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CAPÍTULO 2 - O MORIBUNDO

“A voz do anjo sussurrou no meu ouvido, eu não duvido, já escuto os teus sinais -
Alceu Valença, Anunciação”
Trilha Sonora do Capítulo
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— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina? — eu repeti.

Não ouvi nenhum barulho vindo de dentro da casa, então deixei a bolsa [Conteúdo protegido por direitos autorais] sobre a mesa da cozinha e atravessei a sala, livrando-me da roupa encharcada de suor.

No quarto, acendi a lamparina sobre a mesa de canto e o espelho acima da bacia devolveu um rosto vermelho pelo calor. Minha pele, que já tinha um tom moreno, parecia ainda mais escura depois de tanto [Conteúdo protegido por direitos autorais] tempo sob o sol. O cabelo continuava assanhado, com alguns fios grudados nas têmporas e, embora ainda mantivesse parte das ondas naturais, não havia água nem dedos que dessem jeito nele, então acabei prendendo tudo em um coque frouxo.

Desviei os olhos do espelho e lavei o rosto, a nuca e os ombros com a água da bacia, só o suficiente para aliviar o calor. Troquei de roupa e, já com a camisa e a [Conteúdo protegido por direitos autorais] calça folgada de sempre, percebi que a casa continuava silenciosa demais. Nina nunca foi uma pessoa quieta, sempre fazia algum barulho, nem que fosse o arrastar das sandálias ou os gritinhos quando lia alguma de suas histórias de romance.

Aquilo me fez franzir o cenho. Fui até o quarto dela e encontrei a porta aberta, mas não havia ninguém lá dentro. A cama estava arrumada e, sobre a escrivaninha de madeira, uma toalha [Conteúdo protegido por direitos autorais] de crochê ainda estava pela metade, com a agulha presa no desenho que lembrava uma flor. Eu adorava aquele traçado, embora, olhando bem, ele não parecesse exatamente uma flor... estava mais para um polvo com raiva.

O resto do quarto tinha pouca coisa além de uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] escrivaninha, de um pequeno guarda-roupa de madeira e de uma cama de alvenaria.

— Nina! Se você estiver aprontando alguma coisa… — disse eu, um [Conteúdo protegido por direitos autorais] pouco irritada — Aparece logo, porque eu tô cansada demais pra ficar te procurando.

Porém, mais uma vez, não escutei nada, nem mesmo o menor sinal da respiração ofegante dela. Saí do quarto e segui até o quarto do [Conteúdo protegido por direitos autorais] meu pai, onde tinha deixado o homem desconhecido. Empurrei a porta e, assim que olhei para dentro, ele continuava exatamente onde eu o havia deixado ontem, ainda dormindo.

Fiz uma careta, mas eu sabia no fundo que a desconfiança era infundada. Não teria como ele ter feito nada, principalmente com os ferimentos que tinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] na barriga. Ainda assim, aqueles membros longos e músculos bem desenvolvidos, davam a ele um ar de guerreiro que me faziam pensar se ele carregava Sangue Rubro nas veias.

Todos os povos que carregavam o sangue amaldiçoado tinham alguma coisa em comum. Feiticeiras tinham olhos âmbar, encantados tinham [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhos esmeraldas e vampiros, rubis. O problema era que ele não tinha aberto os olhos nenhuma vez desde que o encontrei.

Se fosse vampiro, os ferimentos já teriam começado a fechar, porque o Sangue Rubro lhes dava força, velocidade e uma capacidade absurda de cura. Feiticeiras estavam fora de questão, [Conteúdo protegido por direitos autorais] até porque só mulheres tinham a capacidade de se transformar em aves. Restavam os encantados, mas o que um deles estaria fazendo longe da floresta, jogado no meio da estrada?

E mesmo se ele fosse um encantado não teria se recuperado tão rápido a ponto de [Conteúdo protegido por direitos autorais] conseguir fazer mal à minha irmã. Bufei fechando a porta devagar e segui até os fundos da casa.

— Nina?! — gritei ao [Conteúdo protegido por direitos autorais] abrir a porta que dava para o quintal.

— Aqui! — ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] respondeu, aos gritos, mesmo que fraco.

Agucei minha audição e a respiração dela vinha do velho balanço de madeira que meu [Conteúdo protegido por direitos autorais] pai havia construído para ela. Corri até lá e encontrei Nina sentada, balançando as pernas curtas no ar. 

Nina e eu não podíamos ser mais diferentes. Eu era alta, de curvas marcantes e cintura bem definida, já ela era baixa e delicada. Meu cabelo castanho caía muito abaixo dos ombros, o dela era loiro [Conteúdo protegido por direitos autorais] e mal passava deles. Até nossos rostos eram opostos, enquanto o meu era mais alongado e definido com sobrancelhas marcadas, o dela era redondo e suave com bochechas cheias, lábios carnudos e uma pintinha chamativa acima do lábio.

Já fazia quase dois anos desde que a doença escamosa havia se manifestado e o vestido simples de algodão estampado estava cada vez mais sobrando em seu corpo. A [Conteúdo protegido por direitos autorais] pele branca estava quase translúcida com as veias bem saltadas, mas, assim que me viu, abriu aquele sorriso familiar que sempre fazia seus olhos brilharem e as bochechas corarem um pouquinho.

— Pelo amor de Za... — parei, ofegante — Você [Conteúdo protegido por direitos autorais] me deu um susto, sua maluca! O que você tá fazendo aqui?

As olheiras estavam mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] fundas e os lábios mal tinham cor.

— Desculpa, mana... — disse ela, baixinho — Eu só vim tomar um [Conteúdo protegido por direitos autorais] ar. Ficar o dia inteiro presa em casa, às vezes, é... sei lá. Me sufoca.

— E você tá aqui há quanto tempo? — me aproximei, [Conteúdo protegido por direitos autorais] verificando a temperatura na testa dela — Pelo menos esperou o sol se pôr?

— Eu não sou criança, Luna. Eu sei me cuidar... — Nina parou [Conteúdo protegido por direitos autorais] de balançar e tentou se levantar, mas vacilou — Eu só precisava… respirar um pouco.

A segurei antes [Conteúdo protegido por direitos autorais] que caísse de cara no chão.

— Eu tô bem. Foi só... [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma tontura — disse ela, ofegante, segurando meu ombro.

— Tá bem Nina, mas quando foi a [Conteúdo protegido por direitos autorais] última vez que você comeu? — perguntei, com o coração acelerado.

— No almoço — Nina fez uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] careta — Eu tentei comer, mas... tava muito enjoada.

Passei o braço em volta dela e Nina logo se apoiou em mim, com a cabeça no meu ombro. A cidade lá embaixo já estava iluminada pelos lampiões e pelas lâmpadas de vapor e de cima do morro, as luzes pareciam estrelas [Conteúdo protegido por direitos autorais] espalhadas pelo chão. Olhando a vista, eu entendia por que Nina gostava tanto daquele lugar, além de ser bonito, também era um dos poucos cantos onde ela conseguia olhar para a cidade sem ter a cidade inteira olhando de volta para ela com olhares preconceituosos.

— Vem, vou fazer alguma coisa pra você comer — disse, ajudando-a a [Conteúdo protegido por direitos autorais] caminhar — Você sempre amou o meu creme de frango e eu trouxe uma surpresa... 

— Puxa-puxa? — perguntou Nina e eu quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] pude ouvir o sorriso na voz — Você trouxe mesmo?

— Trouxe.

— Obrigada, mana... — Ela se apoiou ainda mais em [Conteúdo protegido por direitos autorais] mim por alguns passos, até perguntar: — E o serviço? Como foi?

— Deu tudo certo — respondi, satisfeita — Um deles tinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] o sangue compatível e agora dá pra gente ficar tranquila pelas próximas semanas.

Apesar de nunca reclamar, eu sabia que ela não se sentia confortável com o jeito que eu conseguia o ingrediente [Conteúdo protegido por direitos autorais] da medicação. Entramos na cozinha e ajudei Nina a se sentar na cadeira em frente à mesa de madeira no centro do cômodo.

Sorri para ela e ajeitei o xale sobre seus ombros, sentindo a [Conteúdo protegido por direitos autorais] preocupação diminuir um pouco, à medida que eu andava em direção ao fogão a lenha.

— Aquele idiota no quarto do painho [Conteúdo protegido por direitos autorais] acordou alguma vez? — perguntei, olhando por cima do ombro.

— Não, mas... — Nina [Conteúdo protegido por direitos autorais] hesitou — Ele falou uma coisa estranha.

Retirei o frango [Conteúdo protegido por direitos autorais] do refrigerador e comecei a picá-lo.

— O quê?

— Ele sussurrou.. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Carcará Fantasma.

Minha mão [Conteúdo protegido por direitos autorais] parou no meio do corte.

— Tem certeza [Conteúdo protegido por direitos autorais] que foi isso que ele disse?

— Você ainda vai dizer que foi [Conteúdo protegido por direitos autorais] coincidência? — Nina perguntou, com a empolgação evidente na voz.

— Nina… — [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhei por cima do ombro.

— Ué... — Ela deu de ombros [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Você sabe exatamente o que a Lady Serena falou.

— Não é porque ele tava jogado no meio do nada que significa que ele seja a pessoa que ela mandou que eu salvasse — [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu disse, estalando a língua — E você sabe muito bem como são essas mensagens dos deuses. Nem sempre um sonho quer dizer exatamente o que parece…

— Tá... mas... — Nina ajeitou o xale [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Você encontrou mais alguém sozinho, precisando da sua ajuda?

— Encontrei um grupo de mulheres sequestradas pelos [Conteúdo protegido por direitos autorais] aluados — disse eu — Podem muito bem ser elas.

Nina ficou [Conteúdo protegido por direitos autorais] quieta por alguns segundos.

— Então... por [Conteúdo protegido por direitos autorais] que você ainda tá cuidando dele?

— Porque eu também não sou uma pessoa sem coração que salva alguém e depois larga [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele ao léu, Nina — mordi o canto da boca e voltei a cortar a cenoura e a cebola.

— Sei… — ela fez uma pausa e quando olhei por cima do ombro, vi aquela expressão arteira no [Conteúdo protegido por direitos autorais] rosto dela que já dizia tudo — Pra mim, você só salvou ele porque é um bonitão e... combina com você.

Deixei escapar uma exclamação irônica [Conteúdo protegido por direitos autorais] e voltei a atenção para a faca.

— Nina, o rosto dele tá todo machucado e cheio de sangue, como é que eu poderia saber que ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] é… — Hesitei e me virei de leve para ela, estreitando os olhos — A propósito, como você sabe que ele é bonito?

— Eu limpei [Conteúdo protegido por direitos autorais] o rosto dele hoje de manhã.

— Você fez o [Conteúdo protegido por direitos autorais] quê? — perguntei, com um suspiro.

— Eu tava curiosa pra saber se ele servia pra ser meu cunhado... — Nina soltou uma risadinha — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Então, dei uma limpadinha no rosto dele e olha… não é por nada, mas acho que você devia casar com ele.

— Nina...

— Ué... você salvou a vida dele — Nina disse, com uma inocência que não enganaria nem [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma criança — O mínimo que ele pode fazer é… agradecer conforme os costumes de um bom membro da realeza.

— E por que você acha [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ele é da realeza? — arqueei uma sobrancelha.

— Bonito daquele jeito… — Ela fez uma pausa se abanando [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Se não for o próprio príncipe dos encantados, deve ser alguém importante.

— Você tá animadinha demais pra o meu gosto — eu disse e voltei para o frango [Conteúdo protegido por direitos autorais] — E por que eu me casaria com um sujeito que, com toda certeza, não tem nem onde cair morto?

— Eu só acho que... — pelo tom, dava para ouvir o sorriso na voz dela — Você podia dar uma chance. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Vai que a deusa Serena mandou um príncipe encantado pra você... No mínimo, eu poderia ver uma história de amor acontecendo bem na minha frente.

— Para de sonhar acordada, Nina — encolhi os ombros — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Mas eu realmente espero que ele seja um nobre ou, no mínimo… alguém rico.

— Pra quê?

— Porque, depois de tudo isso, ele vai ter [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ter dinheiro pra pagar as despesas que tá dando pra gente.

— Você vai mesmo extorquir o meu [Conteúdo protegido por direitos autorais] futuro cunhado? — O sarcasmo estava claro na voz dela.

— Não — balancei a cabeça — Eu só vou cobrar as despesas de um moribundo [Conteúdo protegido por direitos autorais] que está na cama de painho. Tudo tem um custo, não tem? Essa é a lei da deusa Zara.

— Ai ai irmã... é por isso que você tá solteira — Nina [Conteúdo protegido por direitos autorais] suspirou e pelo tom reconheci o suspiro teatral, daqueles que ela usava para chamar minha atenção.

— Nina, eu sou assim e não vou mudar por ninguém. Quem não gosta de como sou que… vá atrás [Conteúdo protegido por direitos autorais] de uma princesinha da capital — fiz um pequeno gesto de desdém com a faca na mão e coloquei as verduras na panela.

Nina respirou fundo outra vez, só que dessa vez o suspiro não tinha nada de teatral, então deixei que recuperasse o fôlego. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Fui buscar algumas lenhas do lado de fora, coloquei no fogão e acendi o fogo, esperando as chamas pegarem antes de tampar a panela.

— Você tomou sua medicação? — perguntei e quando [Conteúdo protegido por direitos autorais] me virei, vi Nina abrir e fechar os olhos, claramente exausta.

— Essa última tava muito azeda, Luna — Nina [Conteúdo protegido por direitos autorais] respondeu — Eu me sinto uma vampira tomando remédio feito de cérebro.

Me afastei da [Conteúdo protegido por direitos autorais] bancada e encarei Nina diretamente.

— As vampiras que eu conheço não são charmosas, lindas, meigas e irritantes que nem você, irmã... — [Conteúdo protegido por direitos autorais] disse — Mas, prometo que da próxima vez, eu tento colocar camomila, mel ou qualquer coisa pra tirar esse gosto.

Nina se animou.

— Obrigada, irmã — Ela passou os dedos pelo braço, onde uma marca vermelha [Conteúdo protegido por direitos autorais] e escamosa estava visível — Você acha que... a gente vai conseguir curar isso algum dia?

Me aproximei, enquanto pegava uma caixa de remédios embaixo da mesa e segurei o braço dela para olhar a marca de perto. A ferida não estava tão feia quanto semanas atrás, mas a pele ainda estava áspera e escamada. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Passei o polegar de leve pela borda da ferida e senti a pele quente sob meus dedos, mas não havia sinal dos vasos estarem se rompendo outra vez. Felizmente, era só uma ferida da breve exposição ao sol durante a crise.

Pelo menos o Sangue Rubro ainda estava sob controle. Peguei um [Conteúdo protegido por direitos autorais] vidro de pomada na caixa, espalhei o unguento e cobri a ferida com delicadeza.

— Nina... — sussurrei, com um nó na garganta — Eu vou dar um jeito nisso, você vai [Conteúdo protegido por direitos autorais] ver. É só continuar tomando os remédios direitinho e não ficar tempo demais no sol... A gente vai ficar bem.

— Luna… — ela sussurrou quase [Conteúdo protegido por direitos autorais] sem força — Me desculpa por ser assim…

Mordi o lábio quando a cicatriz nas minhas costas voltou a doer. Droga... eu odiava como aquela cicatriz sempre me levava [Conteúdo protegido por direitos autorais] de volta aos malditos inquisidores e àquela noite. Era difícil esquecer o olhar de painho enquanto me pedia, pela última vez, que cuidasse de Nina.

— Nina… nunca mais me peça desculpas. Somos irmãs, não somos? Além disso, tudo só começou porque aqueles [Conteúdo protegido por direitos autorais] malditos nobres tentaram nos usar… — Levantei a cabeça e sorri para ela — Eu vou encontrar uma cura, tá?

Nina assentiu e [Conteúdo protegido por direitos autorais] tocou a ferida outra vez.

— Agora vem cá — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina disse e me puxou para um abraço. 

Me aconcheguei nela e segurei a vontade de chorar durante o abraço. Eu sabia que seria difícil encontrar uma cura, mas isso não queria dizer [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ela não existisse. Se fosse preciso, eu seria capaz de falar com a própria deusa Zara e negociar o que ela quisesse, desde que curasse Nina.

— Tá… tá. Agora… deixa eu terminar esse creme de frango antes [Conteúdo protegido por direitos autorais] que a gente desmaie de fome — disse eu pigarreando, à medida que me levantava.

Depois de pronto, servi em uma cumbuca e coloquei na frente de Nina. Sentei-me à sua frente para observá-la comer devagar e como [Conteúdo protegido por direitos autorais] sempre, o esforço de se alimentar foi deixando seus movimentos mais lentos, até que ela quase pegou no sono com a comida ainda na boca.

— Vamos, Nina — levantei quando ela começou [Conteúdo protegido por direitos autorais] a pender para trás — Já tá na hora de dormir.

— Mas eu queria ver a lua só mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] um pouquinho... — disse ela, já meio adormecida nos meus braços.

— Amanhã ela tá aí [Conteúdo protegido por direitos autorais] de novo, assim como as luzes da cidade.

Levei Nina para o quarto e cobri ela até o queixo como fazia quando éramos crianças. Fiquei ali por alguns minutos, observando-a se remexer durante o sono, toda encolhida e fazendo careta. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Ela podia se fingir de forte, mas eu sabia o quanto estava sofrendo e quando finalmente saí do quarto, o cansaço que eu vinha segurando o dia inteiro caiu sobre mim de uma vez.

Tudo que eu queria naquele instante era minha cama, embora ainda precisasse comer. Ao passar [Conteúdo protegido por direitos autorais] pela porta do quarto de painho, escutei o homem sussurrando e a curiosidade acabou vencendo o bom senso. 

Entrei só o bastante para conseguir enxergá-lo melhor e o rosto que eu não tinha me dado ao trabalho de limpar agora estava livre da sujeira, revelando cabelos curtos e [Conteúdo protegido por direitos autorais] escuros, traços angulosos, um maxilar bem marcado e nenhum pelo no rosto. A pele morena-clara carregava um corte na testa que descia até a base do olho e, de perto, Nina tinha razão. 

Só que, dessa vez, a minha irmã ainda tinha ficado longe de fazer justiça ao [Conteúdo protegido por direitos autorais] homem, porque bonito era quase um eufemismo. Quando ele voltou a sussurrar, aproximei o ouvido da boca dele.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] O quê? — perguntei.

— O que [Conteúdo protegido por direitos autorais] você está fazendo... — disse ele.

Afastei-me num susto e ergui as mãos, pronta para me defender, mas ele mal conseguia [Conteúdo protegido por direitos autorais] levantar a cabeça do colchão. Do jeito que estava, não parecia capaz nem de ficar em pé.

— Estava vendo se eu poderia ou não jogar [Conteúdo protegido por direitos autorais] seu corpo fora — eu disse, dando um passo para trás.

Ele apoiou uma das mãos no colchão e, mesmo com [Conteúdo protegido por direitos autorais] o breu, vi-o fazer uma careta ao forçar o corpo para cima.

— Onde eu estou? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntou ele, sentando-se na beirada da cama.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Na minha casa.

Meus olhos percorreram o quarto, embora não houvesse muito para olhar. Era pequeno, [Conteúdo protegido por direitos autorais] apertado o bastante para caber apenas a cama de casal e duas mesinhas de canto.

— E... quem [Conteúdo protegido por direitos autorais] é você? — ele perguntou.

— A pergunta certa seria quem é você? Eu te vi jogado na estrada e… — Peguei a caneca de alumínio na mesinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] de canto, enchi de água e ofereci a ele — Inicialmente eu só ia te deixar lá, mas… resolvi te salvar com a esperança de receber uma boa recompensa.

Ao aceitar o copo, os olhos esmeraldas dele se cravaram em mim. O jeito como me olhava parecia quase um [Conteúdo protegido por direitos autorais] julgamento, mas foda-se. Afinal, eu tinha salvado a vida dele, então ele me devia, nem que fosse… gratidão.

— Você me salvou apenas por [Conteúdo protegido por direitos autorais] dinheiro? — perguntou após beber um gole e tossir.

— Bem... sim — respondi, relaxando [Conteúdo protegido por direitos autorais] os ombros — O que aconteceu com você?

— Fui atacado por cangaceiros... vampiros — [Conteúdo protegido por direitos autorais] a expressão dele ficou carrancuda — Um bando bastante numeroso.

Estreitei os olhos, porque nunca tinha ouvido falar de um bando desses pelas redondezas, então era [Conteúdo protegido por direitos autorais] melhor ficar de olho antes que resolvessem aparecer de novo. Pelo menos isso explicava boa parte dos ferimentos dele.

— Então… — eu disse — Devo presumir que levaram [Conteúdo protegido por direitos autorais] tudo o que você tinha e você é… um pobretão como eu?

— Sim… — ele hesitou — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Quando você me resgatou não encontrou nenhuma espada comigo?

Balancei a cabeça. No escuro, talvez ele nem enxergasse o gesto, mas pareceu [Conteúdo protegido por direitos autorais] que sim, porque bufou baixinho e levou a mão ao lado do corpo, soltando outro gemido. 

— Se deseja apenas dinheiro, diga seu preço — disse ele, erguendo [Conteúdo protegido por direitos autorais] a cabeça e olhando o quarto — Mas por que estou em um… calabouço?

— Isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] não é um calabouço!

— Então por [Conteúdo protegido por direitos autorais] que está tudo tão escuro?

Olhei [Conteúdo protegido por direitos autorais] para as janelas fechadas.

— Você estava machucado, quase morrendo — dei de ombros — Se [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu deixasse as janelas abertas, algum monstro poderia entrar e atacar você pelo cheiro.

Ele ficou quieto [Conteúdo protegido por direitos autorais] por um tempo, me olhando.

— Então [Conteúdo protegido por direitos autorais] estamos perto da floresta?

Assenti.

— Estamos [Conteúdo protegido por direitos autorais] muito longe de alguma cidade?

— Estamos perto da [Conteúdo protegido por direitos autorais] Vila Nova da Imperatriz... — disse eu.

— Graças à Deusa Zara... — [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele pareceu relaxar — Pelo menos cheguei até aqui.

Arqueei uma sobrancelha.

— O [Conteúdo protegido por direitos autorais] que você veio fazer aqui?

— Estou [Conteúdo protegido por direitos autorais] numa missão da Lady Serena.

— Por que a deusa mandaria um novo encantado pra cá? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — perguntei, sem esconder a desconfiança — A cumadre tá precisando de ajuda?

— Na verdade... não vim para assumir esta [Conteúdo protegido por direitos autorais] região — ele respirou fundo — Vim procurar uma pessoa.

Me sentei ao lado dele, na beirada da cama. Talvez Nina tivesse razão… o jeito [Conteúdo protegido por direitos autorais] de falar dele era refinado demais, muito diferente do que eu estava acostumada a ouvir na região.

— E o que, exatamente, a deusa mandou [Conteúdo protegido por direitos autorais] você fazer? — perguntei, sem conseguir esconder a curiosidade na voz.

— Procurar uma pessoa chamada… Carcará Fantasma [Conteúdo protegido por direitos autorais] style="font-weight: 400;"> — ele disse, ajeitando a postura — Você o conhece?

Soltei uma risada curta, quase um engasgo, sem [Conteúdo protegido por direitos autorais] acreditar que ele realmente achava que eu era um homem.

— Dizem que é um mercenário, assassino, um monstro, alguém dissimulado, manipulador, ganancioso... — contei nos dedos todos os adjetivos que já me chamaram — Mas… [Conteúdo protegido por direitos autorais] por que a Lady Serena mandaria você procurar justamente ele? Até os encantados daqui evitam se meter com o Carcará.

O desconhecido olhou para o teto e, sem pestanejar, olhei também, mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] só vi o escuro e alguns filetes do luar passando pelas frestas do telhado.

— Preciso da ajuda dele para encontrar [Conteúdo protegido por direitos autorais] o Primeiro Milagre — disse ele.

— Você só pode tá [Conteúdo protegido por direitos autorais] de sacanagem... — pisquei e uni as sobrancelhas.

— Você já ouviu falar dos [Conteúdo protegido por direitos autorais] style="font-weight: 400;">milagres? — ele disse parecendo esperançoso.

— Quem não conhece essa história? — me ajeitei na cama — Já se passaram o quê… setecentos anos [Conteúdo protegido por direitos autorais] desde a Grande Sede e até hoje ninguém sabe ao certo o que são esses tais milagres.

— Isso é verdade, mas... parece que, finalmente, temos uma pista — ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] baixou os olhos — E é por isso que preciso da ajuda do Carcará Fantasma.

Mordi o lábio. Justo eu tinha que acabar metida em alguma merda de [Conteúdo protegido por direitos autorais] destino, caçada ou busca divina? Como se eu já não tivesse coisa mais importante para fazer.

— E o que exatamente a oráculo do seu povo viu? — perguntei, suspirando — Quer [Conteúdo protegido por direitos autorais] saber? — fiz uma careta me levantando — Deixa pra lá. Não quero saber... não quero me envolver nisso.

Dei dois passos em direção à porta, mas ele segurou a minha [Conteúdo protegido por direitos autorais] mão. O aperto era fraco, mas me surpreendeu pela força para alguém naquele estado.

— Você [Conteúdo protegido por direitos autorais] o conhece? — ele sussurrou.

— Não — disse de forma ríspida — E ninguém em sã consciência deveria ir atrás dele.. Ele é… avarento, [Conteúdo protegido por direitos autorais] mesquinho e não move um dedo se não tiver alguma coisa a ganhar. Se der trabalho, pode esquecer, ele nunca vai ajudar.

— Você parece conhecê-lo bem... — disse ele — Se me ajudar [Conteúdo protegido por direitos autorais] a encontrá-lo, prometo pagar uma boa quantia e eu também... ficarei em dívida com você.

— Você já tá em dívida comigo para deixar claro, mas… o que exatamente isso quer [Conteúdo protegido por direitos autorais] dizer? — disse eu, virando-me para ele — Você por acaso é o príncipe dos encantados? — debochei.

— Não... eu... [Conteúdo protegido por direitos autorais] — ele soltou outro gemido.

O corpo dele pendeu para frente e eu mal consegui segurá-lo antes que desabasse. Quando [Conteúdo protegido por direitos autorais] tentei me afastar, sua mão fechou em meu pulso e o calor da pele dele denunciava a febre.

— Eu posso lhe pagar... — ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] sussurrou — Tudo que você quiser.

— E o que exatamente [Conteúdo protegido por direitos autorais] você e a deusa querem do Carcará?

— A deusa... disse que o Primeiro Milagre [Conteúdo protegido por direitos autorais] é... — ele se ajeitou na cama — Uma criança.

Depois de um tempo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele soltou o meu pulso com cuidado. 

Que merda a Serena estava querendo? Eu tinha mesmo que encontrar uma criança? Quanto mais ele falava, mais aquela história ficava estranha. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Observei-o por mais alguns segundos, com o cenho franzido. Antes de decidir qualquer coisa, eu precisava entender melhor quem eu tinha deixado entrar na minha casa.

— Tá, eu já entendi que essa sua missão é importante — eu disse, tentando parecer menos irritada — Mas, [Conteúdo protegido por direitos autorais] sem querer ofender… você tá quase morto. Não vai conseguir ir pra canto nenhum até essa ferida cicatrizar direito.

— Eu sei... — ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] apertou os lábios — Mas... por favor.

Que saco... por que eu não simplesmente chutava ele de volta para [Conteúdo protegido por direitos autorais] a árvore de onde tinha saído? Eu só podia estar ficando maluca.

— Dorme um pouco e amanhã… a gente conversa melhor depois que eu examinar a sua ferida — eu disse, forçando um sorriso — Não quero que [Conteúdo protegido por direitos autorais] você morra antes de me pagar. Daí se você estiver ainda respirando… a gente resolve essa história do Carcará Fantasma e dessa tal… criança destinada.

Ele assentiu.

— Eu também preciso recuperar minha espada [Conteúdo protegido por direitos autorais] — disse ele — Ela é… importante para a missão.

Estreitei os olhos.

— Podemos procurar em algum mercado de armas clandestino. Os cangaceiros costumam largar as armas que roubam quando não servem mais pra atacar as vilas [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Bati de leve em seu ombro — Vou perguntar por aí… Tenho uns conhecidos que podem saber de alguma coisa, mas colocarei na sua conta as despesas.

Ele assentiu [Conteúdo protegido por direitos autorais] de leve, quase sorrindo.

— Qual [Conteúdo protegido por direitos autorais] é o seu nome?

— Vai mesmo perguntar o nome de uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] donzela sem nem dizer o seu primeiro? — pisquei para ele.

Ele pareceu [Conteúdo protegido por direitos autorais] hesitar por um instante.

— Perdoe-me. [Conteúdo protegido por direitos autorais] O meu nome é Apollo.

— Sou Luna, mas… isso não vem ao caso agora — respondi, [Conteúdo protegido por direitos autorais] me sentando na cama de novo — Agora vai dormir antes que você desmaie.

Ele suavizou a expressão, mas logo começou a tossir. Mesmo pálido, suado e quase morto, continuava bonito e o jeito de franzir a testa ao tentar segurar a tosse era irritantemente [Conteúdo protegido por direitos autorais] charmoso. Ótimo. Era só o que me faltava, começar a agir como uma donzela em apuros, reparando na beleza de um homem ardendo em febre e coberto de feridas.

Cantarolei baixinho, deixando a melodia preencher o silêncio, enquanto ele fechava os olhos lentamente. Nina gostava daquela cantiga, uma bênção que Serena havia me ensinado para [Conteúdo protegido por direitos autorais] aliviar a dor e eu sempre agradecia à deusa por aquilo... embora, pensando bem, talvez fosse justamente o tipo de ajuda que vinha com cobrança de juros anos depois.

Mas não podia julgá-la... [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu fazia exatamente a mesma coisa.

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