Olhando as estrelas que cobriam o céu sem lua, procurei a cruz formada por cinco estrelas. Os antigos diziam que, durante a Grande Sede, essa era a única coisa que lhes trazia um pouco de tranquilidade.
Sentindo o suor escorrer pela minha testa, ajeitei a menina no colo, onde dormia como se aquele fosse o lugar mais confortável possível. De vez em quando, ela abria os olhos para me encarar e logo voltava a dormir, então continuei cantarolando e ajeitando-a contra o peito sempre que precisava, até ter certeza de que estava tranquila.
A cada poucos passos, aproximava a minha bochecha da testa dela, só para ter certeza de que a febre não tinha aumentado, porque apesar das feridas já terem cicatrizado, o trauma que deixaram, talvez demorasse muito mais para passar.
Quando finalmente cheguei em casa, já era bem tarde da noite, talvez madrugada e uma gralha-do-campo sobrevoava o telhado.
Olhei para a menina e depois para a ave, mas não senti a presença de nenhuma outra feiticeira além da minha irmã e dela. Só deve ser uma ave qualquer. Embora aquilo fosse estranho, porque os bichos comuns evitavam se aproximar daqui, fosse por causa dos artefatos que usava como proteção na cerca, fosse porque o cheiro dos nossos corpos fazia os animais estremecerem de medo.
De qualquer forma, quando cheguei perto o suficiente da porta, a ave alçou voo e alguma coisa presa em suas patas brilhou.
Será que estava caçando algo? Entrei em casa e encontrei o rádio do meu pai, que ficava numa estante da sala, ligado na reprise dos noticiários da capital. Enquanto levava a menina para o meu quarto, escutei que um grupo revolucionário protestava contra os Chicos, culpando o governo pela existência dos aluados e pela animosidade do novo imperador contra os reinos vizinhos.
Fora isso, o noticiário mencionou uma nova doença que estava deixando algumas pessoas enfermas nas favelas próximas à capital imperial, Porto Rubro. Talvez fosse só uma preocupação besta, mas uma doença surgir justamente quando a Grande Sede voltava a ficar ativa me parecia um mau agouro.
Continuei andando pelo corredor com a menina ainda agarrada ao meu cangote e só quando tentei colocá-la na cama, percebi como os seus bracinhos eram finos e delicados. Não eram totalmente cambitos, mas magros o suficiente para deixar claro que ela não comia bem havia algum tempo.
Preparei uma papa de água e sal, e quando tentei acordá-la para comer, ela apenas murmurou alguma coisa antes de continuar dormindo. Sentei-me ao lado da cama e comecei a alimentá-la às colheradas, segurando sua cabeça para que não se engasgasse.
Só depois de deixá-la acomodada percebi o quanto eu estava cansada. A vertigem veio quando tentei me levantar, lembrando-me de que, depois de tantos combates e de abusar da minha transformação, eu precisava relaxar. Enchi o tanque de banho que, sem dúvidas, era uma das melhores coisas que meu pai tinha construído naquela casa, para me lavar olhando para as estrelas. Com a água já cobrindo boa parte da banheira de barro, fui ao quarto dele buscar uma toalha limpa.
Empurrei a porta sem bater, porque ainda não tinha me acostumado com a ideia de que a casa não era mais só minha e de Nina, e acabei dando de cara com Apollo sem calça, de costas para mim. Parei por um instante, observando de cima a baixo, antes de voltar para o rosto dele que me encarava com a testa franzida.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou ele, ao caminhar até a calça sobre a cama.
Não desviei os olhos de imediato, pois já tinha visto o que era para ver e nada daquilo havia me desagradado.
— Desculpa, eu... — limpei a garganta, entrando no quarto sem pressa — Esqueci de bater. Vim só pegar uma… toalha.
Ele deu alguns passos em direção à cama, mas o corpo falhou antes que alcançasse a calça. Antes que ele caísse, segurei-o pelo braço e o ajudei a se sentar, sentindo a camisa úmida sob os dedos e percebendo a sua careta de dor.
Por que Apollo tinha vestido a camisa antes da calça? Eu sabia que ele era estranho, mas não tanto, será que ele queria esconder alguma coisa?
Esperei, enquanto ele vestia a calça sentado, observando-o fazer outras caretas sempre que movia o ombro. Quando terminou, agarrei a frente da camisa, fazendo-o se virar forçadamente.
— O que você tá me escondendo? — perguntei e levantei o tecido para ver as suas costas.
— Eu não estou... — ele começou.
Havia um sulco fundo e irregular no alto, de onde o sangue escorria, mas o pior era a própria articulação, que parecia ter decidido abandonar o resto do corpo e arrastar o braço junto. Grunhi ao encarar o ferimento. Apollo tinha conseguido se machucar de novo e, de quebra, me arrumado mais uma dor de cabeça. Do jeito que estava, comecei até a desconfiar que ele tinha feito isso de propósito, só para continuar comendo de graça aqui.
— O que é que você fez para se ferir desse jeito? — perguntei, incrédula, encarando o ombro deslocado — Que merda Apollo!
— Tentei me… movimentar um pouco. Dizem que, para se curar, é preciso se movimentar, certo? — disse ele, parecendo querer me convencer — Mas como deu para ver, ainda não estou totalmente curado, então… acabei deslocando o ombro um pouco quando me transformei e voltei ao normal. Você sabe como é… o meu corpo demorou para acompanhar a mudança de forma e alguma coisa saiu do lugar no processo.
Ergui a sobrancelha, voltando a encarar a ferida.
— Alguma coisa? — Estalei a língua — Se para você isso é deslocar um pouco, nem imagino o que considera ter seu braço totalmente arrancado.
Peguei uma pilha de panos dentro da mesinha de canto e comecei a enxugar o sangue.
— Eu me empolguei um pouco — disse ele, parecendo sorrir, mas nem me dei o trabalho de olhá-lo — Passar tantos dias deitado estava me deixando tão sufocado que até… temi não saber mais usar a minha metamorfose.
O ângulo do ombro estava totalmente esquisito e aquilo não parecia um deslocamento só por ter errado a transformação. Esse idiota tinha ido para onde?
— Eu preciso colocar o osso no lugar antes que você morra por causa de uma infecção — disse eu, grunhindo — Esta é a pior parte, então se segura um pouco e grite, mas… sem ser muito alto pra não acordar a Nina.
Olhei apenas o suficiente para vê-lo assentir. Segurei o seu ombro, firmei o braço e me preparei para colocá-lo no lugar com um impulso rápido.
— Confio em você, Luna — sussurrou ele — Isso pode doer, porém duvido que doa mais do que está doendo, então... vá em frente.
— Você confia em alguém só porque tão te dando comida e um teto? — fiz uma careta — Porque, sinceramente… eu não confio em você, já que nem sei quem diabos você é.
O suor já brotava no meu rosto, porque recolocar uma articulação do ombro era um trabalho árduo nas melhores circunstâncias. Só esperava que ele não desmaiasse quando o osso voltasse ao lugar.
— No três… — avisei, olhando-o de soslaio.
Ele assentiu.
— Três.
O ombro emitiu um estalo suave e a articulação voltou ao lugar. Afastei-me um pouco e ele me encarou com os olhos esbugalhados, genuinamente espantado. Por algum motivo inexplicável, aquilo me fez sentir bem. Ainda incrédulo, Apollo levou a mão ao ombro e começou a explorar o que eu tinha feito.
— Não dói mais! — Um sorriso largo de alívio se espalhou pelo rosto dele.
— Não dói agora, mas ainda vai doer — respondi, ainda suando pelo esforço, mas satisfeita com o resultado — O ombro vai ficar sensível por vários dias, então pega leve, do tipo… pescar e fazer uma caminhada.
No meio das instruções, percebi que, embora ouvisse respeitosamente, ele me olhava com uma expressão que ia da admiração à suspeita declarada.
— Sei o que tá se perguntando. Morar sozinha com a minha irmã me fez aprender uma ou duas coisas — expliquei, já na defensiva — Conheci também muitas curandeiras que me ajudaram a cuidar de Nina, então, se você quiser usar esse braço de novo, recomendo que você me escute e faça o que eu digo.
— Já disse, eu confio em você — O olhar dele parecia sincero.
Dei um sorriso desdenhoso, lavando a mão na bacia.
— A sua irmã parece bem… fragilizada — disse ele — Vocês duas são feiticeiras… não são?
— Sim... — eu disse estreitando os olhos, será que ele já estava desconfiando que eu era a carcará fantasma? — Tá com medo que eu vá comer seu fígado?
— Não, é… porque... — Ele levantou o rosto e me encarou — A sua irmã sofre das escamas?
— Sim — respondi com aspereza — E peço desculpas se ela lhe incomodou. A minha irmã não tem muito o que fazer, então, quando aparece alguma novidade, ela fica extremamente focada.
— Não, não! Ela não me incomodou — Ele pareceu procurar uma posição mais confortável para apoiar o braço — Quando foi que… a doença começou a se manifestar?
— Primeiro, preciso desinfetar esse ferimento — interrompi, percebendo que a dor começava a incomodá-lo. Fiz com que se virasse de costas de novo e examinei o ombro com cautela — Não sei que maluquice você fez, mas evite repetir enquanto estiver na minha casa. Um galho atravessou seu ombro?
— Você parece não ter muitos recursos por aqui, mas consegue fazer tanto com tão pouco... — Apollo aparentou medir as palavras, dando a impressão de que também tentava mudar de assunto — Vejo que é uma mulher de muitas virtudes, o que torna essa sua mesquinharia quase... uma armadura? É por isso que precisa de dinheiro?
— Você é mesmo um intrometido, não é? Tá querendo sondar para saber se eu valho a pena como esposa? — eu disse com deboche.
— Não, só… queria saber se posso ajudar com alguma coisa.
— Pode — disse eu — Evite que eu tenha que gastar mais recursos com você e suas feridas.
Por algum motivo aquilo o fez rir. Que cara mais esquisito… será que era masoquista e gostava de ser tratado com desdém?
— Mas, já que você quer saber — suspirei — Vamos fazer um acordo então. Eu te digo algumas coisas sobre mim, você me diz algumas coisas sobre você. Não precisam ser verdadeiras. O que você me disser, eu decido se acredito ou não, e você faz o mesmo.
Ele balançou a cabeça em concordância.
— As pessoas da região não gostam muito de mim, mas, quando ofereço dinheiro, esquecem quem eu sou, mesmo que muitas vezes eu tenha que pagar mais do que o necessário — expliquei, ao começar a tirar a camisa dele, ajudando-o a erguer o braço — O dinheiro é pra financiar algum médico particular pra cuidar de Nina. Nos últimos tempos, a doença tem ficado mais… agressiva, então preciso de um pesquisador de sangue amaldiçoado.
— Por que você não pede ajuda ao reino dos encantados?
— Como eu disse, as pessoas não gostam de mim e isso inclui o seu povo — disse eu. Ao ver que ele não parecia entender, tentei explicar de novo: — Sou uma das últimas feiticeiras, filha de pai e mãe com sangue de feiticeiros. Além disso, no passado… matei alguns membros da nobreza do seu povo, então só tenho boa relação com a encantada desta região.
— Você é uma das… que foram vendidas para os inquisidores do império? Pelo antigo rei?
Assenti.
— Mas isso aconteceu já faz muito tempo, não é algo importante… — disse eu, com toda a paciência que pude — Agora vamos ser sinceros... Seu povo iria oferecer ajuda para uma feiticeira que fez parte da revolta que matou o seu antigo monarca?
Ele pareceu ponderar a pergunta. Quando as suas costas ficaram totalmente expostas, vi um emaranhado de linhas brancas e desbotadas, cicatrizes que visivelmente não eram recentes. Reconheci nelas marcas de espancamentos, chicotadas e outros ferimentos causados com selvageria, mais de uma vez.
— Inclina um pouco o corpo para a frente — pedi, passando um braço por baixo do dele para ajudá-lo a se ajeitar — Preciso limpar esse ombro.
Ele obedeceu e comecei a limpar o ferimento com um pano úmido. Meus dedos deslizaram por uma das cicatrizes mais fundas e, no mesmo instante, senti o corpo dele estremecer sob o meu toque.
— Desculpa, eu... não queria ser invasiva — murmurei, voltando a atenção para o ombro.
— Não se preocupe. Eu já fui tocado de maneiras muito piores e por gente bem menos bonita — disse ele.
Dei um sorriso de lado, me atentando a limpar a ferida.
— Quem quer que tenha feito isso te odiava muito — eu disse, fazendo uma careta.
— Na verdade... eu mereci — disse ele, quase sem força na voz.
— Você é algum ladrão? Ou um criminoso muito procurado no reino dos encantados?
— Não. Foi a minha madrasta, mas… ela tinha seus motivos.
— Para te machucar, açoitar e ferir dessa forma? Ela não parece uma boa pessoa… — estreitei os olhos ao torcer o pano, sentindo uma raiva inesperada subir pelo peito — Mesmo pra um encantado, deve ter demorado muito para cicatrizar.
— É um pouco complicado... Ela é alguém muito importante no reino e, bem… eu era... — ele hesitou — Um bastardo. Alguém de quem ela foi forçada a cuidar.
— Ela te bateu apenas... — tentei manter a voz firme ao passar a esponja pela pele, com movimentos mais bruscos do que pretendia — Porque o seu pai não segurou as próprias calças? Ela não devia punir o seu pai ao invés de você?
— Eu sei, parece meio idiota quando se fala em voz alta...
— Não que seja justificável uma madrasta fazer algo assim, mas… você, realmente, fez alguma coisa para ser punido desse jeito?
— Eu fui... — Vi a mandíbula dele travar — Culpado por algo que aconteceu com o meu irmão e que… o marcou para sempre.
— Filho dela, eu presumo.
Ele assentiu.
— Bem... sendo sincera, eu não confiaria em um homem que não tem feridas ou cicatrizes pelo corpo — Mordi o lábio, surpresa com a minha própria franqueza — Eu também tenho algumas feridas que me trazem lembranças nada agradáveis, mas isso, mostra que eu lutei por tudo, passei por muita coisa e mesmo assim ainda tô viva, mesmo muita gente, preferindo que eu fosse apenas, uma marcação em uma lápide.
Ele suspirou e moveu o ombro. Parecia cansado e machucado em partes que eu não era capaz de curar ou aliviar, por mais que tentasse ser gentil.
— Essas suas… feridas foram causadas pelos... pesquisadores? — ele perguntou e sua voz me passou a sensação de que ele estava irritado.
— Sim.
— Se você não confia nos encantados... — disse ele, olhando para mim por cima do ombro com uma veia saltada no pescoço — Por que você ainda mora perto dos humanos?
— O pai de Nina era dono desse lugar. Ele sempre ajudou as pessoas da cidade e mesmo que me olhem estranho, não nos fazem mal aqui — respondi, cada vez mais confusa com a facilidade com que as palavras saíam — Sem contar que o líder dos Chicos daqui é tio dela, então… digamos que estamos protegidas. Nem um nobre do império ousaria colocar um dedo em nós, enquanto ele estiver aqui.
Ele esfregou a testa com a mão livre.
— Ah... Quer dizer que a sua irmã é uma mestiça?
— Isso. Somos irmãs só por parte de mãe — falei em tom leve, esperando distraí-lo do que eu fazia.
— Por isso que ela não se adaptou ao sangue? — perguntou.
Balancei a cabeça em negação.
— A minha irmã era capaz de se transformar, mas… por causa dos experimentos acabou perdendo as habilidades e a doença se manifestou.
— Então é verdade? — Ele engoliu em seco — De que eles faziam vocês se metamorfosearem parcialmente e arrancavam as suas asas?
Terminei o curativo e permaneci quieta atrás dele, com a mão pousada sobre o seu ombro bom. A minha mente pareceu abrir uma caixa trancada e as memórias daqueles dias voltaram de forma sufocante. Prendi a respiração, tentando impedir que aquilo transbordasse e me deixasse ainda mais confusa, fragilizada e exposta.
— Sim... — respondi, respirando com dificuldade — Mas a doença de Nina demorou para se manifestar. Pensávamos que ela só tinha perdido os poderes, mas, dois anos atrás... a doença se ativou e ela ficou como… você a viu.
— Eu realmente não entendo... — disse de repente — Como você ainda consegue conviver com os humanos?
— Como eu disse eles podem me olhar com medo, terror ou pavor... — eu disse em voz baixa — Mas isso nem se compara com o que os nobres fizeram com a gente... Não tenho motivo pra odiar a todos só por causa de alguns.
Ele sorriu de repente e a névoa de dor pareceu desaparecer de seus olhos.
— Estou começando a entender que tipo de pessoa você é... Lady Luna — disse ele, parecendo finalmente perceber que o curativo estava completo.
— Não sou Lady, não me chame assim — respondi, afastando-me — De qualquer forma, você não deve mexer o seu ombro ainda, na verdade... — olhei para a mesa, certificando-me de que ainda havia tiras de pano que pudesse usar — Vou amarrar esse braço junto ao corpo pra evitar que você faça mais uma estripulia.
Uma estranha sensação de intimidade tomou conta de mim quando passei a faixa envolta do peito dele. Para conseguir prendê-la, precisei me aproximar ainda mais, quase encostando o rosto nas costas dele, mas ainda assim, não me senti desconfortável ou esquisita com aquela proximidade. Talvez fosse porque eu já me sentia confortável o bastante até para compartilhar um pouco do meu passado. Quando terminei de amarrar a faixa, ajudei-o a vestir uma camisa limpa, passando o tecido com cuidado pelo ombro machucado.
— Mas, pensando bem, só eu falei até agora... — fiz uma careta — Sua madrasta te machucou só por causa desse motivo?
— Não apenas por isso, ela procurava vários motivos diferentes, o último foi que eu me recusei a aceitar os casamentos que ela tentava me empurrar.
— Ah... então foi por isso que você fugiu?
— Eu não fugi. Eu já disse a você, estou procurando a criança que Lady Serena mandou.
— Sei... — assenti, em deboche — Deixa ver se eu entendi... Você teve problemas com sua madrasta, recusou os casamentos que ela queria arrumar para você e acabou vindo parar longe do Reino dos Encantados atrás de uma criança que, supostamente, é o primeiro milagre... Apollo, sua vida é bem mais complicada do que eu imaginava.
Apollo soltou o ar pelo nariz, num quase riso.
— Falando assim, parece estranho, não é? — Ele pareceu relaxar — Mas, sendo sincero, preciso realmente encontrar essa criança para ajudar o meu… irmão.
— Seu irmão? — franzi o cenho — O que aconteceu com ele?
— Ele está… doente e eu não tenho outra maneira de ajudá-lo. Supostamente, só essa criança é capaz de curá-lo.
— Hum... — estreitei os olhos — Essa criança tem o dom da cura?
— Assim como você... pelo que notei — respondeu ele.
— Ela seria capaz de curar qualquer doença?
— Não sei... — Ele pareceu entender do que eu estava falando — Mas, se essa criança for capaz de curar a sua irmã... você me ajudaria?
— Sendo sincera... não confio muito nesse boato, mas, se for verdade, talvez — uni as sobrancelhas — Você realmente acha que é?
— Tenho esperança de que sim. Só o meu irmão é capaz de fazer a minha madrasta parar com o que está fazendo.
— Ah... — sorri com sarcasmo — Então você tá atrás dessa criança porque quer escapar do casamento que a sua madrasta quer arrumar pra você? Agora entendi…
— Não! Eu...
— Eu entendo — assenti com condescendência, cruzando os braços — É uma fuga bem elaborada, admito.
— Não é isso...
— Mas por que a sua madrasta quer tanto que você se case? Você deve ser um nobre bem importante — disse, rindo.
— Eu… — ele engoliu em seco — Sou.
Arregalei os olhos, sentindo uma onda de satisfação e me levantei quase dando um pulinho de alegria.
— Eu sabia! — assenti — Então vou cobrar caro, viu? Se eu te ajudar a encontrar essa criança, vou receber um bônus?
Ele se virou na minha direção com um sorriso contido.
— Pagarei tudo o que devo a você e, se isso não for suficiente, posso lhe oferecer tudo o que tenho ou… caso seja isso que deseja, posso me casar com você.
Pisquei algumas vezes.
— Se casar comigo? — apontei para mim mesma, incrédula — Apollo, eu só quero o seu dinheiro. Não quero o seu... — apontei para ele, percorrendo-o com os olhos — Corpo bem definido, bonito e... elegante.
— Não vejo por que isso seria um problema, você poderá ter o dinheiro e o meu… — Ele soltou uma risada baixa — Acho que seria uma solução bastante conveniente para nós dois.
— Você tá insistindo bastante nessa história — estreitei os olhos, segurando um sorriso — Tá começando a parecer que você quer se casar comigo. De qualquer forma, eu agradeço a oferta… tentadora — pisquei para ele — Mas não quero um marido, apenas uma boa e bem gorda bufunfa.
— Eu apenas estou apresentando uma opção.
— Sei...
Apollo estendeu a mão, ainda sentado diante de mim, como se fosse tocar o meu rosto, mas pareceu pensar melhor. Seus dedos vacilaram antes de recuar e supus que ele também estivesse sentindo aquela estranha onda de intimidade que parecia nos envolver.
— Você… pode me dizer onde está o carcará-fantasma? — ele sussurrou abaixando a cabeça.
— Vou pensar no seu caso... agora descansa um pouco, porque amanhã você vai tomar um bom banho e depois a gente vai dar uma caminhada — apertei o nariz entre os dedos, fazendo uma careta — Sério, quantos dias você ficou sem tomar banho antes de eu encontrar você?
Ele riu, um som que pareceu penetrar a minha mente. Por um momento, não consegui desviar o olhar dos olhos esmeraldas que me fitavam de forma profunda.
Merda... eu estava ferrada. Maldita Serena, sabia bem qual era o meu ponto fraco.