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CAPÍTULO 1 - O TRABALHO DA FEITICEIRA

“Carcará pega, mata e come, carcará num vai morrer de fome -
João do Vale, Carcará”
✍️

Notas do Autor

Os capítulos disponíveis ainda estão em uma versão crua e precisam de uma revisão profissional mais cuidadosa. Por enquanto, estão aqui para que você possa conhecer a história e meu estilo de escrita. O texto ainda passará por uma revisão mais profunda antes de sua publicação.
Trilha Sonora do Capítulo
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Eu me sentia suja, suja pra caramba. Talvez fosse o calor, talvez não, ainda assim eu tinha de matá-los. Pisquei e forcei a vista por entre as árvores [Conteúdo protegido por direitos autorais] até a clareira lá embaixo, onde cinco homens, meus alvos, de roupas típicas de tropeiros, com chapéu de couro e gibão encardido, estavam sentados à beira da estrada de barro, ao lado de um caminhão.

Um sexto, o vigia, continuava embrenhado entre as árvores. Meu principal alvo, o líder, ainda não tinha voltado, e eu não fazia ideia do [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ele estava fazendo no interior da mata. Ajeitei o corpo, evitando fazer muito barulho e algumas folhas balançaram no tronco onde eu estava.

Quanto mais as horas passavam, mais a fome começava a nublar minha mente, piorada pelo desconforto de ficar tanto tempo pendurada nos galhos de um pau-brasil. Ainda assim, bastou um instante de distração para minha cabeça escapar até a minha irmã, [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina. O tronco avermelhado sob meu corpo começou a se transformar na mesa da nossa cozinha e diante de mim, surgiu um prato fundo de cuscuz com queijo coalho, acompanhado de uma coxa de frango assada cujo cheiro e gosto quase consegui sentir.

Engoli em seco como se eu tivesse comido terra e o corpo a cada segundo implorava por um gole d'água, então balancei a cabeça e mandei a [Conteúdo protegido por direitos autorais] imagem embora. Agora não... não era hora de pensar nisso. Contudo, cabeça vazia é a oficina do diabo, então outro pensamento brotou no mesmo instante.

Não devia ter deixado ela sozinha com aquele homem, embora fosse mais sensato me preocupar com ele, ferido do jeito [Conteúdo protegido por direitos autorais] que estava, do que com minha irmã. Deixei um sorriso suave escapar, certa de que ela daria conta e voltei toda a atenção para a estrada.

De longe, o grupo até podia passar por um bando qualquer de tropeiros indo da capital provincial para a maior cidade do interior, mas bastava ficar de olho por algum tempo para notar aquele tom [Conteúdo protegido por direitos autorais] acinzentado na pele exposta, principalmente na base do pescoço. Cedo ou tarde, algum Chico acabaria farejando aquele bando e exterminaria os semi-vampiros, só que, dessa vez, o trabalho deles seria facilitado por mim.

Como diz o povo, quem solta um aluado no mundo acaba criando um demônio e talvez fosse justamente para evitar esse [Conteúdo protegido por direitos autorais] tipo de dor de cabeça que ela tinha me contratado. O pagamento não tinha sido ruim, então não cabia a mim reclamar do serviço.

Permaneci imóvel, acompanhando cada movimento sem deixar o caminhão sair do meu campo de visão. Era um modelo velho de carga, com a lataria corroída pela [Conteúdo protegido por direitos autorais] ferrugem, estacionado alguns metros adiante, fora da estrada de barro. Fosse lá o que transportasse, parecia valioso o bastante para justificar o grupo espalhado ao redor, protegendo o perímetro.

Droga, seria complicado pegá-los desprevenidos. O problema era descobrir há quanto tempo tinham injetado o sangue de vampiro. Se [Conteúdo protegido por direitos autorais] fossem recém-enlouquecidos, eu não teria muito com o que me preocupar, mas, se já estivessem assim havia algum tempo, a coisa mudava de figura. 

Talvez, eles fossem simplesmente um bando de idiotas que encheu o próprio corpo de sangue vampiresco, achando que conseguiria [Conteúdo protegido por direitos autorais] controlar os poderes e acabou enlouquecendo. De qualquer forma, continuei de olho neles, deixando o tempo passar, enquanto esperava algum sinal.

Um dirigível cruzou o céu acima de mim e aproveitei o zumbido dos motores para mudar de posição e relaxar o corpo. Quando sumiu no horizonte, voltei a atenção para a [Conteúdo protegido por direitos autorais] estrada e deixei os minutos escorrerem, acompanhando o sol que descia a oeste. Até que um deles se levantou e os outros começaram a se mexer, pegando os mosquetes e se preparando para partir.

Ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] então finalmente apareceria?

— Deusa Zara, antes do meu primeiro passo, tu já conheces o caminho... — eu disse a oração em voz baixa e o vento passou pelo meu corpo como sempre passava [Conteúdo protegido por direitos autorais] quando eu iniciava uma prece — Antes do meu último suspiro, tu já viste o fim. Permite que o fluxo do tempo caminhe ao meu lado e que tua vontade seja meu abrigo.

O peso do meu corpo pareceu sumir com a bênção, as garras da transformação em carcará se ajustaram ao galho, ao mesmo tempo que as penas do peito se eriçavam com a passagem do [Conteúdo protegido por direitos autorais] vento. Meu pequeno corpo emplumado estremeceu e a pele nua ao redor do bico, antes avermelhada, adquiriu um tom amarelado, a cor de alerta. Aquele era o sinal. Ele, de fato, tinha chegado.

Com a audição aguçada, minha cabeça se encheu de ruídos. Concentrei-me nos sons [Conteúdo protegido por direitos autorais] que vinham da parte mais densa e escura da floresta, forçando os sentidos até conseguir ouvi-los.

— Arrumem tudo, precisamos partir logo! — [Conteúdo protegido por direitos autorais] disse uma voz mais grossa, vinda do meio do mato.

— Estamos perto da rota certa? — perguntou uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] segunda voz que presumi ser do vigia por conta da distância.

— Estamos… mas já estamos atrasados. Parece que os outros [Conteúdo protegido por direitos autorais] já chegaram — respondeu a primeira voz e finalmente enxerguei o dono dela.

À primeira vista, era um homem bonito, com pouco mais de trinta anos, cabelos curtos e pretos e uma expressão carrancuda. Vestia uma casaca azul, camisa de gola alta e colete, roupas típicas da aristocracia do ducado vampiresco de Evangelion. Talvez fosse subordinado direto de algum nobre vampiro. Só os [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhos vermelhos destoavam daquele figurino impecável. A aberração já devia carregar sangue de vampiro nas veias havia bastante tempo, tempo suficiente para o corpo se acostumar com aquilo. Ainda assim, não tinha o ar de um aluado experiente no próprio poder... ou pelo menos eu esperava que aquela informação estivesse certa.

Virei o rosto e observei o caminhão outra vez com mais atenção. Por baixo do ruído do vento e dos sons da conversa, [Conteúdo protegido por direitos autorais] outro barulho começou a se destacar: vozes abafadas, batidas fracas e gritos de ajuda vindos da carroceria. Pisquei, surpresa, pois não tinha percebido nada daquilo antes.

Estava tão concentrada na caça que [Conteúdo protegido por direitos autorais] deixei de perceber que havia vítimas? Droga, sua idiota.

O meu alvo gesticulou para o caminhão e os outros aluados murmuraram entre si até que um deles soltou [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma risada esquisita, fazendo meu corpo estremecer de nojo. O líder se aproximou do veículo, bateu duas vezes na lataria e gritou:

— Silêncio aí dentro! [Conteúdo protegido por direitos autorais] Não quero atrair a feiticeira.

Sorri de lado. [Conteúdo protegido por direitos autorais] style="font-weight: 400;">Desculpa amigo, eu já estava aqui.

Os gritos pararam, trocados por um choro abafado. Talvez sentissem mais medo da minha lenda do que das aberrações que [Conteúdo protegido por direitos autorais] as capturaram. Contei pelo menos dez vozes diferentes, todas adultas e femininas, e fechei os olhos por um instante respirando mais forte. 

Eles tinham capturado aquelas mulheres para se reproduzirem? Mas os aluados não podiam... não desde a última guerra. Se aquilo fosse mesmo o que eu estava pensando, então o sangue rubro [Conteúdo protegido por direitos autorais] estava voltando a se manifestar. O pensamento me levou direto até Nina de novo e mordi de leve a língua. Eu precisava verificar o sangue dela, só para ter certeza de que aquilo não estava afetando-a.

Como estava pensando demais em coisas que ninguém tinha me pagado para pensar, [Conteúdo protegido por direitos autorais] balancei a cabeça mais uma vez. Nina podia esperar, pelo menos até eu terminar aquilo.

Memorizei a posição de cada um e calculei quantos passos levaria para cobrir a distância entre eles, até que o líder [Conteúdo protegido por direitos autorais] finalmente virou as costas para a árvore onde eu estava e gesticulou para que os outros entrassem no caminhão. Era o momento perfeito.

Respirei fundo e um grito estridente escapou do meu bico — o chamado alto de um carcará — então joguei a cabeça para trás em um movimento instintivo da ave, pulei [Conteúdo protegido por direitos autorais] do galho e alcei voo na direção do grupo. Um clarão surgiu na retaguarda, seguido pelo estampido dos mosquetes. O vigia deles parecia ter bons reflexos, porque estava atento o bastante para me perceber.

Desviei com [Conteúdo protegido por direitos autorais] facilidade em pleno voo.

— Uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] feiticeira! — berrou o líder.

Sim, idiota!

Ainda no ar, desfiz a metamorfose e minhas pernas se alongaram, o corpo se endireitou, ao mesmo tempo em que meus cabelos castanhos caíram sobre rosto. Afastei-os com um movimento da cabeça antes de cair entre [Conteúdo protegido por direitos autorais] eles, pousando agachada. Minhas mãos encontraram os cabos das duas lâminas presas à cintura e, antes que o aluado à minha frente conseguisse erguer a arma, girei sobre o pé e passei meu facão na horizontal pelo pescoço dele.

A cabeça se separou e o sangue espirrou sobre meu rosto. Pelo canto do olho, acompanhei a quantidade que escorria do [Conteúdo protegido por direitos autorais] pescoço antes de avançar, porque precisava deixá-lo incapaz de continuar lutando, mas não podia me dar ao luxo de esvaziá-lo... pelo menos, não ainda.

De repente, uma coronhada veio da minha direita. Levantei a adaga na mão esquerda a tempo de desviar o mosquete e, aproveitando o impulso, [Conteúdo protegido por direitos autorais] girei o corpo para escapar do golpe. O cano passou rente ao meu rosto e acabei ao lado de um aluado. Era a abertura que eu precisava. 

Enfiei o facão sob o braço dele, cravando a lâmina entre a axila e o tórax, e a puxei de volta num único movimento. Um disparo veio da minha esquerda [Conteúdo protegido por direitos autorais] e me abaixei no susto. O tiro passou por cima da minha cabeça e acertou o aluado que vinha por trás. Quando tornei a olhar, a cabeça dele já estava aberta pelo impacto.

Porra, [Conteúdo protegido por direitos autorais] essa foi por pouco.

Antes que ele pudesse preparar outro disparo, avancei na direção do atirador. Ele tentou recuar, conforme, puxava o mosquete para junto do corpo, mas cheguei perto o bastante para impedir que apontasse a arma em minha direção. Eles ainda não sabiam usar a [Conteúdo protegido por direitos autorais] própria velocidade e força sobrenatural e isso me ajudava. Cortei o braço que segurava a arma e, quando ele tentou se afastar, atingi a coxa do mesmo lado. A perna cedeu e o corpo tombou para o lado, então completei o movimento e cortei-lhe o pescoço.

Mas, infelizmente, a parte chata era que precisava fazê-los sangrar o bastante para inutilizá-los, mas sem desperdiçar o suficiente, pois ainda precisava [Conteúdo protegido por direitos autorais] de um pouco para testar a compatibilidade com o de Nina. Era sempre uma merda ter que dosar em meio à pancadaria.

Quando outro aluado avançou sobre mim, rolei para a esquerda e, no meio do movimento, soltei a adaga e meus dedos fecharam sobre uma pedra. Quando terminei a rolagem, me levantei, lançando [Conteúdo protegido por direitos autorais] a pedra contra o rosto de um deles. A cabeça foi para trás com o impacto e o corpo cambaleou. Ataquei antes que ele recuperasse o equilíbrio, cravando o facão no alto do crânio.

Ao puxar a lâmina de volta, me impulsionei sobre o corpo que [Conteúdo protegido por direitos autorais] tombava, passando por cima dele, à medida que procurava os outros. Ainda faltavam dois.

O líder recuou em direção à margem da clareira, ao passo que o último aluado, o vigia, se colocou [Conteúdo protegido por direitos autorais] entre nós com o mosquete apoiado nas duas mãos, já o líder ergueu o pistolão por trás do ombro do companheiro.

— Sua feiticeira [Conteúdo protegido por direitos autorais] desgraçada! — o líder rugiu.

Avancei pela clareira, desviei para a esquerda e o líder atirou logo depois, fazendo o chumbo arrancar cascas [Conteúdo protegido por direitos autorais] do tronco. Mudei de direção outra vez, passei rente ao tronco seguinte e saltei sobre uma raiz que atravessava meu caminho.

Quando aterrissei, puxei uma nova adaga da cintura e arremessei contra o vigia. Ele tentou se jogar para o lado, mas exagerou na esquiva e girou o corpo mais do que precisava. Passei por ele sem diminuir a velocidade e fui direto ao líder. Ele até tentou apontar [Conteúdo protegido por direitos autorais] o pistolão para mim, mas eu estava perto demais para ele conseguir me mirar direito. Baixei o corpo e dobrei os joelhos, ao mesmo tempo que a corrida me impulsionava pelo chão. O fio do facão atravessou as duas pernas logo abaixo dos joelhos e o líder perdeu o apoio.

Ouvi um disparo que passou perto do meu ombro e sem pestanejar, rolei para o lado, apoiei a mão direita no chão e girei o corpo para ficar de frente para o vigia. Cravei o facão no [Conteúdo protegido por direitos autorais] chão para interromper o giro e usei o apoio para me erguer. Olhei de soslaio e o líder ainda se mexia, o que era um bom sinal, então puxei outra adaga da cintura e avancei em direção ao vigia novamente.

Ele tentou levantar o mosquete para mirar, mas se movia rápido demais para o próprio corpo e o cano passou do ponto antes que conseguisse alinhá-lo comigo. Entrei [Conteúdo protegido por direitos autorais] pela lateral, agarrei a arma com a mão livre e empurrei o cano para cima no instante em que ele apertou o gatilho. O disparo se perdeu acima das árvores.

Aproveitei a abertura e passei a lâmina pelo braço que segurava a arma, separando-o acima do [Conteúdo protegido por direitos autorais] cotovelo. O aluado gritou e tropeçou, e eu acompanhei o movimento com o facão até alcançar seu pescoço.

O corpo caiu diante de mim e puxei o ar algumas vezes até a respiração voltar ao normal, apertando o cabo do facão por um [Conteúdo protegido por direitos autorais] instante antes de baixar a lâmina. É impressão minha ou tinha sido rápido dessa vez? Talvez fossem mais novos do que a mensagem dizia.

Caminhei até o líder e me agachei ao lado dele. Por mais esquisito que fosse, passei o facão pelo pescoço, rasgando a carne e peguei sua cabeça pelos [Conteúdo protegido por direitos autorais] cabelos, que ainda me xingava, antes de me afastar alguns metros. Sentei-me contra o tronco de uma árvore e coloquei a cabeça à minha frente, mantendo a espada apontada para ele. 

— Podemos ter um dedinho de prosa? — perguntei, [Conteúdo protegido por direitos autorais] relaxando os ombros e ainda com dificuldade de controlar a respiração.

— Você acha mesmo que eu quero conversar com você, [Conteúdo protegido por direitos autorais] sua feiticeira infeliz? — o líder cuspiu as palavras.

— Não precisa querer... eu só quero que você responda com monossílabas ou até… grunhidos. Não tô pedindo tanto assim… — eu disse ofegante, ainda [Conteúdo protegido por direitos autorais] com a mente dividida entre os pensamentos de uma ave e os de um humano — Até porque, sem o resto do corpo… você não vai muito longe.

Ele me olhou de um jeito estranho e abriu um sorriso malicioso, talvez tivesse percebido alguma coisa. Merda. Se ele tivesse notado, podia tentar usar [Conteúdo protegido por direitos autorais] isso contra mim. Precisava tomar cuidado. Aluados que já haviam se unificado ao sangue de vampiro há tempo suficiente podiam mexer nas ondas mentais de alguém com pouca força de vontade. 

— Você tá com medo da sua metamorfose te mudar? — ele disse [Conteúdo protegido por direitos autorais] com um tom de voz quase sedutor e condescendente — Há quanto tempo você tá viva?

— Não seja grosseiro, é falta de educação perguntar a idade de uma jovem — respirei fundo, sentindo meu corpo [Conteúdo protegido por direitos autorais] se acostumar de novo à forma humana — Mas sou bem mais velha que você... então trate de respeitar quem tem mais idade.

— Por que uma feiticeira tá caçando a gente? — ele me encarou — E, principalmente... por que ainda tá do lado [Conteúdo protegido por direitos autorais] deles? — ele fez uma pausa e o tom ficou mais amargo: — Eles quase exterminaram todas vocês também, não foi?

Deixei [Conteúdo protegido por direitos autorais] escapar um sorriso irônico.

— Não foram os humanos que mataram meu pai, então... — estalei o pescoço de um lado para o [Conteúdo protegido por direitos autorais] outro, soltando a tensão dos músculos — Não tenho nada contra eles, pelo menos não enquanto não mexerem comigo… de novo.

— Se só ataca quem mexe com você, então…. por que nos atacou? A gente não [Conteúdo protegido por direitos autorais] fez nada contra você… — O desdém na voz dele ficou ainda mais evidente — Feiticeira.

Inclinei a cabeça e apontei para [Conteúdo protegido por direitos autorais] os corpos espalhados dos outros membros do bando.

— Preciso do sangue de vocês e... — trouxe a ponta da espada de volta para ele — Me [Conteúdo protegido por direitos autorais] pagaram pra caçar vocês, então, não me leve a mal, é só negócio. No fim, foram dois coelhos com uma cajadada só.

O líder estreitou [Conteúdo protegido por direitos autorais] os olhos e pareceu me avaliar.

— Que parente seu está… doente? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — ele pareceu mais curioso do que deveria.

— Isso não é exatamente relevante pra nossa breve e prazerosa conversa… [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;">chupa-sangue — devolvi, usando o mesmo tom de desdém que ele tinha usado comigo.

— Não faço negócios com feiticeiras, mas, se me levar até o norte, posso intermediar a ajuda do nosso mestre. O nosso deus é capaz de curar [Conteúdo protegido por direitos autorais] os efeitos do Sangue Rubro, então... — houve uma breve pausa antes de ele continuar: — Se é por isso que você precisa do nosso sangue, talvez, eu consiga ajudar. 

Comecei a rir. Era irônico pra caralho pensar que até os malucos geneticamente [Conteúdo protegido por direitos autorais] modificados pelo sangue amaldiçoado acreditavam em alguma coisa. Apertei as pálpebras e balancei a espada.

— Você realmente acredita [Conteúdo protegido por direitos autorais] nesse... seu deus?

— E por que não? — ele uniu as sobrancelhas — Qual é o problema em acreditar que [Conteúdo protegido por direitos autorais] existe alguém guiando a gente? Nosso deus pode não estar aqui nesse mundo, mas isso não quer dizer que esteja ausente.

— Então é um deus novo? — franzi a testa. — Sempre achei que vocês fossem só... sei lá, sedentos por sangue e [Conteúdo protegido por direitos autorais] poder. Pelo jeito, a vida da deusa Zara vai ficar ainda mais complicada agora que vai ter mais uma entidade pra ela caçar.

— A deusa  sabe que a gente tentou viver em paz com vocês — continuou ele — Vocês já brigavam por [Conteúdo protegido por direitos autorais] terra, por comida, por cidade, por qualquer porra que achassem que era de vocês, antes mesmo de o meu povo existir.

— Vocês, vírgula, chupa-chupa — apontei a espada para o caminhão — Quem fez merda naquela vilazinha por nada foram vocês. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Então nem vem com esse papo de que são vítimas da sociedade ou essas baboseiras que seus líderes ficam repetindo por aí.

Ele ficou [Conteúdo protegido por direitos autorais] quieto por alguns segundos.

— Não tô negando o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que a gente fez — ele, finalmente, falou.

— De qualquer forma, obrigada pela conversa — disse, me levantando e sentindo o [Conteúdo protegido por direitos autorais] corpo finalmente se acostumar à forma humana — A minha mente está bem mais tranquila agora.

— Então, quer dizer, que você destruiu [Conteúdo protegido por direitos autorais] a gente só por dinheiro e pelo nosso sangue?

— E por que você acha que eu faria [Conteúdo protegido por direitos autorais] isso por qualquer outro motivo? — dei de ombros de novo.

— Humana desgraçada... [Conteúdo protegido por direitos autorais] mesquinha. Sua infeliz da costa oca!

Ao me levantar, um sorriso de canto tomou meus lábios. Andei até o primeiro corpo e, ao olhar de lado, [Conteúdo protegido por direitos autorais] notei que o líder continuava me encarando. Peguei uma seringa pequena dentro da minha bolsa e retirei um pouco de sangue pelo pescoço.

— Ah… e eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] não sou humana.

— Você respira e [Conteúdo protegido por direitos autorais] tem sangue, não tem? — ele perguntou.

Abri a segunda bolsa de couro presa ao cinturão, ajeitei a saia branca que usava quando fazia esse tipo de serviço e tirei um aparelho de tela [Conteúdo protegido por direitos autorais] quadrada. Pinguei um pouco de sangue sobre ela e esperei pela reação ao sangue de Nina. Alguns símbolos começaram a surgir na superfície, conforme a tela processava o resultado.

— Você também tem sangue e nem por isso se considera [Conteúdo protegido por direitos autorais] humano — respondi, meio distraída, de olho no visor.

— Mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] você ainda quer nos destruir.

— Eu disse que só quero o seu sangue e esqueceu que sou apenas uma feiticeira mesquinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] style="font-weight: 400;">? — dei ênfase na palavra e caminhei até o aluado seguinte — Ou são vocês ou é a minha irmã. 

Olhei por cima do ombro, mas ele não disse mais nada. Fui de corpo em [Conteúdo protegido por direitos autorais] corpo, retirando amostras de sangue. Quando terminei, voltei a me sentar em frente à cabeça do líder.

— Agora mudando de prosa, vai me dizer ou não [Conteúdo protegido por direitos autorais] o porquê de vocês estarem levando essas mulheres para o norte? — perguntei.

— Isso não é da sua conta... [Conteúdo protegido por direitos autorais] — ele respondeu, com uma careta — Feiticeira.

— Bem, isso é verdade... desde que não me paguem para descobrir — falei com um sorriso — Mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] que tal a gente falar de negócios agora? Se desembolsar uma boa quantia, talvez eu até leve você até o seu destino.

— Você realmente faz tudo por dinheiro, não [Conteúdo protegido por direitos autorais] é? — disse ele em um claro tom de desprezo.

A tela foi exibindo vários resultados negativos, um atrás do [Conteúdo protegido por direitos autorais] outro, e só faltava o do líder. Levantei o olhar e o encarei.

— Não tudo... — disse eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Mas pela minha irmã, eu faço qualquer coisa.

— A sua irmã não conseguiu se adaptar ao sangue dos seus [Conteúdo protegido por direitos autorais] antepassados? — perguntou ele e, pela primeira vez, sua voz perdeu o tom de desprezo.

Puxei o ar e desviei os olhos. As memórias daquele dia eram algo que eu preferia manter trancadas a sete chaves, porque odiava a forma que aquele [Conteúdo protegido por direitos autorais] lugar ainda conseguia me afetar. Concentrei-me em pegar a amostra do sangue do líder, depois caminhei até a árvore e me sentei, encostando as costas no tronco outra vez.

— Parece que agora você está disposto a conversar, não é? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — disse com ironia — Tá com medo de que seu sangue seja compatível?

Ele soltou um som de desdém e [Conteúdo protegido por direitos autorais] quando eu menos esperava, a tela bipou em verde.

— Pelo visto... — eu disse, levantando a [Conteúdo protegido por direitos autorais] sobrancelha — O nosso acordo profissional não será mais possível.

— Espera... — a voz [Conteúdo protegido por direitos autorais] dele continha medo — Eu posso ajudar.

— Sim, você pode — disse, caminhando até ele — Com o seu cérebro, [Conteúdo protegido por direitos autorais] pelo menos. Já sei de algo mais útil pra ele do que o que você estava fazendo.

Peguei um pequeno dispositivo dentro da bolsa e apertei um botão. Ele foi se ampliando até virar uma redoma de proteção, uma caixa [Conteúdo protegido por direitos autorais] usada para transportar órgãos. Caminhei até a cabeça dele e a peguei com cuidado, apoiando a ponta da espada no topo, enquanto fazia um corte circular. 

Ele gritou e me xingou de tudo quanto era nome, mas ignorei até terminar o serviço e colocar o cérebro na caixa de transporte. Com ela em mãos, fui até o [Conteúdo protegido por direitos autorais] caminhão e entrei na cabine, onde conferi o tanque parcialmente cheio antes de desligar o motor e me acomodar no banco do motorista. Só então abri o porta-luvas e tirei tudo que havia ali.

Não havia nada de valor ou importância, apenas um mapa da região. Abri-o na minha frente e observei as marcações: uma rota que vinha de Itamaré, a capital [Conteúdo protegido por direitos autorais] provincial, passava pela Mata Cajazeira, onde havia uma marcação em vermelho e seguia até a Mata do Louzeiro, que era exatamente onde estávamos. Depois dali, nada. Mordisquei o lábio, tentando entender. 

Por que pararam ali se queriam ir para o norte? Será [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ele estava falando da grande floresta ou das províncias mais ao norte?

Traçando com o dedo a rota que passava por toda a província de São Serafim até ali, observei que eles poderiam ter ido direto da capital para a [Conteúdo protegido por direitos autorais] capital do Rio Potengi. Suspirei, cansada demais para ficar dando uma de detetive. Talvez, eu devesse ter pressionado mais para arrancar essa informação e ganhar um pouco mais de dinheiro.

Enquanto saía da cabine, assobiei como um sabiá e, alguns segundos depois, [Conteúdo protegido por direitos autorais] um sabiá-laranjeira pousou na capota do caminhão. Puxei um papel pequeno da bolsa para escrever:

O trabalho foi feito, como esperado. Estou mandando um mapa que pode ajudar você a se manter um passo à frente dos chefes dos Chicos e não precisa pagar, é brinde pela [Conteúdo protegido por direitos autorais] ajuda com minha irmã. Ah, uma coisa, o líder disse que eles estavam indo para o norte, talvez isso ajude. Envie o dinheiro para a agência de sempre e avise o pessoal sobre isso.

Enrolei a carta junto do mapa e coloquei no cilindro que estava nas costas da ave. À medida que o sabiá alçava voo, fui até a parte de carga do [Conteúdo protegido por direitos autorais] caminhão, bati três vezes com a lâmina no cadeado, arrombei-o e abri a porta. Tinha de fato, uma dezena de mulheres ali dentro, amontoadas como fardos e encolhidas no fundo do contêiner.

— Vocês estão seguras agora — eu disse, da forma mais gentil que eu podia — Sigam a estrada [Conteúdo protegido por direitos autorais] para o sul e chegarão à Vila Nova da Imperatriz em alguns minutos. Se forem rápidas, conseguirão chegar antes do anoitecer.

— Quem é você? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntou uma delas, de voz mais firme.

— Ninguém importante — falei, com um sorriso [Conteúdo protegido por direitos autorais] breve — Vão logo antes que os animais nada agradáveis apareçam.

Ajudei as mulheres a descerem da carroceria, entreguei um cantil de água para elas e apontei o [Conteúdo protegido por direitos autorais] caminho. Elas seguiram juntas pela estrada, amparando-se umas às outras, ao passo que esperei até suas silhuetas desaparecerem no horizonte.

O meu corpo estava todo dolorido e eu precisava chegar logo em casa para ver se Nina estava bem e, claro, tomar um bom banho. Desviei o olhar para a mata [Conteúdo protegido por direitos autorais] quando um assobio ecoou de lá, então guardei o facão na cintura e me recostei na carroceria, encarando as árvores até uma mulher surgir entre elas, baixa, de pele morena, cabelos longos e pretos.

— Então era [Conteúdo protegido por direitos autorais] você... Luna — disse a entidade.

— Peço desculpas por perturbar a paz da sua floresta, Cumadre — disse, dando alguns passos até ficar de frente para ela. [Conteúdo protegido por direitos autorais] A encantada era bem mais baixa do que eu e isso fazia muita gente confundi-la com uma criança — Mas só os matei por necessidade.

A entidade desviou o olhar para os corpos ao nosso redor e acompanhei seu olhar. Quando [Conteúdo protegido por direitos autorais] voltou a me encarar, fez uma careta para a caixa que eu segurava, onde estava o cérebro do aluado.

— Eu imagino que a medicação de Nina deva estar acabando, mas é preciso mesmo tirar [Conteúdo protegido por direitos autorais] o sangue deles desse jeito? Não dá pra descobrir a compatibilidade de outra… forma? — perguntou Cumadre Florzinha.

— É o jeito mais rápido — dei de [Conteúdo protegido por direitos autorais] ombros — E os monstros daqui não costumam reclamar do banquete.

Dei as costas [Conteúdo protegido por direitos autorais] para ela e comecei a andar.

— E obrigada pelas últimas ervas que mandou pra Nina. Ajudaram bastante — [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhei por cima do ombro — E, se acontecer alguma coisa, já sabe… me chama.

— Você já parou para pensar [Conteúdo protegido por direitos autorais] em como minha sobrinha se sente sobre tudo isso?

— Somos parentes distantes, Cumadre. Umas… dez gerações de diferença, se não me engano — Sorri e balancei a mão por cima da cabeça. Sim, eu pensava [Conteúdo protegido por direitos autorais] nisso, mas não podia deixar aquilo me paralisar — Enfim, apareça lá em casa qualquer dia desses pra comer um pirão. Prometo não usar nenhum… bicho da sua floresta.

Comecei a andar e, algum tempo depois, já perto de sair da floresta, ouvi o estalo das raízes, seguido pelo barulho do caminhão sendo destruído. Continuei caminhando [Conteúdo protegido por direitos autorais] debaixo do sol do fim de tarde que ainda ardia como se o próprio inferno tivesse descido sobre minha cabeça, uma das tantas desgraças deixadas pela maldita Grande Sede. 

Minha garganta estava cada vez mais seca e eu já não sentia nem vontade de umedecer os lábios, quando o cheiro de café recém-coado veio do armazém à beira [Conteúdo protegido por direitos autorais] da estrada. Parei na mesma hora. Só precisava de um café e alguma coisa para comer antes de chegar em casa, então empurrei a porta do armazém de secos e molhados.

Assim que entrei, a mulher atrás do balcão ergueu os olhos e a expressão ficou carrancuda. Pelo jeito que sempre estreitava os olhos quando me via, não parecia ir muito com a minha cara. Talvez fosse por causa [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos boatos de que eu era feiticeira, o que era verdade, embora ela não soubesse, ou então da história de eu ser descendente da primeira bruxa da Cuca, que também era verdade. Dei um sorriso para ela só para provocar.

Atrás do balcão, um rádio velho tocava alguma música, até a programação ser interrompida pelo noticiário das cinco e meia da Gazeta da Aurora. Continuei [Conteúdo protegido por direitos autorais] andando, mas prestei atenção quando ouvi que o novo Imperador de Mandacuru tinha acabado de ser coroado e que o Príncipe dos Encantados não tinha aparecido na cerimônia.

Aquilo junto do aumento das ações dos cangaceiros vampiros por todo o Império, já era motivo suficiente para me dar dor de cabeça. O locutor continuou falando sobre um possível incidente diplomático entre o reino [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos encantados, o Império e o clã mais antigo que regia os vampiros. Mordi o canto da boca, pensativa. Se a coisa realmente azedasse, às feiticeiras que ainda viviam podiam acabar metidas no meio disso tudo também.

O pior era que o Império podia aproveitar a confusão para aumentar o número de Chicos, talvez até reabrir os velhos laboratórios que estudavam [Conteúdo protegido por direitos autorais] o sangue rubro, mas e se… eles encontrassem uma cura para a doença no meio disso? Ou quem sabe eu só estivesse me deixando enganar de novo.

— Quero uns puxa-puxas — disse eu, deixando a notícia [Conteúdo protegido por direitos autorais] de lado antes que começasse a me dar ainda mais dor de cabeça.

— Não temos isso aqui — respondeu [Conteúdo protegido por direitos autorais] dona Zefa, seca — Toda vez é a mesma coisa...

Olhei para o cesto de palha ao lado dela, cheio [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos docinhos brancos, brilhantes e delicados, quase parecendo pequenas esculturas de porcelana.

— Não? Então aquilo ali [Conteúdo protegido por direitos autorais] é o quê? — Apontei para a cesta.

Ela lançou [Conteúdo protegido por direitos autorais] outro olhar feio para mim.

— Alfenim.

— Isso. Quero alguns deles [Conteúdo protegido por direitos autorais] e… um pão na chapa com café preto.

Ela resmungou alguma coisa que não entendi, pegou os alfenins e os embrulhou no papel de pão, [Conteúdo protegido por direitos autorais] depois colocou o pão na chapa e uma caneca de folha de flandres cheia de café sobre o balcão.

— Me devolva quando passar por aqui de novo — disse Dona Zefa, [Conteúdo protegido por direitos autorais] apontando para a caneca — E não encha sua irmã de doce, ela precisa comer direito...

Assenti, sem prolongar o assunto. Dona Zefa podia não ir muito com a minha cara, mas gostava de Nina, então eu não ligava muito para o jeito que [Conteúdo protegido por direitos autorais] ela me tratava. Deixei as moedas ali, peguei tudo com cuidado para não derramar o café e sai o mais rápido possível, antes que ela resolvesse me transformar em um sapo.

A minha garganta estava seca daquele jeito, o sol ainda torrava o meu miolo e eu ali, tomando café como se fosse a coisa mais sensata do mundo, mas uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra [Conteúdo protegido por direitos autorais] coisa, até porque toda hora era hora de café, não importava se o sol estivesse de rachar ou se o calor estivesse me derretendo viva. Guardei os puxa-puxas na bolsa e fiquei imaginando a cara de Nina quando encontrasse os doces.

Seguindo pela estrada, comecei a subir o barranco em direção à nossa casa, de onde dava para ver boa parte do nosso sítio. Mais abaixo ficava [Conteúdo protegido por direitos autorais] o curral, o galinheiro, o estábulo e, depois deles, o pomar, que não era grande coisa, só algumas árvores frutíferas, a maioria laranjeiras, mas que nós tínhamos carinho.

A casa era simples, mas espaçosa, do tipo que se encontrava em qualquer canto da região, com paredes de pau a pique, telhado de telha de bica e uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] varanda comprida na frente, apoiada em esteios grossos de madeira. Quando o calor apertava, era ali que eu gostava de ficar. Estendia a rede, deitava e deixava as horas passarem devagar.

Empurrei a porta [Conteúdo protegido por direitos autorais] da varanda e entrei em casa.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nina, cheguei! — gritei.

Só o silêncio de uma casa [Conteúdo protegido por direitos autorais] vazia respondeu e eu parei por um segundo.

— Nina? — Uni [Conteúdo protegido por direitos autorais] as sobrancelhas e entrei com pressa.

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