Pela manhã, pequenas batidas vieram do lado de fora da janela do meu quarto, então levantei com cuidado para não acordar Mia e abri só o suficiente para que uma Maria-fita entrasse, com o penacho vermelho balançando na cabeça.
Quando ela pousou diante de mim, reparei no brilho do pequeno cilindro preso à sua patinha. Dentro dele, encontrei uma carta de seu Anísio com a informação de que um conhecido seu, comerciante de armas, estava com uma espada dos encantados que poderia ser a de Apollo. Para confirmar, porém, eu teria de verificar a arma pessoalmente e em troca de vendê-la para mim, o comerciante queria apoio diante de uma possível invasão dos cangaceiros vampiros a uma vila a noroeste, na fronteira com a província do Rio Potengi.
De acordo com as informações, os cangaceiros já rondavam a região havia alguns dias, mas não tinham atacado ainda e até agora o motivo da demora permanecia um mistério. Nem o comerciante, nem o investigador enviado pelo meu tio haviam descoberto o porquê.
Suspirei. Afinal, vampiros não invadiam uma cidade por nada. De duas uma, ou estavam caçando alguma coisa ou precisavam repor o estoque de sangue do bando. Cocei a cabeça e me virei para Mia, que dormia tranquila, abraçada a boneca que Nina havia costurado para ela. Acabei sorrindo ao pensar que, fosse qual fosse o plano daqueles desgraçados, eu só precisava descobrir se aquela era mesmo a espada de Apollo e, se desse merda, fugia com ela.
Pelo bilhete, calculei que levaria umas quatro ou cinco horas a cavalo até lá. Dava para partir na manhã seguinte e ainda ter tempo de descobrir o que os cangaceiros estavam aprontando, contanto que continuassem apenas sondando a região.
Eu tinha, no melhor dos casos, mais setenta e duas horas. Se resolvessem atacar antes, paciência. Ia ter que procurar a espada nos destroços.
Respondi logo, avisando que aceitaria o serviço e também pedi a seu Anísio que descobrisse tudo o que pudesse sobre a vila, principalmente se havia algum policial ou homem armado capaz de organizar uma defesa.
— Ai que saco, sério? — sussurrei.
Eu tinha uma forte sensação de que aquilo ia dar uma merda daquelas e odiava isso, porque meus instintos sempre estavam certos, principalmente, quando eu estava naqueles dias.
Lavei o rosto com água fria para espantar o resto do sono e observei a manhã ensolarada dissipar a neblina. Soltei outro suspiro. Talvez fosse melhor assim, já estava na hora de contar a ele quem eu era, não é?
Tentando não pensar na reação dele, balancei a cabeça e terminei de me arrumar.
Ao sair do quarto, encontrei Apollo à minha espera, encostado à porta do quarto de painho, com um sorriso convencido e a cara de quem tinha acabado de se barbear. Piscou para mim, pegou a espada de treino e a jogou na minha direção.
— Você acha mesmo que tá em condições de me acompanhar? — perguntei, pegando a espada no ar.
— Preciso fazer meus músculos lembrarem como é se mexer de verdade — disse ele, ainda cortês — Então… vai treinar comigo?
— Ora, ora, senhor Apollo... — abri um sorriso para ele, cruzando os braços — Isso é uma tentativa de me fazer esquecer que você ainda não me contou como sua amiga conseguiu trazer o presente da Mia?
— Você ainda não… esqueceu isso? — ele coçou a garganta.
— Eu devo avisá-lo, senhor Apollo, que mulher nenhuma esquece certas coisas. A gente só guarda, bem guardadinho, esperando a hora certa pra trazer de volta, principalmente, quando um homem acha que já escapou do erro que cometeu.
Ele estalou a língua e parecia cada vez mais à vontade, sem o tom ou a postura educada de sempre. O que fazia parecer menos um nobre que me passaria a perna e mais alguém em quem eu podia confiar.
— De qualquer forma, eu precisava falar com você — eu disse, passando por ele — Acho que encontrei sua espada.
— Sério? — ele perguntou, alegre — Mas… pela sua cara… — Apollo fez uma pausa — Imagino que não seja algo tão simples como chegar lá, pagar o vendedor e sair com ela.
— Porque não é. Aparentemente, um bando de cangaceiros vai atacar o lugar onde sua espada tá… — virei-me para ele, andando de costas — Só por curiosidade… a sua espada tem alguma maldição que atrai vampiros? Porque, é muita coincidência você ter sido atacado por eles e, agora, eles resolverem atacar justamente o lugar onde ela tá.
— Até onde eu sei… não. Pelo menos, nunca notei nada parecido — ele deu de ombros — Você veio me chamar pra ir até lá?
— Não — balancei a cabeça — Eu não posso deixar Mia e Nina sozinhas hoje e também não dá pra adiar o festival, então, amanhã a gente vai. Assim que o dia raiar, partimos, tudo bem?
— Você pretende lutar contra eles? — perguntou Apollo, erguendo uma sobrancelha.
— Eu? Lutar contra um monte de sanguessuga? Nem pensar — balancei a mão — No máximo, vou descobrir se o lugar consegue se proteger e dar uma ajudinha. A minha força ainda não voltou ao normal e tô limitada com a minha transformação. Sabe como é… coisa de mulher.
— E se você chamasse o Carcará Fantasma? Será que ele não ajudaria?
Balancei a cabeça em negação e me virei para que ele não visse a minha expressão.
— De qualquer jeito, bora treinar — eu disse — Você precisa pelo menos conseguir se virar sozinho sem me arrumar mais uma dor de cabeça.
Não esperei que ele respondesse e segui para fora, já me posicionando à frente dele. Apollo tomou a iniciativa, girando o pulso para fazer a espada passar por baixo da minha guarda e aproveitando uma abertura que eu, em condições normais, não daria. Quase um mês de recuperação já tinha feito a diferença. O corpo dele se movia muito melhor e, em breve, estaria bom o suficiente para ir embora.
Respirei fundo, tentando afastar o incômodo. A ideia de vê-lo partir deveria me trazer algum alívio, mas não era bem isso que eu sentia.
O meu corpo, por outro lado, não parecia tão disposto quanto o dele. O baixo-ventre incomodava, eu estava mais cansada do que gostaria e cada golpe exigia um pouco mais de esforço. Talvez fosse por isso que eu estivesse tão impaciente e pensando bem, tinha sido uma boa ideia adiar a ida até a vila.
Antes que o golpe dele completasse um novo arco, choquei minha espada contra a dele. Avancei com o ombro para tirá-lo do equilíbrio, mas Apollo deu um saltinho para trás, girou no ar e aterrissou com os pés firmes, como se não tivesse feito esforço algum.
Ah, filho da mãe…
— Você se recuperou bem… — disse eu, limpando o suor com o dorso da mão — O que pretende fazer quando… estiver completamente curado?
Saltei para trás quando ele desferiu outro golpe. Ergui uma sobrancelha e assumi a guarda, com a ponta da lâmina apontada para o peito dele, obrigando Apollo a recuar.
— O meu único objetivo é encontrar o primeiro milagre. Depois disso, retornarei ao reino para ajudar meu irmão — disse ele, espelhando meu movimento e mantendo distância.
Deslizei o pé esquerdo para o lado, sem tirar a ponta da espada de madeira da linha do ombro dele.
— Hum… você realmente se importa bastante com esse seu irmão. O que aconteceu com ele? — perguntei, tentando distraí-lo — Você ainda não me disse o que ele tem…
Inclinei a cabeça e afastei os cabelos grudados na nuca, abanando o rosto com a mão para aliviar o calor. Em seguida, deixei os fios deslizarem devagar sobre um ombro, prolongando o gesto que eu sabia que funcionava com ele. Apollo acompanhou o movimento com os olhos e bastou aquela breve hesitação para eu avançar.
Ele ergueu a espada às pressas para aparar o golpe e o chão tremeu quando ativou parte do seu poder de um encantado, fincando os pés no solo para se manter em pé.
— Isso foi um pouco baixo até para você Luna — disse ele, saltando para longe
— Fazer o que… eu odeio perder — dei uma gargalhada.
— Por um momento esqueci dessa sua péssima personalidade — disse ele rindo.
— De todo jeito… — dei de ombro — Você ainda não me disse mesmo, o que aconteceu com seu irmão?
— Ele tem uma variação da doença das escamas, mas… — ele trocou o pé de apoio — Em vez do corpo dele ser totalmente coberto por feridas e escamas como o de Nina nas crises, ele tá em um… sono eterno.
Arregalei os olhos e ele aproveitou a minha guarda baixa para atacar. Girei o corpo de prontidão, passei ao redor dele e me posicionei às suas costas.
— Você não pode falar nada de mim agora! — provoquei, completando o giro e avançando com a espada.
— Sim, senhora! — Ele sorriu, aparando meu golpe.
— Você tá muito amostradinho pro meu gosto hoje — estalei a língua.
Entrei na guarda dele antes que pudesse se afastar, deslizei para perto o bastante para agarrar o seu pulso e conduzi o movimento seguinte como se estivéssemos ensaiando uma dança. Girei sob o braço dele quebrando a guarda e usando o impulso para tirá-lo do lugar, me posicionei a alguns passos de distância.
— Agora entendo por que você tá tão apressado em encontrar a tal criança — eu disse com a espada pronta para atacar de novo.
— O meu irmão é forte e sei que ele aguentará o tempo que for preciso até eu conseguir levar a cura pra ele, mas… preciso encontrar ela logo.
Assenti e troquei o pé de apoio, mantendo a guarda.
— Você tem informações sobre esse ataque dos cangaceiros? — perguntou ele.
— Não sei de muita coisa, só que eles estão sondando a região já faz uns dias. Ainda assim, sinto que não vão atacar nos próximos dias — respondi, dando de ombro — Mas não dá pra confiar muito nisso, até porque ninguém sabe o que eles estão aprontando por lá.
Apollo estreitou os olhos e lançou um olhar para o céu.
— Essa cidade consegue se defender?
— Dificilmente — Torci a boca — É muito provável que vire um banho de sangue.
— Você... — Ele franziu o cenho — O que pretende fazer de verdade?
— Sendo sincera… eu preferia não me meter com eles nesse momento. Eles vão sentir meu cheiro de longe e eu não tenho como esconder isso… — suspirei de novo jogando a cabeça para trás — Esse é o pior período pra enfrentar um bando de chupa-sangue.
Apollo ficou em silêncio por alguns segundo e seus olhos percorreram meu rosto antes de desviarem rapidamente, como se tivesse entendido ao que eu estava me referindo.
— Ah... — pigarreou — Entendi.
— Não precisa ficar constrangido, Apollo — balancei a cabeça — Eu só tô menstruada.
Ele baixou os olhos, ainda mais sem jeito.
— Eu... peço desculpas — coçou a nuca — Não quis...
— Pelo amor dos deuses, Apollo. Você não precisa pedir desculpa, porque eu menstruei e muito menos por falar disso. Não é como se fosse algum segredo vergonhoso, é só uma coisa natural.
— Mas isso não te deixa vulnerável pra eles?
— Infelizmente, sim. Por isso, vou precisar da sua ajuda… — mordi o lábio — O comerciante ofereceu a espada como pagamento, então acho que a gente não tem muita escolha, não é? Mas, se ficar perigoso demais, eu não vou me colocar em risco nem a pau. Tenho duas crianças pra cuidar em casa.
— Duas?
— Nina e Mia, obviamente — uni as sobrancelhas — Ou você tá querendo se incluir nessa equação?
— Não… não… — coçou a garganta — De qualquer forma, você enfrentaria um bando de vampiros só por causa… da minha espada?
— Eu prometi pra você, não prometi? — fixei os olhos dele — De todo jeito, não adianta ficar pensando demais nisso. Quando chegarmos lá, a gente vê o que dá pra fazer. Se nossas vidas estiverem em perigo, não vou fazer nenhuma loucura.
— E nem eu deixaria você se colocar em perigo por causa disso.
— Que encantador da sua parte — ataquei com um corte na diagonal, mirando a junção entre o pescoço e o ombro esquerdo.
A lâmina de Apollo interceptou o meu golpe a tempo. A madeira bateu contra a madeira e o estalo espantou os pássaros das laranjeiras.
Aproveitando o impacto, avancei e pressionei o ombro contra o dele, forçando-o a recuar até perder o equilíbrio por um instante. Girei o quadril e desferi um golpe horizontal, cortando o ar à sua frente.
Apollo escapou por pouco ao saltar para trás. A ponta da minha espada passou a centímetros do seu abdômen, mas não lhe dei tempo para recuperar a postura. Parti para uma estocada, obrigando-o a erguer a lâmina para bloquear o ataque. No último instante, mudei o ângulo e deslizei a espada por baixo da defesa, levando a ponta até a garganta dele, sem chegar a encostar.
— Você realmente é uma guerreira… incrível [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;"> — disse ele, deixando os olhos descerem pelo meu corpo descaradamente.
Deixei meu sorriso ficar ainda mais malicioso.
— Você só tá enferrujado — dei de ombros — Quando se recuperar totalmente, acho que vou ter algum style="font-weight: 400;"> trabalho pra te vencer, mas espero que essa sua evolução seja o suficiente pra te manter vivo na nossa futura empreitada.
Dei uma piscadela e comecei a rir, porém, a diversão durou pouco. Quando Apollo soltou a espada de madeira, uma expressão estranha tomou o seu rosto.
Num movimento rápido, ele ergueu as mãos, fechando uma sobre meu punho e segurando a minha cintura com a outra. Antes que eu pudesse reagir, usou as pernas para me desequilibrar, girou nossos corpos e me fez bater as costas contra o tronco de uma árvore.
Presa entre a madeira e o corpo dele, sem conseguir me mexer, ergui o rosto e o encarei com desconfiança, tentando entender que merda ele estava pensando.
— Você… devia vir comigo... — murmurou ele — Você realmente precisa ficar aqui, aguentando toda essa gente que te odeia? O que te prende a esse lugar?
— Não tô planejando sair por aí numa cruzada divina, Apollo — ajeitei o corpo, tentando escapar — Mas… não vou mentir que se essa criança realmente pode curar qualquer doença, eu quero encontrá-la por causa da Nina, do irmão da Mia e… do seu irmão.
— O irmão da Mia? — Ele franziu a testa — Eu não sabia que ela tinha um irmão.
— Aparentemente, somos uma família bem disfuncional mesmo. Todo mundo tentando encontrar uma cura pros próprios irmãos.
— Então... ele também...
A expressão de Apollo mudou e aquilo bastou para eu entender o que tinha passado pela cabeça dele. Não era exatamente uma coincidência agradável, mas talvez fosse justamente por isso que Serena tinha nos reunido.
— Ela não te contou? — ergui uma sobrancelha — Você sabe como é a Mia, talvez, ela não quisesse te preocupar, sem contar que é meio doloroso para uma criança pensar nisso, não é? Infelizmente, o garoto foi capturado pelos inquisidores e ela só aceitou vir pra cá, porque prometi que ia encontrar ele de todo jeito.
— Pra alguém que vive dizendo que é mesquinha... você ajuda muita gente — disse Apollo, me fitando profundamente.
— Fala baixo — revirei os olhos — Tenho uma reputação a manter.
— Eu posso ajudar! Podemos fazer isso juntos.
— Não se preocupa com isso, você logo vai embora… não é?
A distância entre nós era quase inexistente. A mão que segurava meu punho apertou de leve e um tremor escapou dele, fazendo-me pensar que, talvez, ele não quisesse ir embora. Eu devia dizer alguma coisa? Pedir para ele ficar? Só que, se fizesse isso, o que estaria pedindo de verdade? Que ficasse por mim? Não...
Não era justo pressionar ele ou colocá-lo para escolher entre nós e o irmão dele, muito menos fingir que a jornada que o trouxe até ali tinha deixado de ser importante.
Os olhos esmeraldas dele pareciam brilhar e o meu olhar desceu até os seus lábios e demorou mais do que deveria. Mordi os meus, sem conseguir desviar os olhos, presa naquele pequeno espaço entre nós. Estávamos perto demais para fingir que eu não pensava naquilo e longe o bastante para ainda poder recuar.
Bastava inclinar o rosto. Então, por que eu não fazia isso? Talvez, porque, no instante em que fizesse, não daria mais para fingir que aquilo era só uma atração momentânea.
— E se… tivesse um jeito de resolver tudo isso sem eu precisar ir embora e nem você ter que deixar esse lugar? — perguntou Apollo.
Levantei a cabeça de repente, sentindo o coração bater um pouco mais devagar. Por um instante, o mundo girou, mas a sensação logo passou, deixando no lugar uma estranha leveza, quase boa.
— Existe... — sussurrando, engoli em seco — Uma forma?
— Sim. É possível, mas...
O som da porteira rangendo me fez erguer a mão e interromper a fala dele, pousando um dedo sobre seus lábios. Péssima hora pra alguém chegar. Respirei fundo e encarei os olhos de Apollo.
— A gente conversa sobre isso depois, tá? — murmurei, soltando o punho da mão dele e aproveitando para me afastar, enquanto ajeitava a roupa — Acho que o caixeiro-viajante chegou!