Segui para o noroeste da cidade, deixando as últimas casas para trás e com elas o barulho do centro, até restar apenas o som dos meus próprios passos. O caminho de terra batida terminou diante de um rio e levantei a saia, procurando um trecho mais raso.
Isso seria uma ótima oportunidade para pescar, não seria? Fiz uma careta, porque, sem dúvida, devia ter trazido uma vara de pesca. Quase salivei só de imaginar o gosto de um peixe assado, mas só me restou de forma frustrada atravessar o rio, segurando a saia com a ponta dos dedos.
Os peixes passavam por mim e quase no mesmo instante comecei a pensar se Apollo comia carne ou era vegetariano. Do jeito engomadinho que ele parecia ser, provavelmente, não era carnívoro. Ainda assim, talvez ele topasse uma ida ao velho riacho comigo e com Nina. Quem sabe pescar, preparar alguns peixes grelhados e passar um dia inteiro sem nenhuma missão maldita no caminho. Só de imaginar, já sentia o meu corpo implorando por uma boa folga.
Ao chegar do outro lado, afastei aqueles pensamentos e voltei minha atenção para a estrada. Segui mata adentro com a vegetação se fechando cada vez mais, até que um estalo seco veio da minha esquerda.
Parei por um instante, procurando algum movimento entre as árvores, mas nada se mexeu. Talvez fosse só minha paranoia, mas prevenir era melhor do que remediar, então mantive a audição aguçada, porque seria uma merda ser pega de surpresa num lugar isolado como esse. Contudo, o que escutei foram apenas trotes de animais, talvez, de alguns cachorros-do-mato.
Sem me preocupar com o que quer que estivessem fazendo, continuei andando pela mata. Alguns minutos depois, as antigas construções das cidades pré-Grande Sede surgiram entre a vegetação. À minha frente, a praça abandonada estava em ruínas e procurei ao redor algum lugar onde alguém pudesse estar escondido, porque aquele tipo de localização era perfeito para os cangaceiros montarem seus assentamentos.
À minha direita, no fundo da praça, a velha igreja da deusa Serena ainda estava de pé, apesar de parcialmente destruída. Se eu quisesse preparar uma emboscada, aquele seria o melhor canto para me esconder.
Levantei o rosto, protegendo os olhos com a mão, à medida que a luz entre as árvores perdia força. O sol já estava se pondo e não gostei nem um pouco da ideia de continuar ali quando escurecesse, então sem pensar muito, fui até a porta da igreja e entrei de vez.
O teto estava quase todo destruído e restavam poucos lugares onde alguém poderia se esconder. Atrás do altar, a estátua da deusa Serena ainda estava intacta, representada com longos cabelos, uma coroa sobre a testa e vestes que caíam pelos ombros.
— Por que você não resolve isso de uma vez, igual à deusa Zara? — me sentei no único banco de madeira que ainda parecia usável — O planeta é seu, não é? Então por que é que a sua irmã tá tão interessada em descobrir o que tá acontecendo aqui?
Talvez fosse Serena me punido pela afronta ou talvez fosse só coincidência, mas uivos começaram a ecoar do lado de fora e me levantei, já sacando o facão. Diferentemente de antes, os uivos estavam mais altos e agudos, será então que aquele grupo era, na verdade, de encantados…
Olhei para a estátua da deusa Serena.
— Você tá de sacanagem comigo não é Milady? — fiz uma reverência desdenhosa — Eu tava só desabafando, não precisava me ferrar assim.
Agucei a audição mais uma vez e captei respirações fortes, doentias e muito esquisitas. Pensei na possibilidade de virar carcará e fugir dali, mas, se fossem o que eu achava que eram, eles não parariam de me perseguir.
Contrariada, abri a porta e me vi cercada por pelo menos dez cachorros-do-mato fodidos, com a pele derretendo como se estivessem em decomposição e com os olhos esbugalhados.
Merda. Eram mesmo encantados, mas, para o meu azar, tinham perdido o controle e eu nem podia negociar oferecendo um osso para eles roerem.
Não tive muito tempo para pensar. Um deles pulou na minha direção e os outros vieram logo atrás, então sem pestanejar, virei carcará e subi, enquanto os corpos se chocavam lá embaixo. Só ouvi os grunhidos de sofrimento e o som dos ossos batendo uns nos outros.
No meio do voo, desfiz a metamorfose e aterrissei alguns metros atrás, girando para encará-los no instante em que começaram a se reerguer sobre as patas traseiras. Os ossos estalaram de um jeito que não era nada prazeroso de escutar, conforme os corpos aumentavam de tamanho.
Fiz uma careta e corri na direção contrária aos encantados. Não queria aquelas garras perto de mim, um simples arranhão deles podia fazer o meu próprio sangue amaldiçoado assumir o controle e, apesar de gostar de experiências novas, não estava nem um pouco interessada em descobrir no que eu me transformaria.
Virei carcará outra vez para ganhar velocidade e deixar as criaturas para trás, mas desfiz a transformação quando minha mente começou a ficar meio lélé da cuca por ter passado tanto tempo transformada, enquanto caçava os aluados. Mergulhando contra uma janela, quebrei o vidro com o ombro e caí dentro de uma casa.
Me levantei e corri pelo cômodo, procurando outra saída, mas ouvi um estrondo atrás de mim e, quando olhei por cima do ombro, uma das criaturas já tinha atravessado a janela. Acelerei, atravessando a porta e saí para o outro lado da casa, só para dar de cara com duas delas vindo pela rua à minha esquerda. Virei para trás e me vi já cercada por todos os lados.
Se corresse pela esquerda, as duas que vinham da rua me pegariam de frente. Se corresse pela direita, a que atravessou a janela já estava na porta. Se ficasse parada, elas me comeriam viva.
A minha mão foi até a cintura por instinto, mas parei antes de tocar o cabo do facão, porque usá-lo significaria chegar perto o suficiente das garras. Desesperada, olhei ao redor, enquanto as feras avançavam devagar, parecendo saborear a situação e me fazendo recuar até encostar as costas em uma cerca de madeira.
Passei a mão pelas tábuas procurando algo comprido o suficiente para usar e senti uma delas ceder sob meus dedos.
Se eu conseguisse arrancá-la, teria uma arma longa o suficiente para manter aquelas garras longe do meu corpo. Cravei as unhas na madeira, puxei com força até arrancá-la da cerca e a girei com as duas mãos no instante em que um dos encantados saltou.
Acertei a lateral da cabeça dele com toda a força que consegui e a criatura voou para longe.
A tábua rachou com o impacto e xinguei antes de jogar o que restava para o lado. Mesmo sendo arriscado, voltei a me transformar em carcará e subi mais alto, começando a voar em círculos sobre a praça, enquanto procurava uma maneira de acabar de vez com aquela perseguição.
Se continuasse apenas fugindo, uma hora eu ia cansar e eles iam me matar. Ou seja, eu teria que enfrentá-las, mas talvez não precisasse enfrentar todas, pois caso o alfa morresse, talvez as outras se dispersassem. Não havia garantia nenhuma, mas era a única chance que eu tinha.
Lá de cima, acompanhei o movimento da matilha e percebi que todas pareciam cercar uma das criaturas, que se mantinha mais afastada das outras e que tinha um porte menor. Provavelmente era uma fêmea e só podia ser a alfa, a julgar pela forma como as demais a protegiam.
Mas como diabos eu ia chegar perto dela? Meu olhar percorreu pelas ruínas da igreja até parar na parede do fundo, que ainda estava de pé, e na estátua de Serena atrás do altar. Talvez desse para derrubar a estátua em cima dela, caso eu conseguisse fazer a líder entrar ali.
Voei em direção às ruínas, passando perto o bastante para chamar a atenção da líder. Ela ergueu a cabeça e me acompanhou com os olhos.
Vem atrás de mim, desgraçada.
Atravessei a porta da igreja e desfiz a metamorfose no meio do salão, já correndo em direção ao altar. As criaturas entraram logo atrás, saltando pelas janelas, enquanto a líder passou pela porta e veio direto na minha direção.
Virei-me para encará-la com um sorriso provocador. A criatura respondeu com um uivo antes de disparar com as quatro patas e esperei até o último instante para virar carcará. Passei por cima dela e desfiz a metamorfose atrás do altar, ficando apoiada na parede, com os pés encaixados na base da nuca da estátua.
— Foi mal, Serena, mas vê se me salva dessa merda.
Empurrei com as pernas, porém a pedra mal se mexeu. Travei os dentes, girei o corpo e me coloquei de costas contra a nuca da estátua, apoiando os pés na parede.
Forcei com as pernas, as costas e os braços ao mesmo tempo. Tudo queimava, mas a estátua não se mexia. Respirei fundo ao ouvir as patas da líder se aproximando e reuni o que restava da minha energia para empurrar uma última vez. A estátua se inclinou devagar, perdeu o equilíbrio e tombou de vez, tal qual o meu corpo. Caí de costas com tudo no chão, sem ar, com os braços tremendo e as pernas moles.
O estrondo da estátua foi seguido pelos rosnados das outras criaturas. Tentei me levantar, mas o meu corpo não respondeu. Será que eu tinha conseguido matar a líder?
Me arrastei alguns centímetros para trás, procurando algum espaço por onde escapar, mas no estado em que eu estava, não conseguiria ir muito longe. Uma das criaturas saltou na minha direção e só tive tempo de erguer o braço diante do rosto.
Desculpa, Nina... acho que me ferrei dessa vez.
Fechei os olhos, esperando a dor, porém, nada me atingiu.
Abri os olhos e vi um cachorro caramelo parado na minha frente, mancando com uma das patas suspensa. Por alguns instantes, fiquei sem entender o que estava acontecendo, até a criatura avançar outra vez contra ele.
Senti meus músculos começarem a responder outra vez e agradeci pelo sangue amaldiçoado que fazia meu corpo se recuperar mais rápido. Apesar de ainda estar sem forças, já conseguia me mexer, então me joguei para agarrar o Caramelo antes que as garras o alcançassem, protegendo seu corpo junto ao meu, enquanto rolávamos pelo chão até sair da trajetória do ataque.
Apertei o Caramelo contra o peito, ainda tentando recuperar o fôlego e ele ergueu a cabeça entre os meus braços antes de soltar um uivo. Depois de alguns segundos, ouvi o som de patas se afastando até que os ruídos foram ficando cada vez mais distantes.
Meu coração continuava disparado e os músculos ainda doíam, mas eu já não queria mais me encolher e esperar pelo fim. Queria levantar, continuar e até voltar para cima daqueles desgraçados, se fosse preciso. Será que o uivo do Caramelo tinha me devolvido a confiança?
Ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer, o caramelo se soltou dos meus braços e saiu trotando. Levantei-me devagar, sentindo meu corpo se recuperar aos poucos. De alguma forma, aquele uivo tinha me devolvido a energia.
— Obrigada... — eu disse, embora ele já tivesse atravessado a porta — Por me salvar.
Ele olhou pra mim e tinha alguma coisa familiar naquele olhar, como se alguém que eu conhecesse já tivesse me olhado daquele mesmo jeito antes, mas por mais que tentasse puxar na memória, não conseguia descobrir quem.
Depois eu perguntaria à Comadre Florzinha qual encantado era capaz de virar um caramelo. Eu devia a minha vida a ele e tinha que agradecê-lo pessoalmente, mas mesmo grata por sua atitude, eu ainda queria saber porque ele estava me seguindo? Será que ele conhecia aqueles encantados que tinham enlouquecido? As perguntas começavam a se acumular na minha cabeça, mas eu ainda tinha trabalho a fazer.
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Esperei um bom tempo, até o meu corpo finalmente se recuperar o suficiente para eu conseguir lutar, caso necessário. Então me transformei em carcará e alcei voo, ganhando altitude rapidamente, procurando qualquer sinal dos encantados novamente. Será que o motivo de terem perdido o controle era justamente o que a deusa Zara estava procurando?
A ideia me fez reduzir o ritmo, batendo as asas mais devagar, enquanto procurava um lugar para recuperar o fôlego. A missão estava ficando cada vez mais perigosa e eu começava a pensar que a troca de favores tinha sido muito desfavorável para mim. Meus pensamentos, porém, foram interrompidos quando um zumbido começou a pulsar dentro da minha cabeça, deixando a minha mente mais confusa do que já estava.
A pressão atrás dos olhos aumentou e virei o rosto inconscientemente na direção de um casebre no meio do nada. Misturadas ao zumbido, começaram a chegar súplicas desesperadas para a deusa Zara.
Mas que dia de cão era esse? Qual era a chance de uma feiticeira aparecer logo aqui e agora? Serena só podia tá me sacaneando mesmo.
Voei na direção do casebre, procurando uma abertura por onde pudesse entrar, até que encontrei um buraco estreito no teto. Passei por ele e pousei na viga de sustentação.
Inclinei a cabeça e vasculhei o interior com o olhar, mas não encontrei ninguém em canto nenhum, apenas paredes descascadas, madeira escurecida e alguns caixotes espalhados pelo lugar, com poucos móveis.
Quando pousei no chão, desfiz a metamorfose e percebi que alguns caixotes pareciam ter sido mexidos recentemente. Uni as sobrancelhas e abri um deles, encontrando apenas um pó preto com cheiro forte de enxofre. Ao pegar um pouco entre os dedos e aproximar do nariz, senti um cheiro de ovo podre e fiz uma careta.
Por que tinha tantas caixas de pólvora aqui? Será que isso tinha alguma relação com a interferência no fluxo do tempo? Mas não fazia sentido… O que uma simples pólvora poderia mudar na história desse planeta?
Balancei a cabeça, pois não estava sendo paga para pensar, na verdade, nem paga estava sendo. Ah velho Anísio, você vai se ver comigo. Seja os encantados, a feiticeira ou a pólvora, umas delas deveria explicar o interesse de Zara nesse lugar.
A porta se abriu do nada, interrompendo o meu raciocínio. No mesmo instante, me transformei de novo em carcará e voei até a viga de sustentação do teto para observar os homens que entraram. Sendo sincera, eles não eram grandes coisas e nem mereciam nota de descrição, pois a primeira vista todos pareciam muito comuns para mim.
— Peguem a garota e as caixas — disse o homem alto e forte — O capitão já está esperando.
Capitão? Apertei os olhos. Eles não tinham cara de militares, muito menos de membros dos Chicos e, definitivamente, eram humanos. Então por que estavam falando como cangaceiros?
— Chefe, eu… não sei não, é arriscado demais negociar com esses chupa-sangue, nem sabemos o que eles vão fazer. Tem certeza que vale a pena?
— Se não valesse, eu não tinha aceitado — respondeu o que parecia o líder, dando de ombros — Eles pagaram bem, então vamos entregar o que pediram e ir embora. O que eles vão fazer depois não é problema nosso.
— Mas e se for coisa grande? Quer dizer, eles querem pólvora demais e ainda mandaram a gente entregar essa garota... Por que eles querem ela?
— E desde quando a gente precisa saber o que os nossos clientes planejam com a mercadoria? Sem contar que essa aí já não tem mais utilidade pra gente.
Então eram cangaceiros. Tudo bem, mas porque estavam interessados na garota? Olhei para a porta quando um deles arrastou a menina para dentro. Era uma garota de cabelos longos que caíam pelas costas, de um preto tão escuro que pareciam a própria noite. A pele clara destacava ainda mais aqueles cabelos, fazendo-a parecer como se a própria lua tivesse reencarnado na Terra.
— Não era melhor vender a menina para o império? Se for verdade o que ela é… — perguntou o capanga que arrastava a garota — Vale milhões de cruzeiros.
— Você prometeu que ia me ajudar! — a menina gritou e reconheci a voz da trombadinha do Córrego Cristalino — Eu só quero o meu irmãozinho, seu desgraçado da costa oca!
Então aquela menina era uma mestiça? Merda... não podia deixar aqueles desgraçados levarem ela. Me desfiz da metamorfose ainda no ar e caí no centro do salão. De soslaio, vi a garota arregalar os olhos, então pisquei para ela e agarrei o pé de uma mesa tombada ao lado, arrancando a madeira do encaixe com um tranco.
O sujeito de túnica ainda segurava o braço da garota, mas bati a madeira contra o pulso dele, fazendo com que a soltasse. Logo em seguida, acertei a têmpora dele, arremessando-o contra o armário.
Sem parar, agarrei uma panela de ferro que rolou até meus pés e a acertei com toda a força contra o homem que corria na minha direção com uma faca. A panela atingiu com um estalo seco e o impacto fez a cabeça virar para o lado antes de ele desabar de costas.
Odiava lutar contra os humanos. Eles eram frágeis e eu sempre precisava controlar a minha força para não matar alguém no primeiro golpe. Só que como esses desgraçados sabiam o que a garota era, isso mudava as coisas. Se eu deixasse qualquer um deles vivos, essa informação poderia vazar para o império e eu não queria nenhum nobre da capital imperial aqui.
Mesmo odiando fazer isso... era melhor acabar com tudo logo aqui.
Outro dos desgraçados avançou sobre mim, fechando a distância rápido demais para que eu procurasse outra arma. Esperei entrar no meu alcance, então me agachei e passei por baixo do braço dele, agarrando a parte de trás do joelho com as duas mãos e puxando para cima, só escutei o pescoço dele estalando. Antes que eu pudesse pensar que estava parecendo uma serial killer, levantei o rosto e finalmente encontrei o chefe.
Ele estava a poucos passos de mim, avançando desengonçado. Por que os líderes dos bandidos sempre eram os piores em combate? Ele deu um soco aberto que passou longe. Desviei do golpe facilmente, já iniciando a metamorfose.
Meu corpo encolheu, escapando do alcance dele e quando comecei a descer atrás do chefe, desfiz a metamorfose ainda no ar e caí já em forma humana, atingindo a parte de trás do seu joelho com o pé. Ele caiu de cócoras e aproveitei para imobilizá-lo, segurando firmemente pelo pescoço, até ele parar de se mexer.
Apesar do corpo dolorido, eu ainda queria chutar mais alguém, mas, por ora, os idiotas estavam todos mortos.
Olhei para dentro do casebre e depois de toda aquela confusão, achei que a garota teria aproveitado para fugir, mas ela ainda estava ali, perto da parede, segurando uma faca e me encarando com um olhar que misturava raiva e determinação.
— Como você se chama? — perguntei, da forma mais delicada que eu conseguia.
Sem responder, ela apenas ergueu o rosto o suficiente para me encarar. Tinha hematomas de um lado e o outro estava inchado, com um corte feio acima da sobrancelha que ainda sangrava.
— Eu me chamo Luna — Puxei o pingente e vi os olhos dela se arregalarem — Isso é seu, não é?
A maneira como a expressão dela vacilou deixou claro que era mesmo a trombadinha.
— Não precisa se preocupar, vou te devolver — falei num tom mais leve — Quer dizer, não é como se essas histórias sobre feiticeiras fossem todas verdades, não é? Sou mesquinha, mas não sou uma ladra.
— Então me devolve agora!
— Calma… — levantei a mão em sinal de rendição — Eu já disse que vou te devolver, só quero entender quem é você.
— Eu não preciso te contar nada!
— Você consegue sentir o que estou pensando? — apontei para a minha cabeça.
Ela abriu a boca, mas tornou a fechá-la.
— Você sabe o que você é? — continuei.
Ela continuou calada.
— Bom... não vou mentir, é uma surpresa e tanto encontrar uma de nós aqui — eu disse — Achava que minha irmã e eu éramos as únicas por essa região, mas pelo que eu tô vendo, você é ainda mais especial do que eu. Você é como… a minha irmãzinha.
Ela continuou em silêncio e quando dei espaço para que ela se acalmasse, aproveitei para observar melhor o local. Havia uma bacia de metal numa prateleira baixa do que parecia ser a cozinha, talvez os idiotas usassem esse lugar para fazer negócios com o submundo.
— Como eles te pegaram? Ou será que… você trabalhava para eles? — comentei, enquanto andava até a bacia e a enchia com o meu cantil de água.
Ela confirmou com a cabeça.
— Eles que mandavam você roubar? — apertei os olhos — Porque você trabalhava para eles?
— Porque eles... iam ajudar o meu irmão...
— Onde ele tá?
— Ele foi levado... por homens de preto.
— Você tem certeza disso? — agachei-me diante dela e rasguei um pedaço da minha saia — Tem certeza que eles usavam preto?
— Quem é você? — perguntou ela, quase num sussurro — Por que você… me ajudou?
— Eu? — apontei para mim — Eu me chamo Luna como já disse e tô aqui porque você pediu a minha ajuda.
Ela não desviou os olhos. Molhei o pano na bacia e me aproximei lentamente dela.
— Eu não... — ela engoliu em seco e pareceu ter entendido — Você foi enviada pela… deusa Zara pra me ajudar?
— Sim, fui enviada por Zara, mas não sei se foi por sua causa ou por outro motivo... — inclinei a cabeça — Além disso, sou uma parente sua. Bem distante, mas ainda sou. Pode pensar em mim como… sua tia doida, brutamonte... — pisquei para ela — E com mãos um pouquinho pesadas.
A garota franziu a testa, mas não recuou quando estendi o pano molhado em direção ao seu rosto. Segurei seu queixo com a mão livre, firme, mas sem apertar e comecei a limpar o sangue seco na sobrancelha. Comecei a cantarolar baixinho e ela ficou quieta. A respiração foi desacelerando, os ombros perderam a tensão até que ela pareceu finalmente relaxar um pouco.
— Esses idiotas sabiam onde tá o seu irmão? — perguntei, inclinando-me para frente, virando o pano para usar um lado limpo no corte da boca.
— Eles disseram que se eu ajudasse... me ajudariam a encontrar o meu irmão.
Continuei cantarolando e aos poucos as feridas começaram a se fechar.
— Isso que você fez… cantarolando… — ela baixou os olhos, menos arisca agora — Eu… faço isso quando alguém tá muito zangado... porque, às vezes, funciona. A pessoa se acalma e... eu consigo sair viva.
— Exatamente. É quase uma súplica, uma oração pra deusa Zara. Só que, na verdade, é assim que a gente ativa nossos poderes — Estendi a mão e acariciei de leve a cabeça dela. O corpo enrijeceu com o toque, mas ela não se afastou. Voltei ao pano, enxaguei-o na bacia antes de continuar.
A água já estava tingida de vermelho e o corte da sobrancelha tinha parado de sangrar, deixando uma linha escura até perto da têmpora.
— Você é uma benzedeira? — perguntou ela, baixinho — A minha… mãe era uma.
— Não é preciso tanta habilidade pra tratar um ferimento superficial — respondi, enxaguando o pano mais uma vez antes de limpar os ferimentos do pescoço — Mas cuido da minha irmã e de um… vagabundo idiota. Acho que tô mais pra curandeira que machuca mais do que cura, mas ainda tenho meus dotes.
A garota uniu as sobrancelhas e o canto da boca subiu em um sorriso discreto.
— Você é mesmo uma... — ela engoliu em seco — Uma...
— Feiticeira? — completei — Sim... assim como você.
— Mas... eu não sou feiticeira.
— Ah, não? — ergui uma sobrancelha — Você consegue se transformar em ave, consegue falar com a deusa pelo seu canto, suas feridas se curam super rápido… — fui contando nos dedos as habilidades de uma feiticeira — Mesmo sendo mestiça, você ainda tem uma certa quantidade de sangue amaldiçoado.
Ela abriu a boca, aparentemente espantada.
— Então… eu sou mesmo uma feiticeira?
— Sim, você é — Fiz uma pausa — Quantos anos você tem?
Ela olhou para as próprias mãos, talvez em choque por descobrir o que era de verdade, talvez se perguntando por que ninguém nunca tinha dito aquilo para ela.
— Sete — disse ela — Meu irmão também. Nosso pai… vendeu a gente quando descobriu que ele estava doente.
Por um instante, lembrei de Nina com a pele tomada pelas feridas. A imagem veio tão nítida que sacudi a cabeça, como se isso bastasse para afastá-la. Puxando o ar, voltei a atenção para a garota.
— Seu irmão foi levado quando as escamas começaram a aparecer no corpo? — apertei os lábios.
A garota assentiu. Por um instante, me lembrei dos gritos dos malditos cientistas dos inquisidores, enquanto caiam, um por um, pelas minhas mãos.
— Você… veio mesmo me ajudar? — perguntou ela.
— Sim — inclinei a cabeça, observando-a por um instante — Talvez você seja a missão que Zara me pediu, talvez não, mas não posso te deixar sozinha. Seu sangue é muito valioso pra um monte de desgraçado nesse mundo.
A confusão tomou conta do rosto dela e, por um instante, seu olhar foi parar em algum ponto atrás de mim, antes de descer para as próprias mãos.
— Então... é verdade o que eles disseram? — ela hesitou — Os vampiros realmente... me querem?
— Sim. E você sabe o porquê?
Ela balançou a cabeça em negação.
— Não são só os chupa-sangue que têm interesse nos mestiços. O sangue de vocês interessa a todas as raças — Soltei o ar devagar.
— Por quê? — ela perguntou, parecendo incrédula ao levantar o rosto.
— Os humanos querem descobrir como colocar o sangue das feiticeiras sem correr o risco de virarem aluados, como acontece quando usam sangue de vampiros.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Mas por que... eu?
— Você é metade humana e metade feiticeira, então o seu sangue, pelo menos em teoria, tem mais facilidade para ser compatível com o dos humanos do que o meu, que é puramente amaldiçoado — Meus ombros relaxaram, pois ela finalmente parecia mais aberta a aceitar quem era.
— E o que é que os vampiros querem?
— Esses aí fazem de tudo pra impedir que os humanos descubram como usar nosso sangue.
— Por quê?
— Porque senão os humanos vão dá uma coça nos vampiros e, obviamente, eles não querem isso.
Ela me fitou, como se tentasse entender. Pelo visto, política não era o forte dela.
— Então os vampiros não querem o nosso sangue? — ela me olhou, confusa.
— Claro que querem — pisquei — Já me disseram por aí que é extremamente delicioso e parece uma iguaria pra eles.
Ela soltou uma risada e um canto da minha boca subiu. Pelo menos o gato arisco estava começando a baixar a guarda.
— Agora entende porque esses caras queriam te vender?
A garota assentiu, mas ficou parada só me observando daquele jeito atento. Estava aprendendo rápido e, sem dúvida, tinha futuro, mas sozinha não ia durar muito. Precisava de alguém para guiá-la, um mentor ou, pelo menos, alguém que pudesse protegê-la.
— E eu... faço o quê agora? — perguntou ela, por fim, quase num sussurro.
— Primeiro, fortaleça o seu corpo. Depois, se quiser, pode procurar os Chicos daqui. Eles são gente boa e vão te proteger. Ou então a Agatha, uma feiticeira que vive na província da Mata Serena... qualquer um deles pode te acolher e te treinar — Fiz uma pausa — Só não vai atrás dos Chicos da capital ou de outras províncias.
Ela apertou os lábios e baixou o olhar. Por um instante, pensei em levá-la comigo, mas eu já tinha gente demais para proteger, por isso, afastei esse pensamento quase na mesma hora. Agatha seria uma mentora melhor para ela e até o meu tio daria conta de protegê-la melhor do que eu. Levantei-me, esticando as costas e relaxando os ombros antes de me virar para a porta.
— Espera! — ela gritou.
Ainda de costas para ela, parei.
— Você não devia... me ajudar? — A voz saiu mais alta, quase num grito de desespero — Não foi por isso que a deusa te enviou?
Neguei com a cabeça e me virei só o suficiente para olhar de soslaio, contudo, aquele olhar de gato pidão me fez repensar.
— Sei que não é a resposta que você queria, mas a minha missão é apenas repassar as informações e deixar Lady Zara fazer o que bem entender com elas. Mas... — Deixei escapar um sorriso de lado — Se você quiser vir comigo, eu também não vou conseguir negar, mas aviso logo que não vou pegar leve com você, porque sou uma mentora bem rígida, sabe? Só que te garanto que vou procurar seu irmão e sem exigir nada em troca — cruzei os dedos em sinal de juramento.
Ela ficou alguns segundos me encarando, como se ainda estivesse tentando acreditar no que eu tinha dito. Então correu até mim, segurando minha mão com as duas mãos pequenas.
— Você vai mesmo me ajudar?
Olhei para as mãos dela agarradas à minha.
— Vou.
Os olhos dela brilharam.
— Então eu vou com você.