrinhos!
— Nina!
Ela gargalhou de novo, conforme saía da cozinha.
— Eu devia era deixar ele em casa depois de ter se machucado tanto ontem… — sussurrei.
— O que você fez com ele, irmã? — Nina disse em um tom acusatório.
— Eu não fiz nada! — respondi, indignada — Ele que tentou se transformar num animal, só que o corpo não terminou de mudar, daí tive que colocar o osso no lugar.
— Sei… Deixa de desculpa e vai logo acordar ele, Luna — disse Nina.
— Não sei o que você acha mas… tava pensando em irmos ao riacho nos refrescar e pegar alguns peixes — falei sem pensar, terminando de saborear o café — Seria um bom passeio em família.
— Família? — Nina repetiu, rindo antes de continuar com a voz teatral: — Pode deixar que eu vou preparar a minha sobrinha! Nossa família disfuncional finalmente tá completa!
— Ela não é minha filha!
— Mas é minha sobrinha.
Nina saiu gargalhando e eu revirei os olhos.
Que seja. Se ela queria tratar a menina como sobrinha, que fosse assim. Espreguicei-me e fui até o quarto de Apollo, batendo três vezes antes de abrir a porta, mais por prevenção do que por educação, porque da última vez quase tinha visto tudo. Quase.
— Se você tiver pelado, me desculpe… — eu disse, maliciosa — Mas tô entrando, porque você precisa de um bom banho.
Abri a porta só o suficiente para não ser pega desprevenida de novo. Apollo já estava de pé, em frente para a janela, como se estivesse tomando um bom banho de sol. Ele virou a cabeça só o suficiente para eu ver os seus olhos brilhando entre o verde e o dourado.
Engoli em seco. Agora ele, de fato, estava parecendo um homem nobre e eu entenderia completamente se ele fosse desejado por plebeias e, talvez, até por outros homens.
— Você precisa de alguma coisa? — perguntou ele, virando-se de frente.
— Na verdade, como eu disse ontem, você precisa se mexer, então vamos eu, você, Nina e nossa nova hóspede pro riacho.
Ele pareceu confuso, mas apenas assentiu.
— Imagino que eu não tenha muita escolha.
— Finalmente você tá aprendendo. Enquanto estiver debaixo do meu teto, você faz o que eu disser — balancei a mão em deboche — Eu sempre quis dizer isso.
— E isso inclui decidir quando vou sair da cama?
— Principalmente isso.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não contestou.
— Você pensou na minha proposta?
— Qual? — perguntei, caminhando até um baú de madeira perto da cama — A de se casar com você?
— Essa também, mas, estava falando sobre style="font-weight: 400;">você me contar quem é o Carcará Fantasma.
— Ah... — Peguei uma muda de roupa e estendi para ele — Preciso primeiro ter certeza de que ele quer te conhecer. Poderia... esperar um pouco?
Ele olhou para o gibão, a camisa branca e a calça de algodão cru que eu tinha separado para ele com uma expressão estranha no rosto.
— Essas roupas eram do meu pai e, pra sua sorte, ele tinha um porte igual ao seu — Apontei para as peças que ele estava usando — Seus trapos já não servem pra nada, então é melhor se trocar. Até porque nessa casa só tem mulheres e duvido que você queira parecer um tarado andando por aí com essas… roupas rasgadas.
Ele olhou para si mesmo, para a camisa com um rombo no peito e a calça rasgada em várias partes, antes de suspirar e pegar as roupas.
— Poderia dizer para o… Carcará que não quero nada além de sua ajuda para encontrar a criança? Já disse que pago tudo que pedir.
Assenti.
— Eu já entendi... não precisa repetir. Vou ver e te digo depois, tá? — Balancei a mão em desdém — Não demore muito. Vou te esperar na sala.
Deixei Apollo se trocar e voltei para a sala, onde Nina já estava com a menina. Não demorou muito para ele aparecer com as roupas do meu pai e, depois de juntarmos nossas coisas, saímos do sítio em direção ao riacho.
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O calor apertava cada vez mais, deixando muitas árvores peladas. Os juazeiros, antes volumosos, exibiam agora galhos quase completamente nus, enquanto o barro vermelho e rachado surgia sob a mata, abrindo um caminho entre as duas manchas verdes.
Ao passo que íamos adentrando em direção às fazendas de cana de açúcar, fomos arrastando os pés cada vez mais e comecei a achar que tinha sido uma má ideia ter saído de casa.
— Quintura duzinferno... por que ficou tão quente de uma hora pra ôta? — perguntou Mia, arfando.
— É por causa da Grande Sede — disse eu — De tempos em tempos, ela provoca um forte aumento na temperatura.
— Que coisa paia — resmungou Mia, abanando o rosto com a mão, o que me fez rir.
— E isso não é um bom sinal… — comentou Apollo.
Suspirei, limpando o suor da testa.
— E quando é?
Mia olhou para ele.
— Vai acontecer alguma coisa ruim? — sussurrou Mia.
— Sempre que a Grande Sede se torna ativa, alguma mudança acontece no planeta durante o ciclo... — começou Apollo.
— Vocês falam dessa Grande Sede como se ela fosse uma… deusa — comentou Mia — Será que ela fica brava quando a gente não faz o que ela quer?
Nina riu.
— Não é muito diferente de um. Ela é bem mal-humorada e vive interferindo no planeta — disse Nina, pegando a mão de Mia — Só espero que hoje ela esteja de bom humor.
— Ela é uma mulher? — perguntou Mia.
— Dizem que é, mas… nunca conheci ninguém vivo que já tenha visto ela — respondi, pegando uma folha larga caída no caminho para me abanar.
Mia murchou a expressão e começou a chutar as pedrinhas no chão.
— Mana, você acha que o riacho ainda tá cheio, mesmo com essa lua? — perguntou Nina.
— Espero que esteja aguentando esse mormaço, porque se o riacho secar, vamos ter que bater na porta do prefeito pra pedir ajuda pra encher a cisterna lá de casa. E eu não tô nem um pouco a fim de me meter com política logo agora no meio do ciclo da Grande Sede.
— Então vamos logo, antes que ele seque! — disse Mia — Eu não andei tudo isso pra chegar lá e não ter água.
Não consegui segurar a risada. Mia ainda não tinha entendido que o problema não era o riacho estar seco naquele momento, mas o que vinha depois.
— Os cangaceiros e coronéis da região também costumam ficar mais ativos nessa época, não é? — perguntou Apollo.
— Infelizmente — respondi, olhando para Mia que já parecia menos interessada no assunto — Pelo menos, o festival lá em casa deve começar logo.
Os olhos de Mia se arregalaram.
— Vai ter comida?
— É um festival — disse eu.
— Eu sei o que é um festival, o que quero saber é se vai ter comida.
Nina soltou uma risada.
— Gostei dela.
— Sim, vai ter comida — respondi, assentindo — O pessoal da região vai colher o que ainda tiver nas plantações e trazer as sacas de mandioca pra fazer farinha. E como a única casa de farinha fora do centro de Vila Imperatriz é lá em casa, o povo acaba vindo todo pra lá. Então, aproveitamos a deixa pra realizar o festival pedindo proteção pra deusa Serena e Zara durante o período da Grande Sede.
Mia fez uma careta.
— Ah... então vai ter gente... muita gente.
— Vai.
— Eu não gosto de gente.
— Não se preocupa, eu também não gosto — pisquei para ela.
Quando levantei o rosto, Nina estava fazendo careta para mim.
— Que foi? — perguntei.
— Não estraga a minha sobrinha antes de eu ensinar ela a gostar de romance.
Nina suspirou, pegou Mia pela mão e começou a mostrar algumas plantas pelo caminho. De vez em quando, Mia perguntava para que serviam e Nina olhava para mim, deixando que eu explicasse as suas propriedades medicinais. Quando se tratava de ervas usadas como tempero, porém, Nina explicava tudo com muita confiança.
— Luna... — chamou Apollo.
— Hum? — Olhei de soslaio para ele.
— Eu preciso encontrar a...
— Eu sei... — interrompi, sem muita paciência — Você tá preocupado que a Grande Sede esteja mais ativa por causa da criança, não é?
Apollo assentiu, parecendo um pouco sem graça.
— Já te disse que o meu contato vai recuperar a sua espada — suspirei, limpando a testa novamente — Não precisa ficar tão ansioso e não é como se um desastre fosse acontecer só porque a Grande Sede tá mais quente do que o normal. Nos últimos dois ciclos, ela não causou muito estrago, além da perda de plantações e animais, então…
— Ainda assim, temo que este ano possa ser diferente.
— O oráculo do seu povo disse alguma coisa? — Fiz uma careta.
— Sendo sincero... não souberam interpretar.
— E quando eles conseguem interpretar alguma coisa? — Dei de ombros — Mas o que foi que o oráculo disse?
— Apenas que grandes mudanças irão acontecer.
— Isso é bem vago até para ele... — Tentei me abanar com mais força com a folha — Por que Serena não pode ser mais direta?
Apollo franziu levemente a testa.
— Isso não é um pouco… desrespeitoso?
— Por quê? Só porque eu não chamo ela de Milady? De deusa? De minha senhora? — Dei de ombros, apanhando outra folha e entreguei a Apollo — Até onde eu sei, Serena é uma reclusa antissocial que não sabe dizer o que quer e só fica mandando mensagens enigmáticas irritantes.
Apollo deu uma boa gargalhada e, por algum motivo bem irritante, eu gostava daquele som. Tentei ignorar isso, à medida que seguíamos pelo caminho com Mia cada vez mais curiosa sobre as ervas e sobre como eu sabia tanto.
— Você tem quantos anos pra saber disso tudo? — perguntou Mia.
— Setenta e nove — respondi, meio distraída.
— Quê? Você tem quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;">oitenta anos? — perguntou ela, em choque.
Apenas assenti.
— E, só pra constar, eu tenho apenas vinte e cinco, Mia — disse Nina, apontando para si.
Mia olhou de mim para Nina, tentando entender.
— Mas… mas… por que vocês têm tanta diferença assim? — perguntou, baixinho.
— O meu pai é diferente do pai da Nina — expliquei enquanto pegava um cantil e o oferecia a Mia — O pai dela era dono do sítio e quando ele conheceu a minha mãe, eu estava na antiga fortaleza das feiticeiras, só que durante a última guerra, eu vim para cá e alguns anos depois, Nina nasceu.
Mia assentiu, mas logo seus olhos foram parar em Apollo que vinha alguns passos atrás. Ele soltou um suspiro pesado.
— Eu tenho 81.
— Então você é mais velho que Luna? — Mia franziu a testa.
— Porque será que não lembro de você quando fui ao reino dos encantados? — perguntei.
Apollo deu de ombros.
— Talvez nós simplesmente não tenhamos nos encontrado naquela ocasião.
— Faz sentido.
Pelo jeito, Apollo não estava muito disposto a prosear, então deixei que ficasse com os próprios pensamentos. Fiquei aliviada quando finalmente chegamos à margem do riacho. A água estava mais baixa do que de costume, deixando boa parte do leito à mostra, mas ainda havia o suficiente para não estar parada nem turva, talvez até conseguíssemos pescar algum peixe.
— Pega! — disse, jogando uma vara de pescar para Apollo — Você tem algum problema em pegar peixe pra comer?
Ele segurou a vara com a mão livre, ajeitando o braço ferido junto ao corpo.
— Nem um pouco. Eu também como carne.
— Hum, então preciso te pedir desculpas. Pensei que fosse um desses comedores de planta metidos a besta.
Apollo estreitou os olhos.
— Tudo bem — disse ele, concordando — Posso entender por que você não gosta deles.
Enquanto Apollo se afastava, fui até um juazeiro e arranquei dois galhos, entregando um deles para Mia.
— O que acha da gente brincar um pouquinho, Mia? — tirei a alpercata.
Ela olhou para o graveto na mão, depois para o meu e fez uma careta.
— Preciso saber o quanto você sabe se proteger — disse eu, dando um passo para frente.
Mia deu um pulo para trás, assustada e meio desengonçada, mas com bons reflexos. Passei um tempo mostrando como estocar, aparar golpes e controlar o peso de uma espada, facão ou peixeira, corrigindo seus passos, o equilíbrio e o jeito de segurar a lâmina. Saber se defender era importante naquele mundo e se ela não aprendesse a manejar uma arma, podia acabar indefesa outra vez e eu não ia deixar isso acontecer de novo.
— Eu... ainda não entendi uma coisa — disse Mia, arfando, enquanto eu lhe dava alguns segundos para recuperar o fôlego — Por que tem tanta raça diferente por aí?
— Ah, isso é uma história comprida… — respondi, relaxando o ombro — Dizem que os humanos eram muito mais avançados antigamente até que a Grande Sede apareceu no céu. Ninguém sabe direito o que aconteceu, só que supostamente existia uma espécie de manta protetora em volta do planeta que evitava essa quintura toda e, quando ela se rompeu, foi aí que tudo começou.
Apontei para uma esfera avermelhada cercada por anéis luminosos no céu.
— Os antigos morriam de medo de olhar pra essa coisa.
Os olhos de Mia foram da esfera para mim.
— Aquilo é um deus de verdade ou… só algo esquisito?
— Não faço ideia. Nunca consegui perguntar pra Zara e, pra falar a verdade, acho mais fácil encontrar um dragão do que conseguir uma resposta da Serena.
Mia inclinou a cabeça, tentando entender e eu apenas sorri.
— Enfim, o que eu sei é que aquilo é supostamente o corpo dessa coisa que foi nomeada de a Grande Sede. Tá vendo como ela tá brilhando em um vermelho tão intenso que parece uma bola de fogo?
Mia olhou para a esfera por mais alguns segundos e assentiu.
— Pois é. Quando ela fica assim, a Grande Sede tá ativa e é por isso que tá esse calor dos infernos. Pra o nosso azar, ela volta a ativa a cada nove anos e fica por uns… seis meses.
Mia arregalou os olhos.
— Seis meses?! Com esse calor todo?
— Infelizmente, é uma época bem filha da pu…
— Luna… olha a boca — protestou Nina.
— Desculpa — suspirei, limpando a testa — De qualquer forma, pelo que dizem, setecentos anos atrás era muito pior. Era mais quente e bem mais difícil sobreviver por aqui.
Mia coçou a cabeça e eu quase podia ver a fumaça saindo dela. Era uma garota inteligente, mas talvez aquilo tudo fosse informação demais para uma criança de sete anos.
— Enfim… a gente aprende a se virar até nas situações mais desgraçadas — pisquei, acariciando a cabeça de Mia — Então não esquenta essa cabecinha, você não precisa entender tudo isso agora.
Ela assentiu, colocando a espada outra vez em posição de defesa. Não é que a garota tava ficando boa naquilo.
— Por sinal... quando é o seu aniversário? — perguntei, me aproximando para ajeitar a sua postura.
Mia baixou os olhos. Ela estava muito diferente de ontem, mais calma, menos arisca e agora parecia até um pouco envergonhada, encarando o galho entre as mãos.
— É... daqui a alguns dias.
Arregalei os olhos e Nina apareceu do nada do meu lado.
— Daqui a alguns dias? — Nina bufou, balançando a cabeça para mim — Mana, a gente precisa fazer uma festa pra ela!
— Não... não precisa... — Mia gaguejou — Eu nunca...
— Claro que precisa. A gente nem fez sua festa de boas-vindas ainda — falei, segurando o ombro dela — Além disso, Nina não vai me deixar em paz até a gente fazer essa festa.
Mia levantou os olhos, e parte da bochecha estava corada. Era uma criança fofa. Mesmo depois de tudo que tinha passado, ainda guardava certa ingenuidade e eu queria que continuasse assim por muito tempo. Levantei o rosto e encarei a Grande Sede.
— Luna? — Mia sussurrou.
— Sim?
— Se todo mundo era humano antes... por que só os humanos ainda são humanos?
— Você ainda tá pensando nisso?
Ela assentiu.
— Pelo pouco que sabemos, eles se consideram assim porque não sofreram grandes… modificações e conseguiram preservar boa parte dos conhecimentos da antiga sociedade. Tiveram a sorte de nascerem nobres e permanecerem protegidos em cavernas subterrâneas durante os cem anos da primeira Grande Sede — disse Apollo, aproximando-se com o balde cheio de peixes.
Ele fez uma breve pausa, me encarando antes de olhar para Mia, como se quisesse ter certeza de que ela estava acompanhando.
— Por causa disso, eles nomearam às outras raças, então, por exemplo, os que tinham uma sede insaciável por sangue passaram a ser chamados de vampiros. As mulheres que conseguiam se transformar em aves foram associadas à bruxaria, já os encantados... bem, muitos conseguiam assumir formas de animais e, como as antigas histórias já falavam de criaturas assim, o nome acabou pegando.
— Será que os vampiros não gostaram de serem chamados assim e por isso que se rebelaram? — Mia perguntou.
Sorri de lado, acariciando a cabeça dela.
— Podia ser, mas o que eles queriam mesmo era um lugar no conselho da Utopia, pra poderem falar pelo próprio povo, mas, pra variar, os humanos não deixaram. Como os humanos são descendentes dos nobres de antigamente e as outras raças vinham de gente comum… — disse eu — Eles acham que são os únicos puros com direito de governar o planeta.
— Então... a gente não fez nada de ruim pra eles odiarem a gente? Porque… pelo que entendi… foram os vampiros que sempre brigaram pra ser os reis do mundo, não foram? — Mia sentou no chão, fazendo círculo no chão com a o galho — Então, por que eles odeiam as feiticeiras?
— O que eu sei é que as feiticeiras de antigamente fizeram… algumas coisas, só não sei se isso explica porque eles nos odeiam. Dizem por aí que, quando as nossas antepassadas se transformavam, algumas simplesmente… perdiam o controle. E, como naquela época, ainda não sabiam lidar com a mente animalesca, acabavam atacando assentamentos, invadindo cidades e matando quem aparecesse pela frente. Daí essas histórias foram passando de geração em geração, ficando cada vez mais assustadoras que até tem uma música sobre uma delas.
— Cuidado com a Cuca, que a Cuca te pega. Pega daqui e pega de lá. A Cuca é malvada e, se fica irritada, a Cuca é zangada. Cuidado com ela — Apollo cantarolou.
— Pelo que eu sei, essa música foi feita pra uma antepassada minha. Dizem que ela era uma feiticeira serial killer que saía por aí matando famílias e sequestrando crianças — falei, dando de ombros.
Mia arregalou os olhos, mas me apressei em continuar:
— E até hoje, ensinam pras crianças que, se virem uma mulher de olhos âmbar, é melhor ficar longe e, se precisarem falar com uma de nós, é bom não fazer nada pra irritar. Nunca entendi isso, afinal, eu nem sou tão assustadora assim.
Mia começou a rir.
— Quando você tá lutando, é bem assustadora — disse Mia, entre risos.
— Ah, é? Então acho que vou ter que te mostrar como uma feiticeira maligna faz quando pega uma criança.
Peguei Mia pela cintura e a puxei para o colo. Assim que os meus dedos encontraram a sua barriga, ela soltou uma gargalhada e se encolheu, tentando proteger as costelas com os braços.
— Para, Luna! Para!
Continuei só mais um pouquinho, desviando das mãozinhas que tentavam me afastar. Mia se contorcia no meu colo, chutando o ar e rindo tanto que mal conseguia formar as palavras. Quando finalmente parei, ela se agarrou ao meu pescoço, ainda sacudida pelos últimos risinhos.
— Eu sou muito malvada! — declarei, rindo — Uma feiticeira terrível que vai fazer cócegas até você morrer de rir!
Coloquei Mia no chão, ainda vermelha de tanto rir.
— Enfim, chega, agora é hora do banho, mocinha — Olhei para Nina — E vamos voltar pra casa, porque temos uma festa pra preparar!