Abri os olhos e me espreguicei, sentindo que o dia tinha amanhecido menos quente. O ar carregava um aroma levemente metálico e fresco, típico prenúncio de uma boa tempestade e, talvez, essas fossem as últimas chuvas antes da Grande Sede se tornar ainda mais presente nas nossas vidas.
Respirei fundo, porque não adiantava ficar pensando no futuro, muito menos tentar chorar pelo leite derramado. Os riachos e as plantações secariam e só nos restava fazer o possível para nos preparar para mais um ciclo.
Por enquanto, havia coisas mais importantes para resolver. Depois de me trocar e cuidar do que precisava no sítio, fui preparar a massa de mandioca que Nina usaria para fazer os salgados e aproveitei para deixar o frango desfiado já temperado para o recheio. Segundo ela, tínhamos que preparar um banquete digno da nossa nova hóspede e tentar fazê-la esquecer tudo de ruim que tinha vivenciado nesses poucos anos de vida.
Talvez fosse culpa de Nina, mas eu já via Mia como parte daquela família maluca que tinha se formado, seja lá como. Quem sabe juntar famílias disfuncionais fosse o passatempo secreto da deusa Serena, já que ela mesma tinha o estranho hábito de acolher quem o mundo fazia de gato e sapato.
Cantarolando, Nina apareceu na cozinha e só de vê-la daquele jeito, me senti orgulhosa de ter acertado a nova fórmula da medicação. Aparentemente, teríamos algum tempo antes de outra crise, então era melhor aproveitar, enquanto podíamos.
Desviei o olhar para o bolo que ela começou a preparar ao meu lado e, conforme ela enrolava a massa amanteigada com a goiabada, aproveitei para escrever um bilhete para seu Anísio.
Pedi que ele entrasse em contato com nosso tio para descobrir se havia novos aluados, principalmente ex-chicos entre eles. Contei o que tinha descoberto sobre os encantados lelé da cuca e a pólvora, além de alertá-lo sobre a possível presença de inquisidores na região, sobretudo se estivessem envolvidos no rapto de crianças.
Mas não informei sobre Mia. Ainda não queria que o meu tio viesse até aqui para descobrir quem ela era, pois eu sabia muito bem o que ele diria e não estava a fim de arrumar essa briga agora.
Enquanto eu terminava de enviar o bilhete por um pássaro mensageiro, Nina já tinha acabado o bolo e Apollo se juntou à gente para ajudar com os salgados. Em pouco tempo, a cozinha ficou pequena para tanta gente.
Fizemos as coxinhas de massa de mandioca, os canudinhos de carne moída e até o brigadeiro de batata-doce, usando o pouco de cacau que ainda tínhamos na despensa. No meio de todo o caos que parecia ser a nova forma de nossa casa funcionar, Apollo ainda se encarregou da decoração, porque, aparentemente, os encantados tinham seus próprios truques para esse tipo de coisa.
Com um pouco de barbante, umas amarrações que eu não fazia ideia de como funcionavam e algumas bexigas coloridas, conseguiu deixar a sala com uma cara de festa de criança. Apollo parecia ter mil e uma utilidades. Quem sabe não fosse um partido tão ruim assim... afinal, um homem que sabia fazer de tudo um pouco tinha o seu valor.
Já reunidos em volta da mesa, devoramos todos quitutes sem pudor. O bolo, em especial, estava uma delícia, com a massa fofinha e a goiabada bem lisinha, mas as coxinhas também não ficaram atrás, parecendo ter sido feitas pelas mãos de uma deusa da culinária. Se isso existisse, ela certamente abençoaria a fartura daquela mesa.
Depois de me empanturrar, falei:
— Mia, como eu não sabia exatamente o que te dar… — coloquei sobre a mesa uma velha caixa de madeira com um anel em cima — Percebi que você anda bem interessada em ervas e coisas de botânica, por isso, queria te dar essa caixa. Ela foi… da minha mãe que ganhou da minha avó, então… — Parei por um instante, olhando para os utensílios que usei por tanto tempo no preparo dos medicamentos de Nina — Ela é sua agora.
Mia olhou para a caixa, depois para mim com os olhos meio arregalados. Por um segundo, ficou quieta, encarando o presente antes de voltar os olhos para mim. Peguei o dedo anelar dela, que já estava menos fino do que quando tinha chegado, e coloquei o anel. Ficou um pouco folgado, mas, de algum jeito, serviu.
— Esse foi o anel que eu ganhei quando entrei na fortaleza das bruxas. Era o símbolo de que eu tinha sido reconhecida como aprendiz — sorri para ela — Agora você é minha aprendiz, então… acho justo que fique com ele, mesmo que a fortaleza não exista mais.
Mia ficou olhando para o anel por alguns segundos, passou o polegar sobre ele, devagar, depois ergueu a mão para mostrar a Nina. Em seguida, mostrou para Apollo e voltou a admirar o próprio dedo.
Lembrei de quando ganhei o meu e um orgulho besta apertou o peito ao ver Mia tão feliz. Eu também tinha ficado radiante daquele jeito, embora não me recordasse de sair por aí mostrando o anel para todo mundo.
Mia abraçou Apollo assim que recebeu o par de espadas, coisa que não tinha feito comigo. Será que ela ainda não se sentia à vontade perto de mim ou eu simplesmente não merecia um abraço desses?
Olhei para o presente. Uma das espadas era de verdade, longa e pesada demais para uma criança, com a lâmina devidamente temperada e a ponta fina. A outra era curta, de madeira, própria para treinamento. Quem visse aquilo de fora, provavelmente, pensaria que Apollo não batia bem da cabeça por dar uma espada dessas para uma criança. Mas, fazer o quê? Mia precisava de um equipamento adequado.
— Como você está treinando com Luna, achei que já estava na hora de ter sua própria arma, em vez daqueles gravetos que ela tem insistido em chamar de espadas — disse Apollo, piscando para mim — Só não se esqueça de guardá-la quando não estiver usando.
Mia sorriu, abraçada às espadas. Aquilo vindo de Apollo quase me fez revirar os olhos, mas a espada de verdade me fez encará-lo por um instante.
— Quando foi que você conseguiu essa espada? — estreitei os olhos — Porque eu não lembro de você ter saído de casa.
Apollo desviou o olhar. O rosto começou a ficar vermelho, o que, naturalmente, só fez minha curiosidade aumentar.
— É... bem… eu pedi para uma amiga.
— Uma amiga? — repeti com desconfiança — E quem é essa amiga que consegue entrar e sair da minha casa sem que eu veja?
— Então... ela não entrou exatamente…
— Apollo… — eu disse, num tom que fez a palavra soar mais como uma cobrança do que como um chamado.
Ele passou a mão pela nuca, claramente desconfortável.
— É uma história um pouco complicada…
— Ótimo. Eu adoro histórias complicadas quando a pessoa claramente está tentando esconder alguma coisa de mim.
— Luna, eu não estou escondendo nada.
— Sei... — balancei a mão, irônica — Então não vai ter problema nenhum em me contar quem é essa misteriosa amiga e como ela apareceu aqui. E, já que estamos falando disso, por que você não pediu para ela conseguir a sua espada de volta?
— Apollo, muito obrigada! — Mia gritou, toda animada — Mas como é que fizeram isso na espada? Tem até meu nome aqui!
— Eu entalhei na espada de madeira e pedi para fazerem o mesmo na forja da outra — disse Apollo, girando a lâmina para mostrar um pequeno símbolo que lembrava o olho de um carcará, parecido com o que tinha na minha arma — Fiz esse detalhe inspirado no facão de Luna.
O símbolo me fez unir as sobrancelhas.
— Quando foi que você viu esse símbolo?
— Luna, olha, ele fez uma espada para mim!
— É um ótimo presente, Mia — sorri para ela — Justamente por isso quero saber como ele conseguiu ela.
Mia olhou para Apollo, depois para mim e fez uma careta.
— Apollo... ela tá brava com você? — Mia sussurrou.
— Não exatamente... — disse Apollo e sorriu, parecendo envergonhado.
— Tô sim! — respondi, fuzilando com os olhos — Porque eu quero saber como essa tal amiga apareceu aqui e se… se ela não vai fazer o meu hóspede moribundo se machucar de novo e me obrigar a gastar mais das minhas preciosas ervas. Então, senhor Apollo, eu preciso me preocupar?
Apollo me lançou um olhar quase desesperado.
— Eu... não. Não se preocupe, eu vou... — ele engoliu em seco — Tentar não me machucar de novo.
— Hum... sei! — balancei a cabeça, encarando-o — Você realmente acha que isso vai me deixar menos preocupada? Apollo, você escolheu justo a pessoa errada pra tentar esconder uma coisa dessas.
— Eu acho que você devia contar logo pra Luna como conseguiu ela — Mia estendeu a espada para Apollo — Eu vou precisar devolver?
— Mia, olha pra mim. Eu não tô irritada por causa do presente, tá? É só que... — suspirei — Você não precisa devolver. A espada é sua, mas… eu preciso que esse cabeça de vento entenda o risco que colocou você... que colocou a gente.
— Eu não acho que o Apollo faria mal pra gente — disse ela, abraçando a espada de novo — Você poderia... perdoar ele?
Peguei Mia no colo e a acomodei sobre as minhas pernas, passando a mão pelos cabelos dela.
— Eu não tô brava, Mia. É só que… pouca gente sabe que somos feiticeiras. O pessoal da região fuxica, claro, mas não tem provas e é melhor continuar assim. Se alguém der de cara com um animal carregando uma espada por aí, vai começar o falatório sobre encantados rondando a região e isso pode deixar ainda mais concreto o que já desconfiam de mim e, quando a gente menos esperar… o Império pode acabar colocando o imenso olho em cima da gente.
Peguei a espada pelo cabo e a ergui um pouco, sentindo o peso da lâmina. A princípio até achei que era pesada demais para Mia, mas era bem equilibrada. Olhei de soslaio para Apollo antes de voltar a atenção para a marca gravada perto da base.
— Meu pai... quer dizer, o pai da Nina gravou esse símbolo no facão que a minha mãe usava. Foi quando se tornou o símbolo da nossa família — Guardei a lâmina de volta na bainha.
— Por isso você ficou chateada de eu... — Apollo engoliu em seco de novo — Fazer isso sem a sua autorização?
— Não! — Alisei a cabeça de Mia — É só que... antigamente, as feiticeiras costumavam criar uma representação quando tinham uma filha, mas minha mãe nunca conseguiu fazer isso comigo. Quando a Nina nasceu, as coisas já estavam um pouco diferentes, o mundo parecia menos preconceituoso e ela escolheu o olho do carcará pra nos representar perante as deusas. Resumindo, é uma herança genética que vem desde a primeira Cuca. Você entende o que isso significa?
— Eu… desculpa Luna, fiz isso sem pensar — disse Apollo.
— Ouvi dizer que a espada dos encantados também faz parte de um ritual, que o pai entrega ao filho e que isso é uma forma dos encantados dizerem aos seus descendentes que sempre estarão com eles. É verdade? — perguntei.
Mia olhou para mim e depois para Apollo que assentiu.
— Quando completamos dez anos, recebemos nossa primeira lâmina e fazemos um ritual de ligação com nossos antepassados. Mesmo a Mia tendo só oito anos, pensei em entregar uma a ela, já que… ela tem você como mestra e eu como… — disse Apollo, ainda de cabeça baixa.
— Isso é algum tipo de pedido de casamento, só que… por vias tortas? — fiz uma careta — Agora já não faz mais diferença, a sua espada e o símbolo da minha família estão unidos diante dos deuses. Acho que isso deixa bem claro o vínculo que estamos assumindo com a Mia e o que cabe a nós fazer por ela.
Apollo me encarou por algum tempo até que a risada de Nina me fez olhar para ela.
— Acho que tô vendo a primeira briga de casal da minha vida — disse Nina, aos risos, enquanto pegava Mia pela mão — Mocinha, vem comigo. É melhor deixar os adultos se resolverem, enquanto eu te mostro as minhas bonecas pra você escolher uma até eu terminar de costurar a sua.
— Você vai me dar uma daquelas bonecas lindas? — perguntou Mia, toda animada.
As duas saíram e voltei a olhar para Apollo.
— Não adianta pensar muito nisso agora, não é? — perguntei, me recostando na cadeira de balanço.
— Se a deusa Serena permitiu que a espada fosse forjada, então ela reconheceu o nosso vínculo… — disse Apollo — Eu não pensei muito nisso, peço desculpas.
— Enfim, não adianta chorar pelo leite derramado, como estamos juntos há poucas semanas, veremos onde tudo isso vai dar...
— Você vai reconsiderar a minha proposta? — ele parecia extremamente feliz e até mais confiante.
Engoli em seco. [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;"> Que cara estranho.
— Não acho que agora seja o melhor momento para decidir uma coisa dessas, não acha? — suspirei — Mas, pelo menos, me diga como essa sua amiga descobriu onde você tá, daí quem sabe… eu começo a considerar isso.
— Você... viu uma gralha-do-campo sobrevoando a casa?
Levantei uma sobrancelha.
— Então, quer dizer que aquela ave era uma mensageira? Foi quando eu trouxe a Mia para cá, não foi?
— Ela é uma familiar da minha amiga… — ele assentiu — Quando descobri que o aniversário de Mia seria alguns dias depois de quando fomos no riacho, consegui entrar em contato e pedi que me enviasse o que eu precisava.
— Mas como uma gralha... — apertei os olhos — Conseguiu trazer uma espada dessas?
Apollo ficou em silêncio por um instante.
— Não foi ela que trouxe.
— Apollo, você tá piorando a sua situação — Cruzei os braços — Não é mais fácil simplesmente me contar o que tá acontecendo?
— Eu estava tentando preservar a surpresa — Ele respirou fundo.
— Ah tá, tudo isso era só para surpreender a Mia, não é? — perguntei, sem esconder o sarcasmo — E, de quebra, me surpreendeu também. Vou ter que me preocupar com mais surpresas dessas?
— Eu não pretendo fazer mais nada sem a sua autorização.
O jeito como ele me olhou deixou claro que tinha se arrependido e, mesmo sem querer, eu até tinha ficado com um pouquinho de dó.
— Acho bom! — levantei as sobrancelhas — Não quero acabar matando uma das suas amigas achando que é algum invasor.
Ele pareceu ficar ainda mais sem graça. Que fosse, uma hora ele teria que entrar em contato com os parentes mesmo, então talvez nem fosse tão ruim assim. Pelo menos, se alguma despesa extra aparecesse pelo caminho, eu já tinha alguém para mandar a conta.