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CAPÍTULO 4 - AS DUAS FEITICEIRAS

“Guerreia contra todo mal, com sua espada na mão, ilumina meus caminhos -
Ana Cacimba, Oyá”
Trilha Sonora do Capítulo
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Segui para o noroeste da cidade, deixando as últimas casas para trás e com elas o barulho do centro, até restar apenas [Conteúdo protegido por direitos autorais] o som dos meus próprios passos. O caminho de terra batida terminou diante de um rio e levantei a saia, procurando um trecho mais raso.

Isso seria uma ótima oportunidade para pescar, não seria? Fiz uma careta, porque, sem dúvida, devia ter trazido uma vara de pesca. Quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] salivei só de imaginar o gosto de um peixe assado, mas só me restou de forma frustrada atravessar o rio, segurando a saia com a ponta dos dedos. 

Os peixes passavam por mim e quase no mesmo instante comecei a pensar se Apollo comia carne ou era vegetariano. Do jeito engomadinho que ele parecia ser, provavelmente, não era carnívoro. Ainda assim, talvez ele topasse uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] ida ao velho riacho comigo e com Nina. Quem sabe pescar, preparar alguns peixes grelhados e passar um dia inteiro sem nenhuma missão maldita no caminho. Só de imaginar, já sentia o meu corpo implorando por uma boa folga.

Ao chegar do outro lado, afastei aqueles pensamentos e voltei minha atenção para a estrada. Segui [Conteúdo protegido por direitos autorais] mata adentro com a vegetação se fechando cada vez mais, até que um estalo seco veio da minha esquerda. 

Parei por um instante, procurando algum movimento entre as árvores, mas nada se mexeu. Talvez fosse só minha paranoia, mas prevenir era melhor do que remediar,  então [Conteúdo protegido por direitos autorais] mantive a audição aguçada, porque seria uma merda ser pega de surpresa num lugar isolado como esse. Contudo, o que escutei foram apenas trotes de animais, talvez, de alguns cachorros-do-mato.

Sem me preocupar com o que quer que estivessem fazendo, continuei andando pela mata. Alguns minutos depois, as antigas construções das cidades pré-Grande Sede surgiram entre a vegetação. À [Conteúdo protegido por direitos autorais] minha frente, a praça abandonada estava em ruínas e procurei ao redor algum lugar onde alguém pudesse estar escondido, porque aquele tipo de localização era perfeito para os cangaceiros montarem seus assentamentos.

À minha direita, no fundo da praça, a velha igreja da deusa Serena ainda estava de [Conteúdo protegido por direitos autorais] pé, apesar de parcialmente destruída. Se eu quisesse preparar uma emboscada, aquele seria o melhor canto para me esconder.

Levantei o rosto, protegendo os olhos com a mão, à medida que a luz entre as árvores perdia força. O sol já estava se pondo [Conteúdo protegido por direitos autorais] e não gostei nem um pouco da ideia de continuar ali quando escurecesse, então sem pensar muito, fui até a porta da igreja e entrei de vez. 

O teto estava quase todo destruído e restavam poucos lugares onde alguém poderia se esconder. Atrás do altar, a [Conteúdo protegido por direitos autorais] estátua da deusa Serena ainda estava intacta, representada com longos cabelos, uma coroa sobre a testa e vestes que caíam pelos ombros.

— Por que você não resolve isso de uma vez, igual à deusa Zara? — me sentei no único banco de madeira que ainda [Conteúdo protegido por direitos autorais] parecia usável — O planeta é seu, não é? Então por que é que a sua irmã tá tão interessada em descobrir o que tá acontecendo aqui?

Talvez fosse Serena me punido pela afronta ou talvez fosse só coincidência, mas uivos começaram a ecoar do lado de fora e me [Conteúdo protegido por direitos autorais] levantei, já sacando o facão. Diferentemente de antes, os uivos estavam mais altos e agudos, será então que aquele grupo era, na verdade, de encantados…

Olhei para [Conteúdo protegido por direitos autorais] a estátua da deusa Serena.

— Você tá de sacanagem comigo não é Milady? — fiz [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma reverência desdenhosa — Eu tava só desabafando, não precisava me ferrar assim.

Agucei a audição mais uma vez e captei respirações fortes, doentias e muito esquisitas. Pensei na possibilidade de [Conteúdo protegido por direitos autorais] virar carcará e fugir dali, mas, se fossem o que eu achava que eram, eles não parariam de me perseguir.

Contrariada, abri a porta e me vi cercada por pelo menos dez cachorros-do-mato [Conteúdo protegido por direitos autorais] fodidos, com a pele derretendo como se estivessem em decomposição e  com os olhos esbugalhados.

Merda. Eram mesmo encantados, mas, para o meu azar, tinham perdido [Conteúdo protegido por direitos autorais] o controle e eu nem podia negociar oferecendo um osso para eles roerem. 

Não tive muito tempo para pensar. Um deles pulou na minha direção e os outros vieram logo atrás, então sem pestanejar, virei [Conteúdo protegido por direitos autorais] carcará e subi, enquanto os corpos se chocavam lá embaixo. Só ouvi os grunhidos de sofrimento e o som dos ossos batendo uns nos outros.

No meio do voo, desfiz a metamorfose e aterrissei alguns metros atrás, girando para encará-los no instante em que começaram a se [Conteúdo protegido por direitos autorais] reerguer sobre as patas traseiras. Os ossos estalaram de um jeito que não era nada prazeroso de escutar, conforme os corpos aumentavam de tamanho.

Fiz uma careta e corri na direção contrária aos encantados. Não queria aquelas garras perto de mim, um simples arranhão deles podia fazer o [Conteúdo protegido por direitos autorais] meu próprio sangue amaldiçoado assumir o controle e, apesar de gostar de experiências novas, não estava nem um pouco interessada em descobrir no que eu me transformaria. 

Virei carcará outra vez para ganhar velocidade e deixar as criaturas para trás, mas desfiz a transformação quando minha mente começou a ficar meio lélé [Conteúdo protegido por direitos autorais] da cuca por ter passado tanto tempo transformada, enquanto caçava os aluados. Mergulhando contra uma janela, quebrei o vidro com o ombro e caí dentro de uma casa.

Me levantei e corri pelo cômodo, procurando outra saída, mas ouvi um estrondo atrás de mim e, quando olhei por cima do ombro, uma das criaturas já tinha atravessado a janela. Acelerei, atravessando [Conteúdo protegido por direitos autorais] a porta e saí para o outro lado da casa, só para dar de cara com duas delas vindo pela rua à minha esquerda. Virei para trás e me vi já cercada por todos os lados.

Se corresse pela esquerda, as duas que vinham da rua me pegariam de frente. Se corresse [Conteúdo protegido por direitos autorais] pela direita, a que atravessou a janela já estava na porta. Se ficasse parada, elas me comeriam viva.

A minha mão foi até a cintura por instinto, mas parei antes de tocar o cabo do facão, porque usá-lo significaria chegar perto o suficiente [Conteúdo protegido por direitos autorais] das garras. Desesperada, olhei ao redor, enquanto as feras avançavam devagar, parecendo saborear a situação e me fazendo recuar até encostar as costas em uma cerca de madeira.

Passei a mão pelas tábuas procurando algo comprido o [Conteúdo protegido por direitos autorais] suficiente para usar e senti uma delas ceder sob meus dedos.

Se eu conseguisse arrancá-la, teria uma arma longa o suficiente para manter aquelas garras longe do meu corpo. Cravei as unhas [Conteúdo protegido por direitos autorais] na madeira, puxei com força até arrancá-la da cerca e a girei com as duas mãos no instante em que um dos encantados saltou.

Acertei a lateral da cabeça dele com toda [Conteúdo protegido por direitos autorais] a força que consegui e a criatura voou para longe.

A tábua rachou com o impacto e xinguei antes de jogar o que restava para o lado. Mesmo sendo arriscado, voltei a me [Conteúdo protegido por direitos autorais] transformar em carcará e subi mais alto, começando a voar em círculos sobre a praça, enquanto procurava uma maneira de acabar de vez com aquela perseguição. 

Se continuasse apenas fugindo, uma hora eu ia cansar e eles iam me matar. Ou seja, eu teria que enfrentá-las, mas talvez não [Conteúdo protegido por direitos autorais] precisasse enfrentar todas, pois caso o alfa morresse, talvez as outras se dispersassem. Não havia garantia nenhuma, mas era a única chance que eu tinha.

Lá de cima, acompanhei o movimento da matilha e percebi que todas pareciam cercar uma das criaturas, que se mantinha mais afastada das [Conteúdo protegido por direitos autorais] outras e que tinha um porte menor. Provavelmente era uma fêmea e só podia ser a alfa, a julgar pela forma como as demais a protegiam.

Mas como diabos eu ia chegar perto dela? Meu olhar percorreu pelas ruínas da igreja até parar na parede do fundo, que ainda [Conteúdo protegido por direitos autorais] estava de pé, e na estátua de Serena atrás do altar. Talvez desse para derrubar a estátua em cima dela, caso eu conseguisse fazer a líder entrar ali.

Voei em direção às ruínas, passando perto o bastante para chamar [Conteúdo protegido por direitos autorais] a atenção da líder. Ela ergueu a cabeça e me acompanhou com os olhos.

Vem [Conteúdo protegido por direitos autorais] atrás de mim, desgraçada.

Atravessei a porta da igreja e desfiz a metamorfose no meio do salão, já correndo em direção ao [Conteúdo protegido por direitos autorais] altar. As criaturas entraram logo atrás, saltando pelas janelas, enquanto a líder passou pela porta e veio direto na minha direção.

Virei-me para encará-la com um sorriso provocador. A criatura respondeu com um uivo antes de disparar com as quatro patas e esperei até o último instante [Conteúdo protegido por direitos autorais] para virar carcará. Passei por cima dela e desfiz a metamorfose atrás do altar, ficando apoiada na parede, com os pés encaixados na base da nuca da estátua.

— Foi mal, Serena, [Conteúdo protegido por direitos autorais] mas vê se me salva dessa merda.

Empurrei com as pernas, porém a pedra mal se mexeu. Travei os dentes, girei [Conteúdo protegido por direitos autorais] o corpo e me coloquei de costas contra a nuca da estátua, apoiando os pés na parede.

Forcei com as pernas, as costas e os braços ao mesmo tempo. Tudo queimava, mas a estátua não se mexia. Respirei fundo ao ouvir as patas da líder se aproximando e reuni o que restava da minha [Conteúdo protegido por direitos autorais] energia para empurrar uma última vez. A estátua se inclinou devagar, perdeu o equilíbrio e tombou de vez, tal qual o meu corpo. Caí de costas com tudo no chão, sem ar, com os braços tremendo e as pernas moles.

O estrondo da estátua foi seguido pelos rosnados das outras criaturas. Tentei me levantar, [Conteúdo protegido por direitos autorais] mas o meu corpo não respondeu. Será que eu tinha conseguido matar a líder?

Me arrastei alguns centímetros para trás, procurando algum espaço por onde escapar, mas no estado em que eu estava, não [Conteúdo protegido por direitos autorais] conseguiria ir muito longe. Uma das criaturas saltou na minha direção e só tive tempo de erguer o braço diante do rosto.

Desculpa, Nina... acho que [Conteúdo protegido por direitos autorais] me ferrei dessa vez. 

Fechei os olhos, esperando [Conteúdo protegido por direitos autorais] a dor, porém, nada me atingiu.

Abri os olhos e vi um cachorro caramelo parado na minha frente, mancando com uma das patas [Conteúdo protegido por direitos autorais] suspensa. Por alguns instantes, fiquei sem entender o que estava acontecendo, até a criatura avançar outra vez contra ele.

Senti meus músculos começarem a responder outra vez e agradeci pelo sangue amaldiçoado que fazia meu corpo se recuperar mais rápido. Apesar de ainda estar sem forças, já conseguia [Conteúdo protegido por direitos autorais] me mexer, então me joguei para agarrar o Caramelo antes que as garras o alcançassem, protegendo seu corpo junto ao meu, enquanto rolávamos pelo chão até sair da trajetória do ataque.

Apertei o Caramelo contra o peito, ainda tentando recuperar o fôlego e ele ergueu a cabeça entre os meus braços antes de [Conteúdo protegido por direitos autorais] soltar um uivo. Depois de alguns segundos, ouvi o som de patas se afastando até que os ruídos foram ficando cada vez mais distantes.

Meu coração continuava disparado e os músculos ainda doíam, mas eu já não queria mais me encolher e esperar pelo fim. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Queria levantar, continuar e até voltar para cima daqueles desgraçados, se fosse preciso. Será que o uivo do Caramelo tinha me devolvido a confiança? 

Ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer, o caramelo se soltou dos meus braços e saiu [Conteúdo protegido por direitos autorais] trotando. Levantei-me devagar, sentindo meu corpo se recuperar aos poucos. De alguma forma, aquele uivo tinha me devolvido a energia.

— Obrigada... — eu disse, embora ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] já tivesse atravessado a porta — Por me salvar.

Ele olhou pra mim e tinha alguma coisa familiar naquele olhar, como se alguém que eu conhecesse [Conteúdo protegido por direitos autorais] já tivesse me olhado daquele mesmo jeito antes, mas por mais que tentasse puxar na memória, não conseguia descobrir quem. 

Depois eu perguntaria à Comadre Florzinha qual encantado era capaz de virar um caramelo. Eu devia a minha vida a ele e tinha que agradecê-lo pessoalmente, mas mesmo grata por sua atitude, [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu ainda queria saber porque ele estava me seguindo? Será que ele conhecia aqueles encantados que tinham enlouquecido? As perguntas começavam a se acumular na minha cabeça, mas eu ainda tinha trabalho a fazer.

[Conteúdo protegido por direitos autorais] src="https://liewordonho.com/wp-content/uploads/2026/10/carcara.png" alt="" width="130" height="142">

Esperei um bom tempo, até o meu corpo finalmente se recuperar o suficiente para eu conseguir lutar, caso necessário. Então me transformei em carcará e alcei voo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] ganhando altitude rapidamente, procurando qualquer sinal dos encantados novamente. Será que o motivo de terem perdido o controle era justamente o que a deusa Zara estava procurando? 

A ideia me fez reduzir o ritmo, batendo as asas mais devagar, enquanto procurava um lugar para recuperar o fôlego. A missão estava ficando cada vez mais perigosa e eu começava a pensar [Conteúdo protegido por direitos autorais] que a troca de favores tinha sido muito desfavorável para mim. Meus pensamentos, porém, foram interrompidos quando um zumbido começou a pulsar dentro da minha cabeça, deixando a minha mente mais confusa do que já estava.

A pressão atrás dos olhos aumentou e virei o rosto inconscientemente na direção de um [Conteúdo protegido por direitos autorais] casebre no meio do nada. Misturadas ao zumbido, começaram a chegar súplicas desesperadas para a deusa Zara.

Mas que dia de cão era esse? Qual era a chance de [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma feiticeira aparecer logo aqui e agora? Serena só podia tá me sacaneando mesmo.

Voei na direção do casebre, procurando uma abertura por onde pudesse entrar, até [Conteúdo protegido por direitos autorais] que encontrei um buraco estreito no teto. Passei por ele e pousei na viga de sustentação.

Inclinei a cabeça e vasculhei o interior com o olhar, mas não encontrei ninguém [Conteúdo protegido por direitos autorais] em canto nenhum, apenas paredes descascadas, madeira escurecida e alguns caixotes espalhados pelo lugar, com poucos móveis.

Quando pousei no chão, desfiz a metamorfose e percebi que alguns caixotes pareciam ter sido mexidos recentemente. Uni as sobrancelhas e abri um deles, encontrando apenas [Conteúdo protegido por direitos autorais] um pó preto com cheiro forte de enxofre. Ao pegar um pouco entre os dedos e aproximar do nariz, senti um cheiro de ovo podre e fiz uma careta.

Por que tinha tantas caixas de pólvora aqui? Será que isso tinha alguma relação com a interferência no [Conteúdo protegido por direitos autorais] fluxo do tempo? Mas não fazia sentido… O que uma simples pólvora poderia mudar na história desse planeta? 

Balancei a cabeça, pois não estava sendo paga para pensar, na verdade, nem paga estava sendo. Ah velho Anísio, você [Conteúdo protegido por direitos autorais] vai se ver comigo. Seja os encantados, a feiticeira ou a pólvora, umas delas deveria explicar o interesse de Zara nesse lugar.

A porta se abriu do nada, interrompendo o meu raciocínio. No mesmo instante, me transformei de novo em carcará e voei até a viga de sustentação do teto para [Conteúdo protegido por direitos autorais] observar os homens que entraram. Sendo sincera, eles não eram grandes coisas e nem mereciam nota de descrição, pois a primeira vista todos pareciam muito comuns para mim.

— Peguem a garota e as caixas — disse [Conteúdo protegido por direitos autorais] o homem alto e forte — O capitão já está esperando.

Capitão? Apertei os olhos. Eles não tinham cara de militares, muito menos [Conteúdo protegido por direitos autorais] de membros dos Chicos e, definitivamente, eram humanos. Então por que estavam falando como cangaceiros?

— Chefe, eu… não sei não, é arriscado demais negociar com esses [Conteúdo protegido por direitos autorais] chupa-sangue, nem sabemos o que eles vão fazer. Tem certeza que vale a pena?

— Se não valesse, eu não tinha aceitado — respondeu o que parecia o líder, dando de ombros — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Eles pagaram bem, então vamos entregar o que pediram e ir embora. O que eles vão fazer depois não é problema nosso.

— Mas e se for coisa grande? Quer dizer, eles querem pólvora [Conteúdo protegido por direitos autorais] demais e ainda mandaram a gente entregar essa garota... Por que eles querem ela?

— E desde quando a gente precisa saber o que os nossos clientes [Conteúdo protegido por direitos autorais] planejam com a mercadoria? Sem contar que essa aí já não tem mais utilidade pra gente.

Então eram cangaceiros. Tudo bem, mas porque estavam interessados na garota? Olhei para a porta quando um deles arrastou a menina para dentro. Era uma garota de [Conteúdo protegido por direitos autorais] cabelos longos que caíam pelas costas, de um preto tão escuro que pareciam a própria noite. A pele clara destacava ainda mais aqueles cabelos, fazendo-a parecer como se a própria lua tivesse reencarnado na Terra.

— Não era melhor vender a menina para o império? Se for verdade o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ela é… — perguntou o capanga que arrastava a garota — Vale milhões de cruzeiros.

— Você prometeu que ia me ajudar! — a menina gritou e reconheci a voz [Conteúdo protegido por direitos autorais] da trombadinha do Córrego Cristalino — Eu só quero o meu irmãozinho, seu desgraçado da costa oca!

Então aquela menina era uma mestiça? Merda... não podia deixar aqueles desgraçados levarem ela. Me desfiz da metamorfose ainda no ar e caí no centro [Conteúdo protegido por direitos autorais] do salão. De soslaio, vi a garota arregalar os olhos, então pisquei para ela e agarrei o pé de uma mesa tombada ao lado, arrancando a madeira do encaixe com um tranco.

O sujeito de túnica ainda segurava o braço da garota, mas bati a madeira contra o [Conteúdo protegido por direitos autorais] pulso dele, fazendo com que a soltasse. Logo em seguida, acertei a têmpora dele, arremessando-o contra o armário.

Sem parar, agarrei uma panela de ferro que rolou até meus pés e a acertei com toda a força contra o homem que corria na [Conteúdo protegido por direitos autorais] minha direção com uma faca. A panela atingiu com um estalo seco e o impacto fez a cabeça virar para o lado antes de ele desabar de costas.

Odiava lutar contra os humanos. Eles eram frágeis e eu sempre precisava controlar a minha força para não matar alguém no primeiro golpe. Só que como esses desgraçados sabiam o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que a garota era, isso mudava as coisas. Se eu deixasse qualquer um deles vivos, essa informação poderia vazar para o império e eu não queria nenhum nobre da capital imperial aqui.

Mesmo odiando fazer isso... [Conteúdo protegido por direitos autorais] era melhor acabar com tudo logo aqui.

Outro dos desgraçados avançou sobre mim, fechando a distância rápido demais para que eu procurasse outra arma. Esperei entrar no meu alcance, então me agachei e passei por baixo do braço dele, agarrando a parte [Conteúdo protegido por direitos autorais] de trás do joelho com as duas mãos e puxando para cima, só escutei o pescoço dele estalando. Antes que eu pudesse pensar que estava parecendo uma serial killer, levantei o rosto e finalmente encontrei o chefe.

Ele estava a poucos passos de mim, avançando desengonçado. Por que os líderes dos bandidos sempre eram [Conteúdo protegido por direitos autorais] os piores em combate? Ele deu um soco aberto que passou longe. Desviei do golpe facilmente, já iniciando a metamorfose.

Meu corpo encolheu, escapando do alcance dele e quando comecei a descer atrás do chefe, desfiz a metamorfose ainda no ar e caí já em forma humana, [Conteúdo protegido por direitos autorais] atingindo a parte de trás do seu joelho com o pé. Ele caiu de cócoras e aproveitei para imobilizá-lo, segurando firmemente pelo pescoço, até ele parar de se mexer.

Apesar do corpo dolorido, eu ainda queria chutar [Conteúdo protegido por direitos autorais] mais alguém, mas, por ora, os idiotas estavam todos mortos.

Olhei para dentro do casebre e depois de toda aquela confusão, achei que a garota teria aproveitado para fugir, [Conteúdo protegido por direitos autorais] mas ela ainda estava ali, perto da parede, segurando uma faca e me encarando com um olhar que misturava raiva e determinação.

— Como você se chama? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntei, da forma mais delicada que eu conseguia.

Sem responder, ela apenas ergueu o rosto o suficiente para me encarar. Tinha hematomas de [Conteúdo protegido por direitos autorais] um lado e o outro estava inchado, com um corte feio acima da sobrancelha que ainda sangrava.

— Eu me chamo Luna — Puxei o pingente e [Conteúdo protegido por direitos autorais] vi os olhos dela se arregalarem — Isso é seu, não é?

A maneira como a expressão dela [Conteúdo protegido por direitos autorais] vacilou deixou claro que era mesmo a trombadinha.

— Não precisa se preocupar, vou te devolver — falei num tom mais leve — Quer dizer, [Conteúdo protegido por direitos autorais] não é como se essas histórias sobre feiticeiras fossem todas verdades, não é? Sou mesquinha, mas não sou uma ladra.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Então me devolve agora!

— Calma… — levantei a mão em sinal de rendição — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Eu já disse que vou te devolver, só quero entender quem é você.

— Eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] não preciso te contar nada!

— Você consegue sentir o que [Conteúdo protegido por direitos autorais] estou pensando? — apontei para a minha cabeça.

Ela abriu a [Conteúdo protegido por direitos autorais] boca, mas tornou a fechá-la.

— Você sabe [Conteúdo protegido por direitos autorais] o que você é? — continuei.

Ela continuou calada.

— Bom... não vou mentir, é uma surpresa e tanto encontrar uma de nós aqui — eu disse — Achava que minha irmã e [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu éramos as únicas por essa região, mas pelo que eu tô vendo, você é ainda mais especial do que eu. Você é como… a minha irmãzinha.

Ela continuou em silêncio e quando dei espaço para que ela se acalmasse, aproveitei para observar melhor o local. Havia uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] bacia de metal numa prateleira baixa do que parecia ser a cozinha, talvez os idiotas usassem esse lugar para fazer negócios com o submundo. 

— Como eles te pegaram? Ou será que… você trabalhava para eles? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] comentei, enquanto andava até a bacia e a enchia com o meu cantil de água.

Ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] confirmou com a cabeça.

— Eles que mandavam você roubar? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] apertei os olhos — Porque você trabalhava para eles?

— Porque eles... [Conteúdo protegido por direitos autorais] iam ajudar o meu irmão...

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Onde ele tá?

— Ele foi [Conteúdo protegido por direitos autorais] levado... por homens de preto.

— Você tem certeza disso? — agachei-me diante dela e [Conteúdo protegido por direitos autorais] rasguei um pedaço da minha saia — Tem certeza que eles usavam preto?

— Quem é você? — perguntou ela, [Conteúdo protegido por direitos autorais] quase num sussurro — Por que você… me ajudou?

— Eu? — apontei para mim — Eu me chamo [Conteúdo protegido por direitos autorais] Luna como já disse e tô aqui porque você pediu a minha ajuda.

Ela não desviou os olhos. Molhei [Conteúdo protegido por direitos autorais] o pano na bacia e me aproximei lentamente dela.

— Eu não... — ela engoliu em seco e pareceu [Conteúdo protegido por direitos autorais] ter entendido — Você foi enviada pela… deusa Zara pra me ajudar?

— Sim, fui enviada por Zara, mas não sei se foi por sua causa ou por outro motivo... — inclinei a cabeça — Além disso, sou [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma parente sua. Bem distante, mas ainda sou. Pode pensar em mim como… sua tia doida, brutamonte... — pisquei para ela — E com mãos um pouquinho pesadas.

A garota franziu a testa, mas não recuou quando estendi o pano molhado em direção ao seu rosto. Segurei seu queixo com a mão livre, firme, mas sem apertar e [Conteúdo protegido por direitos autorais] comecei a limpar o sangue seco na sobrancelha. Comecei a cantarolar baixinho e ela ficou quieta. A respiração foi desacelerando, os ombros perderam a tensão até que ela pareceu finalmente relaxar um pouco.

— Esses idiotas sabiam onde tá o seu irmão? — perguntei, inclinando-me [Conteúdo protegido por direitos autorais] para frente, virando o pano para usar um lado limpo no corte da boca. 

— Eles disseram que se eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] ajudasse... me ajudariam a encontrar o meu irmão.

Continuei cantarolando e aos [Conteúdo protegido por direitos autorais] poucos as feridas começaram a se fechar.

— Isso que você fez… cantarolando… — ela baixou os olhos, menos arisca agora — Eu… faço [Conteúdo protegido por direitos autorais] isso quando alguém tá muito zangado... porque, às vezes, funciona. A pessoa se acalma e... eu consigo sair viva.

— Exatamente. É quase uma súplica, uma oração pra deusa Zara. Só que, na verdade, é assim que a gente ativa nossos poderes — Estendi a [Conteúdo protegido por direitos autorais] mão e acariciei de leve a cabeça dela. O corpo enrijeceu com o toque, mas ela não se afastou. Voltei ao pano, enxaguei-o na bacia antes de continuar. 

A água já estava tingida de vermelho e o corte da [Conteúdo protegido por direitos autorais] sobrancelha tinha parado de sangrar, deixando uma linha escura até perto da têmpora. 

— Você é uma benzedeira? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntou ela, baixinho — A minha… mãe era uma.

— Não é preciso tanta habilidade pra tratar um ferimento superficial — respondi, enxaguando o pano mais uma vez antes de limpar os ferimentos do pescoço [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Mas cuido da minha irmã e de um… vagabundo idiota. Acho que tô mais pra curandeira que machuca mais do que cura, mas ainda tenho meus dotes.

A garota uniu as sobrancelhas e [Conteúdo protegido por direitos autorais] o canto da boca subiu em um sorriso discreto.

— Você é mesmo uma... [Conteúdo protegido por direitos autorais] — ela engoliu em seco — Uma...

— Feiticeira? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] completei — Sim... assim como você.

— Mas... [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu não sou feiticeira.

— Ah, não? — ergui uma sobrancelha — Você consegue se transformar em ave, consegue falar com a deusa pelo seu canto, suas feridas [Conteúdo protegido por direitos autorais] se curam super rápido… — fui contando nos dedos as habilidades de uma feiticeira — Mesmo sendo mestiça, você ainda tem uma certa quantidade de sangue amaldiçoado.

Ela abriu [Conteúdo protegido por direitos autorais] a boca, aparentemente espantada.

— Então… [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu sou mesmo uma feiticeira?

— Sim, você é — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Fiz uma pausa — Quantos anos você tem?

Ela olhou para as próprias mãos, talvez em choque por descobrir o que [Conteúdo protegido por direitos autorais] era de verdade, talvez se perguntando por que ninguém nunca tinha dito aquilo para ela. 

— Sete — disse ela — Meu irmão também. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nosso pai… vendeu a gente quando descobriu que ele estava doente.

Por um instante, lembrei de Nina com a pele tomada pelas feridas. A imagem veio tão nítida [Conteúdo protegido por direitos autorais] que sacudi a cabeça, como se isso bastasse para afastá-la. Puxando o ar, voltei a atenção para a garota.

— Seu irmão foi levado quando as [Conteúdo protegido por direitos autorais] escamas começaram a aparecer no corpo? — apertei os lábios.

A garota assentiu. Por um instante, me lembrei dos gritos [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos malditos cientistas dos inquisidores, enquanto caiam, um por um, pelas minhas mãos. 

— Você… veio [Conteúdo protegido por direitos autorais] mesmo me ajudar? — perguntou ela.

— Sim — inclinei a cabeça, observando-a por um instante — Talvez você seja a missão que Zara me [Conteúdo protegido por direitos autorais] pediu, talvez não, mas não posso te deixar sozinha. Seu sangue é muito valioso pra um monte de desgraçado nesse mundo.

A confusão tomou conta do rosto dela e, por um instante, seu olhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] foi parar em algum ponto atrás de mim, antes de descer para as próprias mãos.

— Então... é verdade o que eles [Conteúdo protegido por direitos autorais] disseram? — ela hesitou — Os vampiros realmente... me querem?

— Sim. [Conteúdo protegido por direitos autorais] E você sabe o porquê?

Ela balançou [Conteúdo protegido por direitos autorais] a cabeça em negação.

— Não são só os chupa-sangue que têm interesse nos mestiços. [Conteúdo protegido por direitos autorais] O sangue de vocês interessa a todas as raças — Soltei o ar devagar.

— Por quê? — ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntou, parecendo incrédula ao levantar o rosto.

— Os humanos querem descobrir como colocar o sangue das feiticeiras [Conteúdo protegido por direitos autorais] sem correr o risco de virarem aluados, como acontece quando usam sangue de vampiros.

Ela ficou [Conteúdo protegido por direitos autorais] em silêncio por um instante.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Mas por que... eu?

— Você é metade humana e metade feiticeira, então o seu sangue, pelo menos em teoria, tem mais facilidade para ser compatível com [Conteúdo protegido por direitos autorais] o dos humanos do que o meu, que é puramente amaldiçoado — Meus ombros relaxaram, pois ela finalmente parecia mais aberta a aceitar quem era. 

— E o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que é que os vampiros querem?

— Esses aí fazem de tudo pra [Conteúdo protegido por direitos autorais] impedir que os humanos descubram como usar nosso sangue.

— Por quê?

— Porque senão os humanos vão dá [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma coça nos vampiros e, obviamente, eles não querem isso.

Ela me fitou, como se tentasse [Conteúdo protegido por direitos autorais] entender. Pelo visto, política não era o forte dela.

— Então os vampiros não querem [Conteúdo protegido por direitos autorais] o nosso sangue? — ela me olhou, confusa.

— Claro que querem — pisquei — Já me disseram [Conteúdo protegido por direitos autorais] por aí que é extremamente delicioso e parece uma iguaria pra eles.

Ela soltou uma risada e um canto da minha boca [Conteúdo protegido por direitos autorais] subiu. Pelo menos o gato arisco estava começando a baixar a guarda.

— Agora entende [Conteúdo protegido por direitos autorais] porque esses caras queriam te vender?

A garota assentiu, mas ficou parada só me observando daquele jeito atento. Estava aprendendo rápido e, sem dúvida, tinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] futuro, mas sozinha não ia durar muito. Precisava de alguém para guiá-la, um mentor ou, pelo menos, alguém que pudesse protegê-la.

— E eu... faço o quê [Conteúdo protegido por direitos autorais] agora? — perguntou ela, por fim, quase num sussurro.

— Primeiro, fortaleça o seu corpo. Depois, se quiser, pode procurar os Chicos daqui. Eles são gente boa e vão te proteger. Ou então a Agatha, uma feiticeira que [Conteúdo protegido por direitos autorais] vive na província da Mata Serena... qualquer um deles pode te acolher e te treinar — Fiz uma pausa — Só não vai atrás dos Chicos da capital ou de outras províncias.

Ela apertou os lábios e baixou o olhar. Por um instante, pensei em levá-la comigo, mas eu já tinha gente demais para proteger, por isso, afastei esse pensamento quase na mesma hora. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Agatha seria uma mentora melhor para ela e até o meu tio daria conta de protegê-la melhor do que eu. Levantei-me, esticando as costas e relaxando os ombros antes de me virar para a porta.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Espera! — ela gritou.

Ainda de [Conteúdo protegido por direitos autorais] costas para ela, parei.

— Você não devia... me ajudar? — A voz saiu mais alta, [Conteúdo protegido por direitos autorais] quase num grito de desespero — Não foi por isso que a deusa te enviou?

Neguei com a cabeça e me virei só o suficiente [Conteúdo protegido por direitos autorais] para olhar de soslaio, contudo, aquele olhar de gato pidão me fez repensar.

— Sei que não é a resposta que você queria, mas a minha missão é apenas repassar as informações e deixar Lady Zara fazer o que bem entender com elas. Mas... — Deixei escapar um sorriso de lado — Se você quiser vir comigo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu também não vou conseguir negar, mas aviso logo que não vou pegar leve com você, porque sou uma mentora bem rígida, sabe? Só que  te garanto que vou procurar seu irmão e sem exigir nada em troca —  cruzei os dedos em sinal de juramento.

Ela ficou alguns segundos me encarando, como se ainda estivesse tentando acreditar no [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eu tinha dito. Então correu até mim, segurando minha mão com as duas mãos pequenas.

— Você [Conteúdo protegido por direitos autorais] vai mesmo me ajudar?

Olhei para as [Conteúdo protegido por direitos autorais] mãos dela agarradas à minha.

— Vou.

Os [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhos dela brilharam.

— Então [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu vou com você.

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