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CAPÍTULO 6 - UMA PEQUENA PAUSA

“Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo, eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho, e lembrei de um tempo -
Ney Matogrosso, Poema”
Trilha Sonora do Capítulo
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Dizem que, desde o surgimento da Grande Sede, setecentos anos atrás, não tínhamos enfrentado um período de mudanças climáticas tão louco quanto [Conteúdo protegido por direitos autorais] esse e, mesmo já tendo vivido um décimo desse tempo, eu nunca tinha sentido tanto calor como se o próprio inferno estivesse dentro de casa. 

Mesmo sendo uma casa, geralmente, mais fria por dentro do que por fora, o calor estava quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] insuportável, então vesti a roupa mais leve que eu tinha, um vestido amarelo florido, de renda e uma alpercata.

Ainda meio sonolenta, olhei para a cama, onde a mini-feiticeira continuava dormindo e me dei conta de que nem sequer sabia como ela se chamava. Como parecia estar dormindo tão [Conteúdo protegido por direitos autorais] bem, resolvi apenas deixar, perto da cadeira ao lado da cama, uma muda de roupa que Nina usava quando tinha a idade dela, uma regata de algodão leve e um short folgado.

Quando saí do quarto, senti o cheiro de café moído na hora se espalhando pelo corredor. Nina tinha acordado bem disposta pelo [Conteúdo protegido por direitos autorais] visto. Caminhei até a cozinha e parei na porta, olhando as costas dela, enquanto coava o café no pano sobre o bule de aço.

O jeito como Nina se movia pela cozinha me fez pensar logo na nossa mãe. Ela se parecia em quase tudo, na aparência, no [Conteúdo protegido por direitos autorais] jeito de fazer uma boa comida, na costura e, até em mandar e desmandar nos outros, uma verdadeira matriarca. Já eu tinha herdado o quê?

Franzi o cenho, talvez a teimosia, a boca suja, a mania de achar que todo [Conteúdo protegido por direitos autorais] problema se resolve com uma facão na mão e o costume besta de sair acolhendo todo bode desgarrado.

Quase fui capaz de ver o nosso pai sentado ali, segurando Nina ainda bebê, ou melhor, o homem que eu considerava meu pai, já que nunca conheci o meu de verdade. A [Conteúdo protegido por direitos autorais] lembrança foi tão vivida que quase me fez escutar a risada de mainha sempre que ele contava uma piada idiota. Respirei fundo, eram boas lembranças, mas esse período ficou no passado há muito tempo.

— Como você [Conteúdo protegido por direitos autorais] tá? — perguntei, sentando-me à mesa.

Nina virou o rosto e o sorriso dela tinha uma calma que fez todo o meu corpo relaxar. Mesmo tendo [Conteúdo protegido por direitos autorais] perdido a maior parte dos poderes, Nina ainda era uma feiticeira e aquele simples sorriso ainda era capaz de aliviar qualquer enfermidade. 

— Oi, mana... tô bem. Tô até [Conteúdo protegido por direitos autorais] disposta hoje. Essa medicação nova me fez enjoar bem menos.

Deixei o ar [Conteúdo protegido por direitos autorais] sair pelo nariz e assenti.

— Dei uma mexida [Conteúdo protegido por direitos autorais] na fórmula e botei mel. Ficou melhor?

— Com certeza, até chá [Conteúdo protegido por direitos autorais] de boldo perdia pra aquele gosto esquisito.

Estalei o pescoço, tentando relaxar os músculos e olhei pela janela. Não havia uma nuvem sequer no horizonte e o céu, ainda dourado pela manhã, começava a ganhar aquele azul [Conteúdo protegido por direitos autorais] que parecia dominar tudo. Lá no alto, a esfera, uma espécie de miniplaneta que pairava sobre o céu, estava bem mais vermelha do que eu me lembrava de ter visto nos últimos ciclos. 

Só de olhar para aquilo, já dava para saber que o dia [Conteúdo protegido por direitos autorais] prometia ser um forno, daqueles em que parecia haver dois sóis para cada pessoa.

— Você arrumou mais uma nova gata pra criar? Você tá ficando [Conteúdo protegido por direitos autorais] igual à mainha… — disse Nina, colocando uma caneca de ágata na minha frente — Onde achou essa menina?

— Ela é uma de nós e… — eu disse, ainda olhando para o céu. [Conteúdo protegido por direitos autorais] style="font-weight: 400;">Talvez fosse um bom dia para levar todo mundo até o riacho — Uma mestiça.

— E você [Conteúdo protegido por direitos autorais] viu nela um pouquinho de mim?

Nina estava sorrindo, enquanto enchia a minha caneca. Suspirei, pois sempre [Conteúdo protegido por direitos autorais] me surpreendia como a minha irmãzinha me conhecia melhor do que qualquer pessoa. 

— Sim... e ela tem um irmãozinho doente também... — [Conteúdo protegido por direitos autorais] acompanhei a fumaça do café subindo da caneca — Não consegui não ajudá-la…

— Você [Conteúdo protegido por direitos autorais] vai cobrar alguma coisa dela?

— Não! — respondi, quase ofendida — Não [Conteúdo protegido por direitos autorais] sou tão mesquinha ao ponto de cobrar algo de uma criança.

— Sei... — Nina disse, dando uma risada brincalhona, à [Conteúdo protegido por direitos autorais] medida que enchia a própria caneca — E como ela se chama?

— Eu... — desviei o [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhar, meio envergonhada — Ainda não sei.

— E eu achando que você tava ficando igual à nossa mainha... — Nina passou a mão pela testa se sentando — Deixa comigo, eu acordo a [Conteúdo protegido por direitos autorais] menina e vejo o que descubro, já você... vá acordar o bonitão. Pelo tanto de risinho que ouvi ontem, acho que vocês dois estão bem… próximos.

Arregalei os olhos.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Você tava... escutando?

— Com certeza, principalmente, a parte em que ele prometeu que vai se [Conteúdo protegido por direitos autorais] casar com você — Nina gesticolou as mãos como se soltasse uma magia invisível para mim.

— Ele não disse isso, [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele... ele sugeriu — eu disse, gaguejando.

— Sei... De toda forma, a sua recusa não me pareceu muito convincente — Nina bebeu mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] um gole — E já tá na hora de você arrumar um marido pra parar de viver no meu encalço.

— Você tá querendo [Conteúdo protegido por direitos autorais] se livrar de mim? — perguntei, incrédula.

— Sim, eu tô! — Nina piscou — Ele é um nobre, bonitão e já [Conteúdo protegido por direitos autorais] se ofereceu pra casar com você. Vai esperar o quê? Um convite por escrito? Um dote bem gordo?

— Nenhum dos dois, porque isso não é uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] historinha dos seus folhetins de romances, irmã!

— Você é insuportável [Conteúdo protegido por direitos autorais] quando quer ser! — ela suspirou teatralmente.

— Só porque eu não quero me casar com... ele? — perguntei, ainda mais incrédula, apontando para o quarto do [Conteúdo protegido por direitos autorais] nosso pai — Nina, você se esqueceu que a gente ainda não sabe quem djabo ele é ainda.

— E isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] importa? — ela deu de ombros. 

— Claro que importa! — revirei [Conteúdo protegido por direitos autorais] os olhos — E se ele for um psicopata?

— Ué, você conseguiria lidar com qualquer idiota que tentasse nos machucar... — ela abriu um sorriso malicioso [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Ou será que você tá com medo de não conseguir colocar esse bonitão na linha quando tiver entre quatro paredes?

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina!

Nina começou a rir e [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu não consegui me segurar, gargalhando com ela.

— Você tá muito assanhadinha ultimamente — [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu disse, começando a sentir o pé da barriga doer.

Nina deu de ombros [Conteúdo protegido por direitos autorais] mais uma vez e se levantou.

— De toda forma, vá tirar ele daquela cama. Ele precisa [Conteúdo protegido por direitos autorais] se movimentar, porque se continuar assim, ele não será capaz de me dar sobrinhos!

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina!

Ela gargalhou de [Conteúdo protegido por direitos autorais] novo, conforme saía da cozinha.

— Eu devia era deixar ele em [Conteúdo protegido por direitos autorais] casa depois de ter se machucado tanto ontem… — sussurrei.

— O que você fez com [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele, irmã? — Nina disse em um tom acusatório.

— Eu não fiz nada! — respondi, indignada — Ele que tentou se transformar num [Conteúdo protegido por direitos autorais] animal, só que o corpo não terminou de mudar, daí tive que colocar o osso no lugar.

— Sei… Deixa de desculpa e [Conteúdo protegido por direitos autorais] vai logo acordar ele, Luna — disse Nina.

— Não sei o que você acha mas… tava pensando em irmos ao riacho nos refrescar e [Conteúdo protegido por direitos autorais] pegar alguns peixes — falei sem pensar, terminando de saborear o café — Seria um bom passeio em família.

— Família? — Nina repetiu, rindo antes de continuar com a [Conteúdo protegido por direitos autorais] voz teatral: — Pode deixar que eu vou preparar a minha sobrinha! Nossa família disfuncional finalmente tá completa!

— Ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] não é minha filha!

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Mas é minha sobrinha.

Nina saiu gargalhando [Conteúdo protegido por direitos autorais] e eu revirei os olhos.

Que seja. Se ela queria tratar a menina como sobrinha, que fosse assim. Espreguicei-me e fui até o quarto de Apollo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] batendo três vezes antes de abrir a porta, mais por prevenção do que por educação, porque da última vez quase tinha visto tudo. Quase.

— Se você tiver pelado, me desculpe… — eu disse, [Conteúdo protegido por direitos autorais] maliciosa — Mas tô entrando, porque você precisa de um bom banho.

Abri a porta só o suficiente para não ser pega desprevenida de novo. Apollo já estava de pé, em frente para a janela, como se [Conteúdo protegido por direitos autorais] estivesse tomando um bom banho de sol. Ele virou a cabeça só o suficiente para eu ver os seus olhos brilhando entre o verde e o dourado.

Engoli em seco. Agora ele, de fato, estava parecendo um homem nobre e [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu entenderia completamente se ele fosse desejado por plebeias e, talvez, até por outros homens.

— Você precisa de alguma [Conteúdo protegido por direitos autorais] coisa? — perguntou ele, virando-se de frente.

— Na verdade, como eu disse ontem, você precisa se [Conteúdo protegido por direitos autorais] mexer, então vamos eu, você, Nina e nossa nova hóspede pro riacho.

Ele pareceu [Conteúdo protegido por direitos autorais] confuso, mas apenas assentiu.

— Imagino que [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu não tenha muita escolha.

— Finalmente você tá aprendendo. Enquanto estiver debaixo do meu teto, você faz o que [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu disser — balancei a mão em deboche — Eu sempre quis dizer isso.

— E isso inclui [Conteúdo protegido por direitos autorais] decidir quando vou sair da cama?

— Principalmente isso.

Ele ergueu [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma sobrancelha, mas não contestou.

— Você [Conteúdo protegido por direitos autorais] pensou na minha proposta?

— Qual? — perguntei, caminhando até um baú de [Conteúdo protegido por direitos autorais] madeira perto da cama — A de se casar com você?

— Essa também, mas, estava falando sobre [Conteúdo protegido por direitos autorais] style="font-weight: 400;">você me contar quem é o Carcará Fantasma.

— Ah... — Peguei uma muda de roupa e estendi para ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Preciso primeiro ter certeza de que ele quer te conhecer. Poderia... esperar um pouco?

Ele olhou para o gibão, a camisa branca e a calça de [Conteúdo protegido por direitos autorais] algodão cru que eu tinha separado para ele com uma expressão estranha no rosto.

— Essas roupas eram do meu pai e, pra sua sorte, ele tinha um porte igual ao seu — Apontei para as peças que ele estava usando — Seus trapos [Conteúdo protegido por direitos autorais] já não servem pra nada, então é melhor se trocar. Até porque nessa casa só tem mulheres e duvido que você queira parecer um tarado andando por aí com essas… roupas rasgadas.

Ele olhou para si mesmo, para a camisa com um rombo no [Conteúdo protegido por direitos autorais] peito e a calça rasgada em várias partes, antes de suspirar e pegar as roupas.

— Poderia dizer para o… Carcará que não quero nada além [Conteúdo protegido por direitos autorais] de sua ajuda para encontrar a criança? Já disse que pago tudo que pedir.

Assenti.

— Eu já entendi... não precisa repetir. Vou ver e te digo depois, [Conteúdo protegido por direitos autorais] tá? — Balancei a mão em desdém — Não demore muito. Vou te esperar na sala.

Deixei Apollo se trocar e voltei para a sala, onde Nina já estava com a menina. Não demorou muito [Conteúdo protegido por direitos autorais] para ele aparecer com as roupas do meu pai e, depois de juntarmos nossas coisas, saímos do sítio em direção ao riacho.

[Conteúdo protegido por direitos autorais] src="https://liewordonho.com/wp-content/uploads/2026/10/carcara.png" alt="" width="130" height="142">

O calor apertava cada vez mais, deixando muitas árvores peladas. Os juazeiros, antes volumosos, exibiam agora galhos quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] completamente nus, enquanto o barro vermelho e rachado surgia sob a mata, abrindo um caminho entre as duas manchas verdes.

Ao passo que íamos adentrando em direção às fazendas de cana de açúcar, fomos arrastando os [Conteúdo protegido por direitos autorais] pés cada vez mais e comecei a achar que tinha sido uma má ideia ter saído de casa. 

— Quintura duzinferno... por que ficou tão [Conteúdo protegido por direitos autorais] quente de uma hora pra ôta? — perguntou Mia, arfando.

— É por causa da Grande Sede — disse eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] — De tempos em tempos, ela provoca um forte aumento na temperatura.

— Que coisa paia — resmungou Mia, abanando [Conteúdo protegido por direitos autorais] o rosto com a mão, o que me fez rir.

— E isso não [Conteúdo protegido por direitos autorais] é um bom sinal… — comentou Apollo.

Suspirei, limpando [Conteúdo protegido por direitos autorais] o suor da testa.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] E quando é?

Mia [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhou para ele.

— Vai acontecer [Conteúdo protegido por direitos autorais] alguma coisa ruim? — sussurrou Mia.

— Sempre que a Grande Sede se torna ativa, [Conteúdo protegido por direitos autorais] alguma mudança acontece no planeta durante o ciclo... — começou Apollo.

— Vocês falam dessa Grande Sede como se ela fosse uma… deusa — comentou [Conteúdo protegido por direitos autorais] Mia — Será que ela fica brava quando a gente não faz o que ela quer?

Nina riu.

— Não é muito diferente de um. Ela é bem mal-humorada e vive interferindo no planeta [Conteúdo protegido por direitos autorais] — disse Nina, pegando a mão de Mia — Só espero que hoje ela esteja de bom humor.

— Ela é [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma mulher? — perguntou Mia.

— Dizem que é, mas… nunca conheci ninguém vivo que já tenha [Conteúdo protegido por direitos autorais] visto ela — respondi, pegando uma folha larga caída no caminho para me abanar.

Mia murchou a expressão e [Conteúdo protegido por direitos autorais] começou a chutar as pedrinhas no chão.

— Mana, você acha que o riacho [Conteúdo protegido por direitos autorais] ainda tá cheio, mesmo com essa lua? — perguntou Nina.

— Espero que esteja aguentando esse mormaço, porque se o riacho secar, vamos ter que bater na porta do prefeito pra pedir ajuda pra encher [Conteúdo protegido por direitos autorais] a cisterna lá de casa. E eu não tô nem um pouco a fim de me meter com política logo agora no meio do ciclo da Grande Sede.

— Então vamos logo, antes que ele seque! — disse Mia [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Eu não andei tudo isso pra chegar lá e não ter água.

Não consegui segurar a risada. Mia ainda não tinha entendido que o [Conteúdo protegido por direitos autorais] problema não era o riacho estar seco naquele momento, mas o que vinha depois.

— Os cangaceiros e coronéis da região também [Conteúdo protegido por direitos autorais] costumam ficar mais ativos nessa época, não é? — perguntou Apollo.

— Infelizmente — respondi, olhando para Mia que já parecia menos [Conteúdo protegido por direitos autorais] interessada no assunto — Pelo menos, o festival lá em casa deve começar logo. 

Os olhos [Conteúdo protegido por direitos autorais] de Mia se arregalaram.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Vai ter comida?

— É [Conteúdo protegido por direitos autorais] um festival — disse eu.

— Eu sei o que é um [Conteúdo protegido por direitos autorais] festival, o que quero saber é se vai ter comida.

Nina [Conteúdo protegido por direitos autorais] soltou uma risada.

— Gostei dela.

— Sim, vai ter comida — respondi, assentindo — O pessoal da região vai colher o que ainda tiver nas plantações e trazer as sacas de mandioca pra fazer farinha. E como a única casa de [Conteúdo protegido por direitos autorais] farinha fora do centro de Vila Imperatriz é lá em casa, o povo acaba vindo todo pra lá. Então, aproveitamos a deixa pra realizar o festival pedindo proteção pra deusa Serena e Zara durante o período da Grande Sede.

Mia [Conteúdo protegido por direitos autorais] fez uma careta.

— Ah... então [Conteúdo protegido por direitos autorais] vai ter gente... muita gente.

— Vai.

— Eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] não gosto de gente.

— Não se preocupa, eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] também não gosto — pisquei para ela.

Quando levantei o rosto, [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina estava fazendo careta para mim.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Que foi? — perguntei.

— Não estraga a minha sobrinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] antes de eu ensinar ela a gostar de romance.

Nina suspirou, pegou Mia pela mão e começou a mostrar algumas plantas pelo caminho. De vez em quando, Mia perguntava para que serviam e [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina olhava para mim, deixando que eu explicasse as suas propriedades medicinais. Quando se tratava de ervas usadas como tempero, porém, Nina explicava tudo com muita confiança.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Luna... — chamou Apollo.

— Hum? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Olhei de soslaio para ele.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Eu preciso encontrar a...

— Eu sei... — interrompi, sem muita paciência — Você tá [Conteúdo protegido por direitos autorais] preocupado que a Grande Sede esteja mais ativa por causa da criança, não é?

Apollo assentiu, [Conteúdo protegido por direitos autorais] parecendo um pouco sem graça.

— Já te disse que o meu contato vai recuperar a sua espada — suspirei, limpando a testa novamente — Não precisa ficar tão ansioso e não é como se [Conteúdo protegido por direitos autorais] um desastre fosse acontecer só porque a Grande Sede tá mais quente do que o normal. Nos últimos dois ciclos, ela não causou muito estrago, além da perda de plantações e animais, então…

— Ainda assim, temo [Conteúdo protegido por direitos autorais] que este ano possa ser diferente.

— O oráculo do seu [Conteúdo protegido por direitos autorais] povo disse alguma coisa? — Fiz uma careta.

— Sendo [Conteúdo protegido por direitos autorais] sincero... não souberam interpretar.

— E quando eles conseguem interpretar alguma coisa? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Dei de ombros — Mas o que foi que o oráculo disse?

— Apenas [Conteúdo protegido por direitos autorais] que grandes mudanças irão acontecer.

— Isso é bem vago até para ele... — Tentei me abanar [Conteúdo protegido por direitos autorais] com mais força com a folha — Por que Serena não pode ser mais direta?

Apollo [Conteúdo protegido por direitos autorais] franziu levemente a testa.

— Isso não é [Conteúdo protegido por direitos autorais] um pouco… desrespeitoso?

— Por quê? Só porque eu não chamo ela de Milady? De deusa? De minha senhora? — Dei de ombros, apanhando outra folha e [Conteúdo protegido por direitos autorais] entreguei a Apollo — Até onde eu sei, Serena é uma reclusa antissocial que não sabe dizer o que quer e só fica mandando mensagens enigmáticas irritantes.

Apollo deu uma boa gargalhada e, por algum motivo bem irritante, eu gostava daquele som. Tentei ignorar isso, [Conteúdo protegido por direitos autorais] à medida que seguíamos pelo caminho com Mia cada vez mais curiosa sobre as ervas e sobre como eu sabia tanto.

— Você tem quantos anos [Conteúdo protegido por direitos autorais] pra saber disso tudo? — perguntou Mia.

— Setenta e [Conteúdo protegido por direitos autorais] nove — respondi, meio distraída.

— Quê? Você tem quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;">oitenta anos? — perguntou ela, em choque.

Apenas assenti.

— E, só pra constar, eu tenho apenas [Conteúdo protegido por direitos autorais] vinte e cinco, Mia — disse Nina, apontando para si.

Mia olhou de [Conteúdo protegido por direitos autorais] mim para Nina, tentando entender.

— Mas… mas… por que [Conteúdo protegido por direitos autorais] vocês têm tanta diferença assim? — perguntou, baixinho.

— O meu pai é diferente do pai da Nina — expliquei enquanto pegava um cantil e o oferecia a Mia — O pai dela era dono do [Conteúdo protegido por direitos autorais] sítio e quando ele conheceu a minha mãe, eu estava na antiga fortaleza das feiticeiras, só que durante a última guerra, eu vim para cá e alguns anos depois, Nina nasceu.

Mia assentiu, mas logo seus olhos foram parar em [Conteúdo protegido por direitos autorais] Apollo que vinha alguns passos atrás. Ele soltou um suspiro pesado.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Eu tenho 81.

— Então você é mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] velho que Luna? — Mia franziu a testa.

— Porque será que não lembro de [Conteúdo protegido por direitos autorais] você quando fui ao reino dos encantados? — perguntei.

Apollo [Conteúdo protegido por direitos autorais] deu de ombros.

— Talvez nós simplesmente [Conteúdo protegido por direitos autorais] não tenhamos nos encontrado naquela ocasião.

— Faz sentido.

Pelo jeito, Apollo não estava muito disposto a prosear, então deixei que ficasse com os próprios pensamentos. Fiquei aliviada quando finalmente chegamos à margem do riacho. A água [Conteúdo protegido por direitos autorais] estava mais baixa do que de costume, deixando boa parte do leito à mostra, mas ainda havia o suficiente para não estar parada nem turva, talvez até conseguíssemos pescar algum peixe.

— Pega! — disse, jogando uma vara de pescar [Conteúdo protegido por direitos autorais] para Apollo — Você tem algum problema em pegar peixe pra comer?

Ele segurou a vara com a [Conteúdo protegido por direitos autorais] mão livre, ajeitando o braço ferido junto ao corpo.

— Nem um [Conteúdo protegido por direitos autorais] pouco. Eu também como carne.

— Hum, então preciso te pedir desculpas. Pensei [Conteúdo protegido por direitos autorais] que fosse um desses comedores de planta metidos a besta.

Apollo [Conteúdo protegido por direitos autorais] estreitou os olhos.

— Tudo bem — disse ele, concordando [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Posso entender por que você não gosta deles.

Enquanto Apollo se afastava, fui até um [Conteúdo protegido por direitos autorais] juazeiro e arranquei dois galhos, entregando um deles para Mia.

— O que acha da gente [Conteúdo protegido por direitos autorais] brincar um pouquinho, Mia? — tirei a alpercata.

Ela olhou para o graveto na [Conteúdo protegido por direitos autorais] mão, depois para o meu e fez uma careta.

— Preciso saber o quanto você sabe [Conteúdo protegido por direitos autorais] se proteger — disse eu, dando um passo para frente.

Mia deu um pulo para trás, assustada e meio desengonçada, mas com bons reflexos. Passei um tempo mostrando como estocar, aparar golpes e controlar o peso de uma espada, facão ou peixeira, corrigindo seus passos, o [Conteúdo protegido por direitos autorais] equilíbrio e o jeito de segurar a lâmina. Saber se defender era importante naquele mundo e se ela não aprendesse a manejar uma arma, podia acabar indefesa outra vez e eu não ia deixar isso acontecer de novo.

— Eu... ainda não entendi uma coisa — disse Mia, arfando, enquanto eu lhe [Conteúdo protegido por direitos autorais] dava alguns segundos para recuperar o fôlego — Por que tem tanta raça diferente por aí?

— Ah, isso é uma história comprida… — respondi, relaxando o ombro — Dizem que os humanos eram muito mais avançados antigamente até que a Grande Sede apareceu no céu. Ninguém [Conteúdo protegido por direitos autorais] sabe direito o que aconteceu, só que supostamente existia uma espécie de manta protetora em volta do planeta que evitava essa quintura toda e, quando ela se rompeu, foi aí que tudo começou.

Apontei para uma esfera [Conteúdo protegido por direitos autorais] avermelhada cercada por anéis luminosos no céu.

— Os antigos morriam [Conteúdo protegido por direitos autorais] de medo de olhar pra essa coisa.

Os olhos de [Conteúdo protegido por direitos autorais] Mia foram da esfera para mim.

— Aquilo é um [Conteúdo protegido por direitos autorais] deus de verdade ou… só algo esquisito?

— Não faço ideia. Nunca consegui perguntar pra Zara e, pra falar [Conteúdo protegido por direitos autorais] a verdade, acho mais fácil encontrar um dragão do que conseguir uma resposta da Serena.

Mia inclinou a cabeça, [Conteúdo protegido por direitos autorais] tentando entender e eu apenas sorri.

— Enfim, o que eu sei é que aquilo é supostamente o corpo dessa coisa que foi nomeada de a [Conteúdo protegido por direitos autorais] Grande Sede. Tá vendo como ela tá brilhando em um vermelho tão intenso que parece uma bola de fogo?

Mia olhou para a [Conteúdo protegido por direitos autorais] esfera por mais alguns segundos e assentiu.

— Pois é. Quando ela fica assim, a Grande Sede tá ativa e é por isso que tá esse [Conteúdo protegido por direitos autorais] calor dos infernos. Pra o nosso azar, ela volta a ativa a cada nove anos e fica por uns… seis meses.

Mia [Conteúdo protegido por direitos autorais] arregalou os olhos.

— Seis [Conteúdo protegido por direitos autorais] meses?! Com esse calor todo?

— Infelizmente, é [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma época bem filha da pu…

— Luna… olha [Conteúdo protegido por direitos autorais] a boca — protestou Nina.

— Desculpa — suspirei, limpando a testa — De qualquer forma, pelo que dizem, [Conteúdo protegido por direitos autorais] setecentos anos atrás era muito pior. Era mais quente e bem mais difícil sobreviver por aqui. 

Mia coçou a cabeça e eu quase podia ver a fumaça saindo dela. Era [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma garota inteligente, mas talvez aquilo tudo fosse informação demais para uma criança de sete anos.

— Enfim… a gente aprende a se virar até nas situações mais desgraçadas — pisquei, [Conteúdo protegido por direitos autorais] acariciando a cabeça de Mia — Então não esquenta essa cabecinha, você não precisa entender tudo isso agora.

Ela assentiu, colocando a espada outra vez em posição [Conteúdo protegido por direitos autorais] de defesa. Não é que a garota tava ficando boa naquilo.

— Por sinal... quando é o seu [Conteúdo protegido por direitos autorais] aniversário? — perguntei, me aproximando para ajeitar a sua postura.

Mia baixou os olhos. Ela estava muito diferente de ontem, mais calma, [Conteúdo protegido por direitos autorais] menos arisca e agora parecia até um pouco envergonhada, encarando o galho entre as mãos.

— É... [Conteúdo protegido por direitos autorais] daqui a alguns dias.

Arregalei os olhos e [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina apareceu do nada do meu lado.

— Daqui a alguns dias? — Nina bufou, balançando a cabeça para [Conteúdo protegido por direitos autorais] mim — Mana, a gente precisa fazer uma festa pra ela!

— Não... não precisa... [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Mia gaguejou — Eu nunca...

— Claro que precisa. A gente nem fez sua festa de boas-vindas ainda — falei, segurando [Conteúdo protegido por direitos autorais] o ombro dela — Além disso, Nina não vai me deixar em paz até a gente fazer essa festa.

Mia levantou os olhos, e parte da bochecha estava corada. Era uma criança fofa. Mesmo depois de tudo [Conteúdo protegido por direitos autorais] que tinha passado, ainda guardava certa ingenuidade e eu queria que continuasse assim por muito tempo. Levantei o rosto e encarei a Grande Sede.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Luna? — Mia sussurrou.

— Sim?

— Se todo mundo era humano antes... por [Conteúdo protegido por direitos autorais] que só os humanos ainda são humanos?

— Você [Conteúdo protegido por direitos autorais] ainda tá pensando nisso?

Ela assentiu.

— Pelo pouco que sabemos, eles se consideram assim porque não sofreram grandes… modificações e conseguiram preservar boa parte dos conhecimentos da antiga sociedade. Tiveram a [Conteúdo protegido por direitos autorais] sorte de nascerem nobres e permanecerem protegidos em cavernas subterrâneas durante os cem anos da primeira Grande Sede — disse Apollo, aproximando-se com o balde cheio de peixes.

Ele fez uma breve pausa, me encarando antes de olhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] para Mia, como se quisesse ter certeza de que ela estava acompanhando.

— Por causa disso, eles nomearam às outras raças, então, por exemplo, os que tinham uma sede insaciável por sangue passaram a ser chamados de vampiros. As mulheres que conseguiam [Conteúdo protegido por direitos autorais] se transformar em aves foram associadas à bruxaria, já os encantados... bem, muitos conseguiam assumir formas de animais e, como as antigas histórias já falavam de criaturas assim, o nome acabou pegando.

— Será que os vampiros não gostaram de serem [Conteúdo protegido por direitos autorais] chamados assim e por isso que se rebelaram? — Mia perguntou.

Sorri de [Conteúdo protegido por direitos autorais] lado, acariciando a cabeça dela.

— Podia ser, mas o que eles queriam mesmo era um lugar no conselho da Utopia, pra poderem falar pelo próprio povo, mas, pra variar, os humanos não deixaram. Como [Conteúdo protegido por direitos autorais] os humanos são descendentes dos nobres de antigamente e as outras raças vinham de gente comum… — disse eu — Eles acham que são os únicos puros com direito de governar o planeta.

— Então... a gente não fez nada de ruim pra eles odiarem a gente? Porque… pelo que entendi… foram os vampiros que sempre brigaram pra [Conteúdo protegido por direitos autorais] ser os reis do mundo, não foram? — Mia sentou no chão, fazendo círculo no chão com a o galho — Então, por que eles odeiam as feiticeiras?

— O que eu sei é que as feiticeiras de antigamente fizeram… algumas coisas, só não sei se isso explica porque eles nos odeiam. Dizem por aí que, quando as nossas antepassadas se transformavam, algumas simplesmente… perdiam o controle. E, como [Conteúdo protegido por direitos autorais] naquela época, ainda não sabiam lidar com a mente animalesca, acabavam atacando assentamentos, invadindo cidades e matando quem aparecesse pela frente. Daí essas histórias foram passando de geração em geração, ficando cada vez mais assustadoras que até tem uma música sobre uma delas.

— Cuidado com a Cuca, que a Cuca te pega. Pega daqui e pega de lá. [Conteúdo protegido por direitos autorais] A Cuca é malvada e, se fica irritada, a Cuca é zangada. Cuidado com ela — Apollo cantarolou.

— Pelo que eu sei, essa música foi feita pra uma antepassada minha. Dizem que ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] era uma feiticeira serial killer que saía por aí matando famílias e sequestrando crianças — falei, dando de ombros.

Mia arregalou os [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhos, mas me apressei em continuar:

— E até hoje, ensinam pras crianças que, se virem uma mulher de olhos âmbar, é melhor ficar longe e, se [Conteúdo protegido por direitos autorais] precisarem falar com uma de nós, é bom não fazer nada pra irritar. Nunca entendi isso, afinal, eu nem sou tão assustadora assim.

Mia [Conteúdo protegido por direitos autorais] começou a rir.

— Quando você tá lutando, [Conteúdo protegido por direitos autorais] é bem assustadora — disse Mia, entre risos.

— Ah, é? Então acho que vou ter que [Conteúdo protegido por direitos autorais] te mostrar como uma feiticeira maligna faz quando pega uma criança.

Peguei Mia pela cintura e a puxei para o colo. Assim que os meus dedos [Conteúdo protegido por direitos autorais] encontraram a sua barriga, ela soltou uma gargalhada e se encolheu, tentando proteger as costelas com os braços.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Para, Luna! Para!

Continuei só mais um pouquinho, desviando das mãozinhas que tentavam me afastar. Mia se contorcia no meu colo, chutando o ar [Conteúdo protegido por direitos autorais] e rindo tanto que mal conseguia formar as palavras. Quando finalmente parei, ela se agarrou ao meu pescoço, ainda sacudida pelos últimos risinhos.

— Eu sou muito malvada! — declarei, rindo — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Uma feiticeira terrível que vai fazer cócegas até você morrer de rir!

Coloquei Mia no [Conteúdo protegido por direitos autorais] chão, ainda vermelha de tanto rir.

— Enfim, chega, agora é hora do banho, mocinha — Olhei [Conteúdo protegido por direitos autorais] para Nina — E vamos voltar pra casa, porque temos uma festa pra preparar!

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