A minha vida parecia ter adquirido uma tranquilidade incomum depois de tantos trabalhos perigosos e, desde a festa de aniversário, os meus dias passaram a ser ocupados por acordar Nina e Mia para o café, treinar movimentos de armas brancas com Mia e condicionar o corpo dela dentro do que um corpo infantil era capaz de suportar, usando o conhecimento que me havia sido passado na fortaleza das bruxas.
Essa rotina ocupava boa parte do meu dia, mas, quando sobrava algum tempo, eu treinava com Apollo. Ele parecia ficar cada vez menos dependente da minha ajuda e da troca de curativos, embora a quantidade de ferimentos tivesse cobrado um preço alto do corpo dele e feito a recuperação demorar mais do que deveria. Já estava conseguindo me acompanhar até a cidade quando eu ia vender ovos e laranjas e em outros dias, ajudava a trazer as compras do armazém de dona Zefa.
Conforme fomos nos acostumando a parecer uma família sem vínculo, comecei a conhecer Apollo melhor. Ele era um homem bom, gentil, trabalhador, tinha tido uma boa educação e passou a ensinar Mia a entalhar madeira, além de conhecimentos como escrita e aritmética. Não que eu não tivesse estudado, mas esse tipo de conhecimento não era fácil de ser ensinado e Apollo tinha o dom para o ensino mais acadêmico, o que fazia sentido, já que carregava todo um ar pomposo de quem tinha sido o melhor aluno das academias educacionais dos encantados.
Ele também sabia muito sobre a mata e como interpretar os astros, o que combinava com tudo que eu já sabia sobre as famílias nobres dos encantados, descendentes diretas dos povos originários deste país. Sempre havia alguma coisa nova que ele podia ensinar a Mia, enquanto isso, Nina cuidava de outras coisas e passou a ensinar a cozinhar, a costurar e a repassar todos os conhecimentos que nossa mãe lhe ensinou.
Mia estava cada vez mais à vontade com os dois, embora ainda se recusasse a dormir sem mim, o que era fofo. Parecia que só se sentia segura de verdade quando estava debaixo da minha asa, mas isso poderia se tornar um problema. De todo modo, enquanto ela fosse criança, não havia transtorno em depender tanto de mim. Acho que, no fundo, eu também já tinha me acostumado com essa nova rotina que se tornou a parte mais prazerosa dos últimos anos.
Os dias foram se passando assim, até começarmos a colher as últimas frutas e eu adorava andar pelo nosso pomar no meio da névoa da manhã, que sempre tomava conta dali, mesmo nos dias mais quentes. Amava enfiar a mão entre as folhas úmidas das laranjeiras e retirar delicadamente as que estavam maduras, mas odiava perceber que algumas já demonstravam um aspecto ressecado, bem discretamente, mas o suficiente para nos deixar em alerta. A Grande Sede parecia mais forte de fato e sentiria falta desses momentos no futuro.
— Quantas pessoas costumam vir pro festival? — perguntou Mia.
— Não sei ao certo — respondi, enxugando a testa com o dorso da mão — Talvez venham mais este ano, tem sido um ano bom pra as colheitas. Então acredito que teremos, além da farinha, muitas famílias trazendo milho para fazer pamonha e canjica.
— Pamonha e canjica? — Mia abriu um sorriso — Vai ter…. queijo coalho também?
— Deixa eu pensar… — fechei um olho e deixei o outro aberto observando ela de soslaio — Claro que sim! É uma festa da colheita pra comemorar que o ano miou, então vai ter fogueira, música e, principalmente, queijo coalho.
— Mas... vai ter muita gente — Mia fez biquinho.
— Vai e você pode aproveitar e fazer amizade com algumas das crianças. Tô bem curiosa pra ver a reação das mães quando descobrirem que os filhos viraram seus amigos.
Mia me lançou um olhar desconfiado e murmurou alguma coisa.
— O quê? — perguntei.
— Eu prefiro apenas o queijo — Mia cruzou os braços e o biquinho ficou ainda mais evidente — Não quero ser usada pra provocar as outras mães.
— Não se preocupe, Mia. Elas não vão te fazer mal... nem são doidas de tentar, afinal, vão ficar com medo de eu jogar alguma maldição nelas.
Mia resmungou mais alguma coisa e apenas ignorei-a, pois não tinha dúvidas de que quando visse as crianças correndo pelo sítio, dificilmente ela não se envolveria.
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Após alguns dias, passei a fazer mais queijo coalho do que costumava, tanto para garantir mais proteína quanto para ter comida suficiente quando os nossos futuros convidados chegassem. Além disso, aproveitava as idas para vender os ovos, trazer leite e fazer o que fosse preciso para não dar motivos para reclamarem que eu estava sendo mão de vaca.
Só que o tempo mudou antes que a estiagem chegasse. A chuva voltou a engrossar dia após dia, até que os últimos dias viraram um verdadeiro dilúvio, nos impedindo de sair de casa. Os trovões estalavam no céu e os clarões entravam pela casa. Pelo rádio, diziam que a chuva dominava todo o Império e, nas províncias mais ao sul, os estragos eram ainda maiores. Na própria capital imperial, as cidades circunvizinhas também estavam debaixo d’água.
Com a força dos ventos, zepelins e dirigíveis não podiam alçar voo pelo risco de serem derrubados, enquanto as jardineiras, os paus de arara e outros transportes automotores precisavam ficar parados, porque podiam atrair a ira da Grande Sede e ser atingidos pelos trovões.
— A Nina disse que ela não era malvada, então… por que ela tá tão brava? — perguntou Mia, encolhida debaixo da coberta.
Sorri, enquanto acariciava a cabeça dela por cima do lençol.
— Às vezes ela fica assim, mas não se preocupa, ela é meio mal-humorada — respondi e observei o brilho dos relâmpagos cortar o céu — Daqui a uns dias, essa chuva vai passar e a gente até vai sentir falta dela.
Eu tinha deixado a janela entreaberta para acompanhar o céu e, se fosse preciso, levar os três para o subterrâneo. Talvez a mensagem do oráculo que Apollo havia mencionado estivesse certa, porque havia alguma coisa diferente naquela chuva. [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;">Olhei para a criança tremendo no meu colo e depois para o céu. A esfera da Grande Sede pairava acima das nuvens, muito mais brilhante do que antes. Batidas fortes na porta de casa fizeram Mia pular e me segurei para não ri.
— Mia... eu preciso ver quem é.
— E se for... o papa-figo? — ela perguntou.
— O papa-figo não bate na porta de ninguém, Mia — disse e levantei a coberta — Além disso, eu tô aqui e qualquer idiota que tentar te fazer mal... eu arranco a cabeça dele.
Mia levantou os olhos, que pareciam duas bolinhas âmbar de medo e depois de alguns segundos, assentiu.
— Mas eu vou com você — disse ela.
Levantei-me estendendo a mão para ela que segurasse e quando saímos do quarto, Apollo e Nina já nos esperavam no corredor.
— Será que é alguém pedindo abrigo? — perguntou Nina, ajeitando o xale no ombro.
— Você sabe que as pessoas só aparecem aqui para pedir ajuda por três motivos — disse eu.
Senti Mia puxar minha camisola e olhei de soslaio para a fantasminha ao meu lado, coberta pelo lençol que arrastava pelo chão. Mesmo tão nova, ela parecia querer entender tudo nos mínimos detalhes, talvez por isso estivesse aprendendo tão rápido inúmeras habilidades.
— O nosso pai era conhecido como curandeiro, pai espiritual, um médium. Mesmo sendo apenas humano, ele tinha a capacidade de manifestar antigas entidades, por isso, as pessoas vinham aqui pedir ajuda a ele, mas desde que ele morreu... as pessoas só nos procuram quando precisam de uma medicação difícil de fazer ou... — peguei um lampião — Quando um parto está sendo complicado.
Com Mia segurando a minha mão com força, abri a porta e dei de cara com um mensageiro. Eles costumavam percorrer os caminhos e veredas entre as famílias, levando recados, avisos e notícias urgentes, então a presença de um deles na minha porta já era motivo suficiente para me deixar alerta. Ele contou que uma das filhas de uma família ribeirinha estava tentando dar a luz, mas as parteiras não estavam conseguindo dar conta, porque a criança parecia atravessada.
Olhei para o céu e depois para Nina que fazia uma careta. Ela devia estar pensando na mesma coisa que eu. Partos sob essas circunstâncias não eram comuns e, quando aconteciam, geralmente tinham alguma ligação com um encantado. Tirando Apollo e Cumadre Florzinha, só existia mais um encantado por essas bandas.
— Você tem certeza de que ela começou o trabalho de parto assim que a lua surgiu? Antes da tempestade ficar mais forte? — perguntou Nina, séria.
Entendi onde ela queria chegar com aquelas perguntas.
— Sim — disse o mensageiro.
— Merda — disse eu — Quantos anos tem a garota? Ela se banhava muito no rio?
O mensageiro pareceu confuso, mas assentiu. Eu nem me lembrava da última vez que o boto tinha se apaixonado por uma humana e, enquanto Nina corria até a cozinha para buscar a caixa onde guardávamos uma tesoura abençoada pela própria deusa Zara, deixei minhas divagações de lado, troquei de roupa o mais rápido possível e preparei Mia para enfrentar aquele dilúvio.
— Apollo — eu disse, passando Mia para ele — Você sabe as velhas rezas do seu povo?
Apollo assentiu e ajeitou Mia nos braços.
— Por isso você perguntou se a mãe da criança tomava banho no rio? — Apollo sussurrou e pelo tom parecia confuso — Tem algum boto na região?
— Você não sabia que ele tava por aqui?
Ele apertou os olhos e parecia que, de fato, não tinha essa informação, o que era curioso, mas não tinha tempo para pensar nisso agora.
O caminho até a casa foi difícil, principalmente, porque a areia tinha se transformado em um lamaçal que dificultava a nossa passagem. Depois de algum tempo, a casa surgiu entre a cortina de chuva, bem à beira do lago e, quanto mais nos aproximávamos, mais vozes eu conseguia ouvir.
Assim que passei pela entrada, encontrei um bando de mulheres espalhadas pela casa, algumas apertando as mãos em preces, outras com expressões pesadas de quem já não sabia mais o que fazer. Porém, bastou me verem para os cochichos morrerem e todos os olhares de temor, raiva e preocupação caírem sobre mim. Nada novo sob o sol. Eu era o bicho-papão da região, até quando ia salvar alguém.
— Como tão a mãe e a criança? — perguntei.
Os gritos da mãe ecoavam pela casa, cada vez mais fracos, até que, entre um e outro, já havia um silêncio que me incomodava.
— A criança tá atravessada na horizontal e não conseguimos virá-la — disse Dona Ana, uma das parteiras mais antigas da região.
Os cabelos grisalhos estavam presos num rabo de cavalo baixo e o cenho franzido de sempre me fez pensar que aquela mulher devia ter nascido com cara de poucos amigos. Os olhos pretos pareciam duas pedrinhas minúsculas e me encaravam com um misto de desprezo e medo.
Procurei Dona Vera, mas não vi a velha anciã em canto nenhum.
— Onde tá a Vera?
— Não conseguimos trazer a minha avó nessa chuva — disse uma das mulheres, ajoelhada.
— Por que não me chamaram mais cedo se Vera não tava aqui?
— Porque não queríamos depender de suas feitiçarias — disse Dona Ana, ainda mais ríspida.
Fiz uma careta e passei por ela sem me importar em responder. Se a velha queria ficar no caminho, que ficasse resmungando sozinha. Ao entrar no quarto, finalmente vi a jovem estirada na cama, a pele morena pálida demais parecendo não ter mais forças. Aproximei-me e sentei na cama. A garota abriu os olhos escuros e agarrou a minha mão com tanta força que as suas unhas perfuraram parte do meu pulso.
— Salve o... meu filho — ela disse, mordendo os lábios com tanta força que um fio de sangue escorreu — Você consegue… com a sua magia?
— Eu não sou uma bruxa — disse eu, colocando uma mão na testa dela. A pele parecia um pouco gelada — Mas preciso saber se essa criança… — olhei para a barriga dela — É dele?
A garota arregalou os olhos, olhou para o próprio ventre e depois para a porta. Muitas das mulheres também me encaravam e as suas expressões deixavam claro que estavam confusas com o que eu tinha acabado de perguntar. Talvez a menina não tivesse contado de quem era, mesmo depois da pressão e dos questionamentos que, provavelmente, tinha sofrido. Suspirei e me levantei da cama. Se ninguém ali sabia, era melhor assim. Comecei a empurrar as mulheres para fora do quarto, apesar dos protestos, e Apollo saiu comigo antes que eu fechasse a porta atrás de nós.
— Eu sei que vocês me odeiam e só me aturam por causa da casa de farinha, mas eu asseguro que consigo salvar a mãe e a criança. Só preciso que essa… — apontei para Dona Ana — Não fique no meu caminho.
— Eu não vou deixar você sozinha com ela. Sei muito bem o que gente como você faz. Com certeza, vai roubar o sangue da criança, como faz com aqueles homens na estrada — disse Dona Ana — Sua... sua...
— Feiticeira? style="font-weight: 400;"> — completei, sorrindo de lado.
Ela não poderia ter me visto matar os aluados, eu teria percebido. Então, provavelmente, eram só mais boatos sobre mim circulando por aí. Que povo com tempo sobrando style="font-weight: 400;">. O rosto de Dona Ana ficou ainda mais vermelho e os olhos me fuzilaram. Se ela fosse capaz de lutar, não tinha dúvida de que tentaria arrancar a minha cabeça.
— Dona Ana, eu também não sou lá muito fã de você, mas… se eu quisesse chupar o sangue de uma criança, não ia fazer isso na frente de um bando de fuxiqueiras — disse, ficando de costas para ela — Essa garota pode morrer e a criança também, então, se vocês quiserem perder tempo discutindo, podem continuar, mas eu vou fazer o parto, com ou sem o seu consentimento.
— Eu entendo o medo da senhora, mas, neste momento, pouco importa o que pensa de Luna ou dos boatos que ouviu sobre ela — disse Apollo, colocando uma mão no meu ombro e dando uma leve apertadinha — Há uma jovem lutando pela própria vida e a criança depende dela. Luna está aqui, porque a deusa Serena permitiu que chegássemos mesmo debaixo desse dilúvio. Então, por alguns minutos, deixemos nossas diferenças de lado e pensemos apenas em salvar duas vidas.
Olhei para ele com os olhos cerrados. Acho que era a primeira vez que o via agir como o nobre que era. Ele realmente queria convencer aquelas mulheres na lábia?
— Não podemos simplesmente deixar vocês fazerem o que quiserem — protestou Dona Ana — Sem contar que não confio em um homem que aceitou morar na casa dessa… perdida aí.
— Eu não estou pedindo que confie em nós sem questionar — continuou Apollo e, por algum motivo, parecia diferente, mais seguro — Estou pedindo que não atrapalhe [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;"> quem pode salvar a mãe e a criança. Se houver outro caminho, diga-me qual é e eu convencerei Luna a aceitá-lo, mas, se não houver, então a deixe fazer o que for necessário.
Dona Ana ficou em silêncio por um instante.
— Eu não gosto disso — disse ela, por fim — Mas também não quero perder mais uma criança...
— Então concordarmos em uma coisa — disse Apollo — E pelo que eu sei, Luna é a única capaz de salvá-las.
— Essa aí vai matá-la — protestou Dona Ana.
Revirei os olhos. Uma velha cabeça-dura como essa não ia ceder com esse papinho diplomático. Duvideodó que Apollo consiga fazê-la mudar de ideia.
— Isso pode acontecer — disse Apollo — Eu não vou fingir que existe uma escolha sem risco, porque a senhora merece ouvir a verdade, mas, se não fizermos nada, perderemos essas vidas de qualquer forma.
Uma forte algazarra de fuxicos, dúvidas e questionamentos sobre quem era Apollo tomou conta do lugar. As mulheres, velhas e novas, pareciam mais interessadas em saber se ele estava sendo manipulado e preso a mim por alguma magia ou se era só um pobre coitado que eu tinha forçado a morar comigo.
Eu quase ri. No meio de um parto de risco e aquilo era o que mais interessava àquelas mulheres.
— Chega! — eu disse em um tom mais alto, virando-me o suficiente para fazê-las calar a boca — Eu vou fazer isso! E, se alguém entrar nesse quarto pra me atrapalhar, vou jogar uma praga tão poderosa que vai passar de geração em geração, até os seus bisnetos saberem o motivo!
— Sua bruxa! — gritou Dona Ana, enquanto eu entrava no quarto.
Mal a porta se fechou e ouvi Dona Ana bater do outro lado, à medida que Apollo segurava a maçaneta.
— Sua bruxa! — ela gritou novamente.
Respirei fundo, tentando recuperar meu centro de equilíbrio e voltei a atenção para a garota, que parecia ainda mais sem forças. Toquei novamente a sua testa, agora bem mais fria e percebi que, se demorasse, perderia os dois.
O suspiro de Apollo ao meu lado me fez olhar para ele por um instante e lancei um sorriso gentil.
— Foi uma boa tentativa — eu disse, sentando-me ao lado da menina — Mas aquela velha carrancuda nunca ia se deixar ser convencida só com essa sua lábia.
— Você tem que... — ele engoliu em seco — Lidar com isso toda vez?
— Hoje até que foi tranquilo — eu disse, encarando a garota agora — Essa criança é filha do boto? Preciso saber disso pra realizar esse parto da forma correta.
A garota apenas assentiu.
— Nina, você fica responsável pelo parto. As suas mãos são mais delicadas — eu disse — Apollo, comece a reza, por favor. E Mia… encha aquela bacia de água.
O trabalho não era pouco. Havia o preparo para evitar qualquer mal depois da parição, o cuidado com o corte do cordão umbilical e tudo o que precisávamos deixar pronto antes de começar. Enquanto Apollo iniciava a reza, preparei o que estava ao meu alcance, Nina separou os panos limpos e Mia encheu a bacia.
Deixei a tesoura abençoada sobre a mesa, ao lado da colher que eu aqueceria depois.
Parteiras precisavam ter mãos pequenas para alcançar a criança dentro do ventre e tentar colocá-la na posição certa para nascer. Nina tinha essas mãos e tentou movê-la com cuidado, mas ela continuava atravessada. A cada tentativa, a mãe gritava e o corpo dela parecia lutar contra o próprio ventre.
Se era mesmo filho do boto, talvez a água fizesse alguma diferença. Comecei a pingá-la sobre o ventre, deixando as gotas escorrerem entre os meus dedos, primeiro em círculos lentos, depois em linhas que desciam do alto da barriga até a parte de baixo. A cada nova gota, a criança se deslocava um pouco, até que finalmente chegou no lugar onde eu queria. Fiz a incisão de prontidão na parte baixa da barriga, seguindo a linha que a água havia desenhado e Nina cuidou do resto.
Ao meu lado, Apollo continuava entoando as preces e eu só podia torcer para que aquilo bastasse. O resto dependia de Serena fazer a parte dela.
O brilho do candeeiro refletiu no pequeno corpo quando Nina o retirou, revelando a pele rosada. Se as outras pessoas vissem aquilo, não pensariam duas vezes antes de jogá-lo no rio para devolvê-lo ao pai.
— Por favor... não tira meu filho de mim — disse a mãe, quase sem forças.
— Não se preocupe — eu disse, colocando o bebê no balde d'água.
Ele ainda não tinha chorado e aquilo era um problema. Comecei a banhá-lo, massageando de leve o peito para estimular os pulmões, enquanto os clarões dos raios entravam pela janela.
— Mia, abra mais a janela — pedi — Deixe o brilho dos raios entrar.
A criança tinha dado sorte. Nascida em uma noite de tormenta, as partículas elétricas dos raios e trovões já começavam a reagir ao pequeno corpo, fazendo o tom rosado da pele perder a cor e ganhar, aos poucos, o tom moreno da mãe. Filhos de botos eram muito sensíveis à eletricidade e aquela reação podia esconder a sua origem.
Continuei a banhá-la até chegar à cabeça, onde o espiráculo ainda abria e fechava. Nina me passou uma colher de sopa quente e fechei aquela abertura com cuidado, deixando que ela começasse a respirar pelos pulmões. Ela se debateu na água assim que terminei e mantive a mão sobre o tórax dela até sentir o primeiro fôlego pela boca, seguido de um grito infantil.
Aí sim, sua peixinha safada.
Enquanto ela recuperava o fôlego, cortei o cordão com a tesoura abençoada. Nina aqueceu a colher novamente e usei-a para queimar o umbigo antes de passar a banha e fazer o curativo. Depois de algum tempo na água, tirei a criança do balde, colocando-a sobre o peito da mãe.
Exausta, a garota adormeceu com a filha contra o colo e eu, enfim, pude respirar tranquila. Dessa vez, de alguma forma, tinha dado tudo certo.