— Nina? — eu repeti.
Não ouvi nenhum barulho vindo de dentro da casa, então deixei a bolsa sobre a mesa da cozinha e atravessei a sala, livrando-me da roupa encharcada de suor.
No quarto, acendi a lamparina sobre a mesa de canto e o espelho acima da bacia devolveu um rosto vermelho pelo calor. Minha pele, que já tinha um tom moreno, parecia ainda mais escura depois de tanto tempo sob o sol. O cabelo continuava assanhado, com alguns fios grudados nas têmporas e, embora ainda mantivesse parte das ondas naturais, não havia água nem dedos que dessem jeito nele, então acabei prendendo tudo em um coque frouxo.
Desviei os olhos do espelho e lavei o rosto, a nuca e os ombros com a água da bacia, só o suficiente para aliviar o calor. Troquei de roupa e, já com a camisa e a calça folgada de sempre, percebi que a casa continuava silenciosa demais. Nina nunca foi uma pessoa quieta, sempre fazia algum barulho, nem que fosse o arrastar das sandálias ou os gritinhos quando lia alguma de suas histórias de romance.
Aquilo me fez franzir o cenho. Fui até o quarto dela e encontrei a porta aberta, mas não havia ninguém lá dentro. A cama estava arrumada e, sobre a escrivaninha de madeira, uma toalha de crochê ainda estava pela metade, com a agulha presa no desenho que lembrava uma flor. Eu adorava aquele traçado, embora, olhando bem, ele não parecesse exatamente uma flor... estava mais para um polvo com raiva.
O resto do quarto tinha pouca coisa além de uma escrivaninha, de um pequeno guarda-roupa de madeira e de uma cama de alvenaria.
— Nina! Se você estiver aprontando alguma coisa… — disse eu, um pouco irritada — Aparece logo, porque eu tô cansada demais pra ficar te procurando.
Porém, mais uma vez, não escutei nada, nem mesmo o menor sinal da respiração ofegante dela. Saí do quarto e segui até o quarto do meu pai, onde tinha deixado o homem desconhecido. Empurrei a porta e, assim que olhei para dentro, ele continuava exatamente onde eu o havia deixado ontem, ainda dormindo.
Fiz uma careta, mas eu sabia no fundo que a desconfiança era infundada. Não teria como ele ter feito nada, principalmente com os ferimentos que tinha na barriga. Ainda assim, aqueles membros longos e músculos bem desenvolvidos, davam a ele um ar de guerreiro que me faziam pensar se ele carregava Sangue Rubro nas veias.
Todos os povos que carregavam o sangue amaldiçoado tinham alguma coisa em comum. Feiticeiras tinham olhos âmbar, encantados tinham olhos esmeraldas e vampiros, rubis. O problema era que ele não tinha aberto os olhos nenhuma vez desde que o encontrei.
Se fosse vampiro, os ferimentos já teriam começado a fechar, porque o Sangue Rubro lhes dava força, velocidade e uma capacidade absurda de cura. Feiticeiras estavam fora de questão, até porque só mulheres tinham a capacidade de se transformar em aves. Restavam os encantados, mas o que um deles estaria fazendo longe da floresta, jogado no meio da estrada?
E mesmo se ele fosse um encantado não teria se recuperado tão rápido a ponto de conseguir fazer mal à minha irmã. Bufei fechando a porta devagar e segui até os fundos da casa.
— Nina?! — gritei ao abrir a porta que dava para o quintal.
— Aqui! — ela respondeu, aos gritos, mesmo que fraco.
Agucei minha audição e a respiração dela vinha do velho balanço de madeira que meu pai havia construído para ela. Corri até lá e encontrei Nina sentada, balançando as pernas curtas no ar.
Nina e eu não podíamos ser mais diferentes. Eu era alta, de curvas marcantes e cintura bem definida, já ela era baixa e delicada. Meu cabelo castanho caía muito abaixo dos ombros, o dela era loiro e mal passava deles. Até nossos rostos eram opostos, enquanto o meu era mais alongado e definido com sobrancelhas marcadas, o dela era redondo e suave com bochechas cheias, lábios carnudos e uma pintinha chamativa acima do lábio.
Já fazia quase dois anos desde que a doença escamosa havia se manifestado e o vestido simples de algodão estampado estava cada vez mais sobrando em seu corpo. A pele branca estava quase translúcida com as veias bem saltadas, mas, assim que me viu, abriu aquele sorriso familiar que sempre fazia seus olhos brilharem e as bochechas corarem um pouquinho.
— Pelo amor de Za... — parei, ofegante — Você me deu um susto, sua maluca! O que você tá fazendo aqui?
As olheiras estavam mais fundas e os lábios mal tinham cor.
— Desculpa, mana... — disse ela, baixinho — Eu só vim tomar um ar. Ficar o dia inteiro presa em casa, às vezes, é... sei lá. Me sufoca.
— E você tá aqui há quanto tempo? — me aproximei, verificando a temperatura na testa dela — Pelo menos esperou o sol se pôr?
— Eu não sou criança, Luna. Eu sei me cuidar... — Nina parou de balançar e tentou se levantar, mas vacilou — Eu só precisava… respirar um pouco.
A segurei antes que caísse de cara no chão.
— Eu tô bem. Foi só... uma tontura — disse ela, ofegante, segurando meu ombro.
— Tá bem Nina, mas quando foi a última vez que você comeu? — perguntei, com o coração acelerado.
— No almoço — Nina fez uma careta — Eu tentei comer, mas... tava muito enjoada.
Passei o braço em volta dela e Nina logo se apoiou em mim, com a cabeça no meu ombro. A cidade lá embaixo já estava iluminada pelos lampiões e pelas lâmpadas de vapor e de cima do morro, as luzes pareciam estrelas espalhadas pelo chão. Olhando a vista, eu entendia por que Nina gostava tanto daquele lugar, além de ser bonito, também era um dos poucos cantos onde ela conseguia olhar para a cidade sem ter a cidade inteira olhando de volta para ela com olhares preconceituosos.
— Vem, vou fazer alguma coisa pra você comer — disse, ajudando-a a caminhar — Você sempre amou o meu creme de frango e eu trouxe uma surpresa...
— Puxa-puxa? — perguntou Nina e eu quase pude ouvir o sorriso na voz — Você trouxe mesmo?
— Trouxe.
— Obrigada, mana... — Ela se apoiou ainda mais em mim por alguns passos, até perguntar: — E o serviço? Como foi?
— Deu tudo certo — respondi, satisfeita — Um deles tinha o sangue compatível e agora dá pra gente ficar tranquila pelas próximas semanas.
Apesar de nunca reclamar, eu sabia que ela não se sentia confortável com o jeito que eu conseguia o ingrediente da medicação. Entramos na cozinha e ajudei Nina a se sentar na cadeira em frente à mesa de madeira no centro do cômodo.
Sorri para ela e ajeitei o xale sobre seus ombros, sentindo a preocupação diminuir um pouco, à medida que eu andava em direção ao fogão a lenha.
— Aquele idiota no quarto do painho acordou alguma vez? — perguntei, olhando por cima do ombro.
— Não, mas... — Nina hesitou — Ele falou uma coisa estranha.
Retirei o frango do refrigerador e comecei a picá-lo.
— O quê?
— Ele sussurrou.. Carcará Fantasma.
Minha mão parou no meio do corte.
— Tem certeza que foi isso que ele disse?
— Você ainda vai dizer que foi coincidência? — Nina perguntou, com a empolgação evidente na voz.
— Nina… — olhei por cima do ombro.
— Ué... — Ela deu de ombros — Você sabe exatamente o que a Lady Serena falou.
— Não é porque ele tava jogado no meio do nada que significa que ele seja a pessoa que ela mandou que eu salvasse — eu disse, estalando a língua — E você sabe muito bem como são essas mensagens dos deuses. Nem sempre um sonho quer dizer exatamente o que parece…
— Tá... mas... — Nina ajeitou o xale — Você encontrou mais alguém sozinho, precisando da sua ajuda?
— Encontrei um grupo de mulheres sequestradas pelos aluados — disse eu — Podem muito bem ser elas.
Nina ficou quieta por alguns segundos.
— Então... por que você ainda tá cuidando dele?
— Porque eu também não sou uma pessoa sem coração que salva alguém e depois larga ele ao léu, Nina — mordi o canto da boca e voltei a cortar a cenoura e a cebola.
— Sei… — ela fez uma pausa e quando olhei por cima do ombro, vi aquela expressão arteira no rosto dela que já dizia tudo — Pra mim, você só salvou ele porque é um bonitão e... combina com você.
Deixei escapar uma exclamação irônica e voltei a atenção para a faca.
— Nina, o rosto dele tá todo machucado e cheio de sangue, como é que eu poderia saber que ele é… — Hesitei e me virei de leve para ela, estreitando os olhos — A propósito, como você sabe que ele é bonito?
— Eu limpei o rosto dele hoje de manhã.
— Você fez o quê? — perguntei, com um suspiro.
— Eu tava curiosa pra saber se ele servia pra ser meu cunhado... — Nina soltou uma risadinha — Então, dei uma limpadinha no rosto dele e olha… não é por nada, mas acho que você devia casar com ele.
— Nina...
— Ué... você salvou a vida dele — Nina disse, com uma inocência que não enganaria nem uma criança — O mínimo que ele pode fazer é… agradecer conforme os costumes de um bom membro da realeza.
— E por que você acha que ele é da realeza? — arqueei uma sobrancelha.
— Bonito daquele jeito… — Ela fez uma pausa se abanando — Se não for o próprio príncipe dos encantados, deve ser alguém importante.
— Você tá animadinha demais pra o meu gosto — eu disse e voltei para o frango — E por que eu me casaria com um sujeito que, com toda certeza, não tem nem onde cair morto?
— Eu só acho que... — pelo tom, dava para ouvir o sorriso na voz dela — Você podia dar uma chance. Vai que a deusa Serena mandou um príncipe encantado pra você... No mínimo, eu poderia ver uma história de amor acontecendo bem na minha frente.
— Para de sonhar acordada, Nina — encolhi os ombros — Mas eu realmente espero que ele seja um nobre ou, no mínimo… alguém rico.
— Pra quê?
— Porque, depois de tudo isso, ele vai ter que ter dinheiro pra pagar as despesas que tá dando pra gente.
— Você vai mesmo extorquir o meu futuro cunhado? — O sarcasmo estava claro na voz dela.
— Não — balancei a cabeça — Eu só vou cobrar as despesas de um moribundo que está na cama de painho. Tudo tem um custo, não tem? Essa é a lei da deusa Zara.
— Ai ai irmã... é por isso que você tá solteira — Nina suspirou e pelo tom reconheci o suspiro teatral, daqueles que ela usava para chamar minha atenção.
— Nina, eu sou assim e não vou mudar por ninguém. Quem não gosta de como sou que… vá atrás de uma princesinha da capital — fiz um pequeno gesto de desdém com a faca na mão e coloquei as verduras na panela.
Nina respirou fundo outra vez, só que dessa vez o suspiro não tinha nada de teatral, então deixei que recuperasse o fôlego. Fui buscar algumas lenhas do lado de fora, coloquei no fogão e acendi o fogo, esperando as chamas pegarem antes de tampar a panela.
— Você tomou sua medicação? — perguntei e quando me virei, vi Nina abrir e fechar os olhos, claramente exausta.
— Essa última tava muito azeda, Luna — Nina respondeu — Eu me sinto uma vampira tomando remédio feito de cérebro.
Me afastei da bancada e encarei Nina diretamente.
— As vampiras que eu conheço não são charmosas, lindas, meigas e irritantes que nem você, irmã... — disse — Mas, prometo que da próxima vez, eu tento colocar camomila, mel ou qualquer coisa pra tirar esse gosto.
Nina se animou.
— Obrigada, irmã — Ela passou os dedos pelo braço, onde uma marca vermelha e escamosa estava visível — Você acha que... a gente vai conseguir curar isso algum dia?
Me aproximei, enquanto pegava uma caixa de remédios embaixo da mesa e segurei o braço dela para olhar a marca de perto. A ferida não estava tão feia quanto semanas atrás, mas a pele ainda estava áspera e escamada. Passei o polegar de leve pela borda da ferida e senti a pele quente sob meus dedos, mas não havia sinal dos vasos estarem se rompendo outra vez. Felizmente, era só uma ferida da breve exposição ao sol durante a crise.
Pelo menos o Sangue Rubro ainda estava sob controle. Peguei um vidro de pomada na caixa, espalhei o unguento e cobri a ferida com delicadeza.
— Nina... — sussurrei, com um nó na garganta — Eu vou dar um jeito nisso, você vai ver. É só continuar tomando os remédios direitinho e não ficar tempo demais no sol... A gente vai ficar bem.
— Luna… — ela sussurrou quase sem força — Me desculpa por ser assim…
Mordi o lábio quando a cicatriz nas minhas costas voltou a doer. Droga... eu odiava como aquela cicatriz sempre me levava de volta aos malditos inquisidores e àquela noite. Era difícil esquecer o olhar de painho enquanto me pedia, pela última vez, que cuidasse de Nina.
— Nina… nunca mais me peça desculpas. Somos irmãs, não somos? Além disso, tudo só começou porque aqueles malditos nobres tentaram nos usar… — Levantei a cabeça e sorri para ela — Eu vou encontrar uma cura, tá?
Nina assentiu e tocou a ferida outra vez.
— Agora vem cá — Nina disse e me puxou para um abraço.
Me aconcheguei nela e segurei a vontade de chorar durante o abraço. Eu sabia que seria difícil encontrar uma cura, mas isso não queria dizer que ela não existisse. Se fosse preciso, eu seria capaz de falar com a própria deusa Zara e negociar o que ela quisesse, desde que curasse Nina.
— Tá… tá. Agora… deixa eu terminar esse creme de frango antes que a gente desmaie de fome — disse eu pigarreando, à medida que me levantava.
Depois de pronto, servi em uma cumbuca e coloquei na frente de Nina. Sentei-me à sua frente para observá-la comer devagar e como sempre, o esforço de se alimentar foi deixando seus movimentos mais lentos, até que ela quase pegou no sono com a comida ainda na boca.
— Vamos, Nina — levantei quando ela começou a pender para trás — Já tá na hora de dormir.
— Mas eu queria ver a lua só mais um pouquinho... — disse ela, já meio adormecida nos meus braços.
— Amanhã ela tá aí de novo, assim como as luzes da cidade.
Levei Nina para o quarto e cobri ela até o queixo como fazia quando éramos crianças. Fiquei ali por alguns minutos, observando-a se remexer durante o sono, toda encolhida e fazendo careta. Ela podia se fingir de forte, mas eu sabia o quanto estava sofrendo e quando finalmente saí do quarto, o cansaço que eu vinha segurando o dia inteiro caiu sobre mim de uma vez.
Tudo que eu queria naquele instante era minha cama, embora ainda precisasse comer. Ao passar pela porta do quarto de painho, escutei o homem sussurrando e a curiosidade acabou vencendo o bom senso.
Entrei só o bastante para conseguir enxergá-lo melhor e o rosto que eu não tinha me dado ao trabalho de limpar agora estava livre da sujeira, revelando cabelos curtos e escuros, traços angulosos, um maxilar bem marcado e nenhum pelo no rosto. A pele morena-clara carregava um corte na testa que descia até a base do olho e, de perto, Nina tinha razão.
Só que, dessa vez, a minha irmã ainda tinha ficado longe de fazer justiça ao homem, porque bonito era quase um eufemismo. Quando ele voltou a sussurrar, aproximei o ouvido da boca dele.
— O quê? — perguntei.
— O que você está fazendo... — disse ele.
Afastei-me num susto e ergui as mãos, pronta para me defender, mas ele mal conseguia levantar a cabeça do colchão. Do jeito que estava, não parecia capaz nem de ficar em pé.
— Estava vendo se eu poderia ou não jogar seu corpo fora — eu disse, dando um passo para trás.
Ele apoiou uma das mãos no colchão e, mesmo com o breu, vi-o fazer uma careta ao forçar o corpo para cima.
— Onde eu estou? — perguntou ele, sentando-se na beirada da cama.
— Na minha casa.
Meus olhos percorreram o quarto, embora não houvesse muito para olhar. Era pequeno, apertado o bastante para caber apenas a cama de casal e duas mesinhas de canto.
— E... quem é você? — ele perguntou.
— A pergunta certa seria quem é você? Eu te vi jogado na estrada e… — Peguei a caneca de alumínio na mesinha de canto, enchi de água e ofereci a ele — Inicialmente eu só ia te deixar lá, mas… resolvi te salvar com a esperança de receber uma boa recompensa.
Ao aceitar o copo, os olhos esmeraldas dele se cravaram em mim. O jeito como me olhava parecia quase um julgamento, mas foda-se. Afinal, eu tinha salvado a vida dele, então ele me devia, nem que fosse… gratidão.
— Você me salvou apenas por dinheiro? — perguntou após beber um gole e tossir.
— Bem... sim — respondi, relaxando os ombros — O que aconteceu com você?
— Fui atacado por cangaceiros... vampiros — a expressão dele ficou carrancuda — Um bando bastante numeroso.
Estreitei os olhos, porque nunca tinha ouvido falar de um bando desses pelas redondezas, então era melhor ficar de olho antes que resolvessem aparecer de novo. Pelo menos isso explicava boa parte dos ferimentos dele.
— Então… — eu disse — Devo presumir que levaram tudo o que você tinha e você é… um pobretão como eu?
— Sim… — ele hesitou — Quando você me resgatou não encontrou nenhuma espada comigo?
Balancei a cabeça. No escuro, talvez ele nem enxergasse o gesto, mas pareceu que sim, porque bufou baixinho e levou a mão ao lado do corpo, soltando outro gemido.
— Se deseja apenas dinheiro, diga seu preço — disse ele, erguendo a cabeça e olhando o quarto — Mas por que estou em um… calabouço?
— Isso não é um calabouço!
— Então por que está tudo tão escuro?
Olhei para as janelas fechadas.
— Você estava machucado, quase morrendo — dei de ombros — Se eu deixasse as janelas abertas, algum monstro poderia entrar e atacar você pelo cheiro.
Ele ficou quieto por um tempo, me olhando.
— Então estamos perto da floresta?
Assenti.
— Estamos muito longe de alguma cidade?
— Estamos perto da Vila Nova da Imperatriz... — disse eu.
— Graças à Deusa Zara... — ele pareceu relaxar — Pelo menos cheguei até aqui.
Arqueei uma sobrancelha.
— O que você veio fazer aqui?
— Estou numa missão da Lady Serena.
— Por que a deusa mandaria um novo encantado pra cá? — perguntei, sem esconder a desconfiança — A cumadre tá precisando de ajuda?
— Na verdade... não vim para assumir esta região — ele respirou fundo — Vim procurar uma pessoa.
Me sentei ao lado dele, na beirada da cama. Talvez Nina tivesse razão… o jeito de falar dele era refinado demais, muito diferente do que eu estava acostumada a ouvir na região.
— E o que, exatamente, a deusa mandou você fazer? — perguntei, sem conseguir esconder a curiosidade na voz.
— Procurar uma pessoa chamada… Carcará Fantasma style="font-weight: 400;"> — ele disse, ajeitando a postura — Você o conhece?
Soltei uma risada curta, quase um engasgo, sem acreditar que ele realmente achava que eu era um homem.
— Dizem que é um mercenário, assassino, um monstro, alguém dissimulado, manipulador, ganancioso... — contei nos dedos todos os adjetivos que já me chamaram — Mas… por que a Lady Serena mandaria você procurar justamente ele? Até os encantados daqui evitam se meter com o Carcará.
O desconhecido olhou para o teto e, sem pestanejar, olhei também, mas só vi o escuro e alguns filetes do luar passando pelas frestas do telhado.
— Preciso da ajuda dele para encontrar o Primeiro Milagre — disse ele.
— Você só pode tá de sacanagem... — pisquei e uni as sobrancelhas.
— Você já ouviu falar dos style="font-weight: 400;">milagres? — ele disse parecendo esperançoso.
— Quem não conhece essa história? — me ajeitei na cama — Já se passaram o quê… setecentos anos desde a Grande Sede e até hoje ninguém sabe ao certo o que são esses tais milagres.
— Isso é verdade, mas... parece que, finalmente, temos uma pista — ele baixou os olhos — E é por isso que preciso da ajuda do Carcará Fantasma.
Mordi o lábio. Justo eu tinha que acabar metida em alguma merda de destino, caçada ou busca divina? Como se eu já não tivesse coisa mais importante para fazer.
— E o que exatamente a oráculo do seu povo viu? — perguntei, suspirando — Quer saber? — fiz uma careta me levantando — Deixa pra lá. Não quero saber... não quero me envolver nisso.
Dei dois passos em direção à porta, mas ele segurou a minha mão. O aperto era fraco, mas me surpreendeu pela força para alguém naquele estado.
— Você o conhece? — ele sussurrou.
— Não — disse de forma ríspida — E ninguém em sã consciência deveria ir atrás dele.. Ele é… avarento, mesquinho e não move um dedo se não tiver alguma coisa a ganhar. Se der trabalho, pode esquecer, ele nunca vai ajudar.
— Você parece conhecê-lo bem... — disse ele — Se me ajudar a encontrá-lo, prometo pagar uma boa quantia e eu também... ficarei em dívida com você.
— Você já tá em dívida comigo para deixar claro, mas… o que exatamente isso quer dizer? — disse eu, virando-me para ele — Você por acaso é o príncipe dos encantados? — debochei.
— Não... eu... — ele soltou outro gemido.
O corpo dele pendeu para frente e eu mal consegui segurá-lo antes que desabasse. Quando tentei me afastar, sua mão fechou em meu pulso e o calor da pele dele denunciava a febre.
— Eu posso lhe pagar... — ele sussurrou — Tudo que você quiser.
— E o que exatamente você e a deusa querem do Carcará?
— A deusa... disse que o Primeiro Milagre é... — ele se ajeitou na cama — Uma criança.
Depois de um tempo, ele soltou o meu pulso com cuidado.
Que merda a Serena estava querendo? Eu tinha mesmo que encontrar uma criança? Quanto mais ele falava, mais aquela história ficava estranha. Observei-o por mais alguns segundos, com o cenho franzido. Antes de decidir qualquer coisa, eu precisava entender melhor quem eu tinha deixado entrar na minha casa.
— Tá, eu já entendi que essa sua missão é importante — eu disse, tentando parecer menos irritada — Mas, sem querer ofender… você tá quase morto. Não vai conseguir ir pra canto nenhum até essa ferida cicatrizar direito.
— Eu sei... — ele apertou os lábios — Mas... por favor.
Que saco... por que eu não simplesmente chutava ele de volta para a árvore de onde tinha saído? Eu só podia estar ficando maluca.
— Dorme um pouco e amanhã… a gente conversa melhor depois que eu examinar a sua ferida — eu disse, forçando um sorriso — Não quero que você morra antes de me pagar. Daí se você estiver ainda respirando… a gente resolve essa história do Carcará Fantasma e dessa tal… criança destinada.
Ele assentiu.
— Eu também preciso recuperar minha espada — disse ele — Ela é… importante para a missão.
Estreitei os olhos.
— Podemos procurar em algum mercado de armas clandestino. Os cangaceiros costumam largar as armas que roubam quando não servem mais pra atacar as vilas — Bati de leve em seu ombro — Vou perguntar por aí… Tenho uns conhecidos que podem saber de alguma coisa, mas colocarei na sua conta as despesas.
Ele assentiu de leve, quase sorrindo.
— Qual é o seu nome?
— Vai mesmo perguntar o nome de uma donzela sem nem dizer o seu primeiro? — pisquei para ele.
Ele pareceu hesitar por um instante.
— Perdoe-me. O meu nome é Apollo.
— Sou Luna, mas… isso não vem ao caso agora — respondi, me sentando na cama de novo — Agora vai dormir antes que você desmaie.
Ele suavizou a expressão, mas logo começou a tossir. Mesmo pálido, suado e quase morto, continuava bonito e o jeito de franzir a testa ao tentar segurar a tosse era irritantemente charmoso. Ótimo. Era só o que me faltava, começar a agir como uma donzela em apuros, reparando na beleza de um homem ardendo em febre e coberto de feridas.
Cantarolei baixinho, deixando a melodia preencher o silêncio, enquanto ele fechava os olhos lentamente. Nina gostava daquela cantiga, uma bênção que Serena havia me ensinado para aliviar a dor e eu sempre agradecia à deusa por aquilo... embora, pensando bem, talvez fosse justamente o tipo de ajuda que vinha com cobrança de juros anos depois.
Mas não podia julgá-la... eu fazia exatamente a mesma coisa.