O canto do galo me arrancou do sono naquela manhã e, ainda zonza, com o corpo pesado de cansaço, fui até o quarto de Nina. Fiquei aliviada ao perceber que nada tinha mudado durante a noite, porque ela continuava, aparentemente, tranquila. Aproveitei a proximidade e espiei o outro quarto de novo só para garantir que Apollo não tinha fugido.
Não por outro interesse, é claro, afinal, ele era apenas um moribundo, mas… ainda bem que continuava ali. Quem sabe estivesse gostando dos cuidados gratuitos ou simplesmente não tivesse para onde ir. Ótimo, eu tinha arranjado mais uma boca para alimentar.
Abri a janela e aproveitei para arejar o quarto, mas no mesmo instante um ar frio entrou e fez o meu corpo estremecer. Acariciei os braços para me esquentar e fiquei a observar a névoa da manhã cobrir o morro, deixando apenas o topo das laranjeiras à mostra. Esperei mais um pouco antes de ir fazer café e, depois de tomá-lo, passei no quarto de Nina para deixar os comprimidos que havia preparado de madrugada.
Eram trinta ao todo, talvez, o suficiente para um mês se eu racionasse bem.
Com isso resolvido, peguei a cesta de ovos e segui para a Vila Nova da Imperatriz, direto para o Córrego Cristalino, o bar que costumava concentrar as ofertas de trabalho dos jagunços da região e os pagamentos pelos serviços prestados. O caminho ziguezagueava entre os algodoais, engenhos de açúcar e fazendas de gado, e como alguma delas sempre rendia uns trocados, aproveitei para vender os ovos das minhas mimosas.
Dessa vez tinha dado sorte e a venda dos ovos tinha dado um lucro de quase trinta mil cruzeiros. Era dinheiro suficiente para comprar a boa vontade dos policiais da região e ainda sobrava algum trocado para comer alguma besteira. Não que eu quisesse me meter em encrenca, mas vai saber, era melhor prevenir do que remediar.
Conforme me aproximava da vila, as jardineiras e os paus de arara começaram a passar com mais frequência, carregados de gente e mercadorias vindas do sertão. Assim que entrei, as ruas estavam entupidas de tropeiros, animais de carga e carroças de boi.
Segui arfando debaixo do sol de rachar, sem entender como os nobres aguentavam andar de terno e vestido comprido naquele calor, até que cheguei no Córrego Cristalino. O bar ficava numa esquina do centro da Nova Imperatriz e diziam as lendas que nem todas as pessoas pareciam ser capazes de encontrar a porta daquele lugar, porque, para muitos, aquilo parecia apenas um prédio abandonado, enquanto, para outros, como eu, aquilo definitivamente era um bar.
Diziam também que quem entrava ali podia cruzar para outros mundos e até dar de cara com a própria deusa Zara. Eu nunca tive essa sorte, embora Seu Anísio já tivesse me encarregado de algumas missões que, supostamente, vinham da própria regente do universo.
Ao entrar, notei que o lugar estava mais vazio do que de costume. Talvez fosse o horário, já que era meio-dia e quase todo mundo devia estar almoçando no Mercadão Público. As mesas de metal espalhadas pelo salão estavam vazias e, além de mim, só havia um bêbado largado num canto, a filha de Seu Anísio e o próprio dono do bar.
Caminhei até a menina de tranças e vestido amarelo, sentada no banco diante do balcão, enquanto balançava as pernas sem alcançar o chão. Atrás do balcão estava Seu Anísio, um homem barrigudo, de bigode grosso e camisa clara, com as mangas arregaçadas até os cotovelos, secando um copo com um pano.
Aproximei-me e fiz um aceno para a menina, que arregalou os olhos e baixou a cabeça para os meus pés, depois para o meu rosto, como se estivesse tentando entender como eu tinha chegado tão perto sem fazer barulho. Fiz sinal para Clara ficar quieta e ela pareceu entender, devolvendo um sorriso malicioso. Inclinei-me sobre o balcão, chegando perto o suficiente para sussurrar no ouvido dele com a voz aveludada:
— Boa tarde, Seu Anísio.
O homem deu um pulo para trás e soltou um gritinho que eu jamais esperaria ouvir de alguém daquele tamanho, na mesma hora, Clara e eu caímos na gargalhada, antes dela correr para a porta dos fundos.
— Sua menina malcriada! Volta aqui! — gritou Anísio, com o rosto vermelho — Porque você não me avisou que tinha cliente, sua pestinha?
Apenas balancei a cabeça, porque eu gostava de Clara. Era uma menina esperta, divertida e, se um dia eu tivesse uma filha, queria que ela fosse como Clara. Franzi a testa com o próprio pensamento, sem entender de onde aquilo tinha saído, porque não era como se eu tivesse passado a vida sonhando em ser mãe ou coisa parecida.
— Não estava esperando você hoje, Luna — seu Anísio pigarreou, ainda com o rosto vermelho como tomate — Veio buscar o pagamento?
— Vim — Dei um sorriso — Mas já que estou aqui, queria saber se a Agatha explicou do que se trata o tal mapa? E por que os aluados estavam indo lá pro norte?
— Não e sendo sincero… ela não falou nada demais, só que ia investigar por conta própria. Daí depois que deixou seu pagamento, pediu pra eu te avisar que vai ficar afastada por um tempo.
— Deve ser coisa grande… eu sabia que devia ter cobrado mais… — suspirei, frustrada — Enfim, preciso de uma ajuda sua. Tô atrás de um mercador de armas.
— Mercador de armas? — Seu Anísio ergueu a sobrancelha grisalha — O que foi? Seu facão resolveu te deixar na mão?
— Não, na verdade… uma pessoa me pediu pra encontrar uma espada que, supostamente, foi roubada pelos cangaceiros.
— E o dono ainda tá vivo pra contar história? — Seu Anísio pegou uma caneca de barro, encheu-a no filtro perto do balcão e colocou na minha frente.
— Vivo não é a melhor palavra para descrever o estado que ele estava... — dei de ombros — Pra falar a verdade, ele ainda tá bem ferrado, mas bem melhor do que a primeira vez que o vi — Bebi o copo d'água — Só que ele cismou que precisa achar essa espada, porque aparentemente ela é muito, muito... — revirei os olhos — Muito importante pra missão dele.
Seu Anísio foi até uma gaveta embaixo da estante e voltou com um envelope na mão.
— Você não podia simplesmente comprar uma espada qualquer por aí e aparecer com ela dizendo que achou? — perguntou seu Anísio, conforme, me entregava o pagamento.
— Até poderia... — fiz uma careta — Mas, ao que parece, não é uma espada qualquer. Tô desconfiada que se trata de uma espada feita pelos ferreiros dos encantados para algum nobre…
— De um daqueles prepotentes de uma figa? — Seu Anísio soltou uma gargalhada — Que é isso Luna, você começou a ficar caridosa de uma hora para outra?
— Pois é... — suspirei — Lady Serena mandou eu resgatar alguém que precisasse da minha ajuda e quando tava procurando ervas na mata dos umbuzeiros, encontrei esse idiota jogado no chão — Fiz uma pausa, tocando a glabela — Pela lógica então era ele que a deusa queria que eu resgatasse.
— A deusa mandou você… fazer isso? — Seu Anísio me olhou como se eu tivesse acabado de falar a maior besteira do mundo.
— Sim... — balancei a cabeça, incrédula também.
— Uma… mensagem da deusa... pra você? — Seu Anísio franziu a testa — Logo você? — ele soltou uma risada pelo nariz — Tem certeza que não bateu a cabeça?
— Não é estranho? — assenti — Eu pensei a mesma coisa. Que diabos ela queria comigo? Logo comigo. Com tantos Chicos e sacerdotes da igreja dela por aí, ela foi logo pedir... — apontei para mim — Minha ajuda? Isso não faz o menor sentido.
— Realmente não faz, mas… por que você tá disposta a ajudar a encontrar a espada desse cara? É por causa dessa suposta mensagem da deusa?
— Você não escutou a parte em que ele pode ser um nobre dos encantados?
— Escutei, escutei… — Seu Anísio inclinou o corpo sobre o balcão — A sua irmã já conseguiu enfiar na sua cabeça que ele é um príncipe encantado, não é?
— Como você sabe? — Arregalei os olhos.
Seu Anísio deu uma mais uma gargalhada.
— Pois eu conheço sua irmã desde que ela nasceu? — ele piscou para mim — Talvez eu conheça uma certa pessoa, mas em troca...
— Você quer que eu faça alguma coisa, né?
Seu Anísio assentiu.
— Você sabe... eu sigo as regras da deusa do tempo — ele deu de ombros.
Soltei o ar pelo nariz. Claro que ele seguia a velha lei de que nada podia ser dado sem receber algo de valor equivalente em troca.
— Que seja. Quanto você quer?
— Não quero seu dinheiro, é só... um pequeno favor.
— Sendo sincera, não gosto de ficar devendo favor a ninguém. Já dizia o ditado que a coisa mais cara é aquilo que a gente consegue de graça — retruquei — Mas o que é que você quer? Alguém que você queira que eu mate?
— Na verdade é um serviço mais simples. Eu só preciso que você… dê uma olhada na mata do Lajeiro.
— Por que aquele lugar?
— É um pedido da própria deusa Zara.
— Por que as deusas estão tão ativas ultimamente? — apertei os olhos.
— Sendo sincero... eu não sei — Seu Anísio deu de ombros.
— O que exatamente ela quer? — perguntei, desconfiada e um tanto curiosa.
— Como a Lady Zara não vem há algum tempo, ela só mandou seu novo campeão vir até aqui, então por isso não tenho muitos… detalhes.
— O bonitão esteve aqui? — sorri de lado — Que pena, eu queria ter encontrado ele.
— Eu tinha me esquecido o quanto você se deu bem com o mestre Cassian… — disse Seu Anísio, com um sorriso malicioso — Quer dizer então que finalmente a coração de gelo tá interessada em alguém?
— Não! — eu disse em um tom ofendido — Eu não sou talarica, até porque Lady Syl sugeriu que ele e Lady Zara estão… você sabe, mas é que quando nos encontramos, ele me contou umas histórias engraçadas sobre ela.
— Bem... não posso negar que esse boato parece verdade. Mas, o que eu sei é que se fizer esse trabalho, você pode acabar encontrando ele de novo e perguntar se ele tá comprometido ou não.
— Tá. O que ela quer?
— É só investigar o que tá acontecendo por lá. Parece que alguma coisa tá interferindo no fluxo do tempo, só que de forma bem sutil ainda. Ela só quer saber se é algo com que precisa se preocupar ou se é só uma mudança natural na história desse mundo.
— E ela não sabe o que é? — toquei a glabela, porque aquilo parecia estranho até para algo que uma deusa desejava — Lady Zara não costuma ser tão enigmática, costuma?
— Não, mas… Mestre Cassian disse que a própria deusa anda confusa com essa situação em específica...
— Tudo bem.. que seja. Ter uma deusa me devendo um favor não parece um negócio ruim — dei de ombros — Então só preciso descobrir se tem alguma coisa ou alguém ali causando interferência no fluxo do tempo?
— Acredito que sim. O pedido foi apenas para descobrir, não para resolver.
— Isso parece simples demais… Tem certeza disso? — franzi a testa.
— É só o que sei.
— Hum… — assenti — Mas quero a minha informação primeiro. Não posso ficar indo e vindo para cá toda hora e deixar minha irmã sozinha. Afinal, onde tá esse seu conhecido?
— Deixa comigo. Vou entrar em contato com meu amigo e conseguir essa espada, tão, tão importante.
— Você tá de sacanagem, não é?
— Não.
Apertei os olhos.
— Por que você vai negociar isso para mim?
— É uma troca justa. Um pedido divino precisa ter um pagamento à altura — disse Seu Anísio, estufando o peito e colocando a mão sobre o medalhão com o símbolo de uma roda do tempo da deusa Zara — Não se preocupe, se essa espada ainda existir, eu vou encontrar.
— Fazer o que… acho que esse é o único jeito — peguei o envelope e caminhei para fora do bar — Obrigada pela ajuda, Seu Anísio.
— Só não esqueça do nosso acordo.
— Eu nunca quebro os meus acordos. Você sabe bem disso — fechei a porta do bar.
Segui pelo beco em direção à saída noroeste da vila, com uma mão no queixo, matutando sobre o que poderia estar interferindo no fluxo do tempo. Existiam várias possibilidades, porque diziam por aí que o tempo não era imutável e qualquer coisa capaz de mudar o ritmo de uma história poderia interferir nele, então podia ser uma criatura bizarra, alguma pessoa ou até mesmo algo que os vampiros estivessem fazendo, embora eu preferisse nem pensar nessa última possibilidade.
Não estava em condições físicas de enfrentá-los, além disso, não podia continuar abusando da transformação, porque tantas horas como carcará já estavam começando a mexer com a minha cabeça que já não era muito sã.
Por favor, deusa Zara, que seja algo simples de resolver…
Desviei o olhar para uma figura que vinha na minha direção pela rua vazia, com um véu escuro cobrindo o rosto. A claridade forte do sol distorcia sua silhueta e, de longe, não consegui distinguir direito o tamanho dela, então imaginei que fosse uma viúva. Quando passamos perto o bastante, percebi o quanto era pequena e pelo tamanho do corpo, devia ser uma criança, mas... por que ela usaria esse tipo de roupa e ainda por cima num calor infernal desse?
Antes que eu pudesse pensar, vi de soslaio a mão dela vindo direto para a minha cintura, na direção da bolsa presa ao cinto. Uma forte dor de cabeça me atingiu no mesmo instante, tão intensa que a minha visão vacilou por um segundo, quase como uma enxaqueca daquelas de derrubar.
— Não posso dizer que desaprovo isso… — girei ao redor da garota como se fosse um passo de dança segurando a mão pequena dela antes que alcançasse a bolsa — Mas você precisa de pelo menos uns cinquenta anos de experiência pra, talvez, conseguir me roubar.
Era uma batedora de carteiras habilidosa, daquelas que fariam qualquer pessoa comum ficar de mãos abanando e por mais contraditório que fosse, eu comecei a gostar dela na hora.
— Ei! Me solta! — ela gritou, tentando me chutar.
— Bem... posso soltar, mas só se você estiver me roubando por um motivo muito bom — segurei seu braço pequeno e magro, deixando-a suspensa no ar.
Ela puxou o braço com força, tentando se soltar com a força que só [Conteúdo protegido por direitos autorais] 400;"> uma mini-feiticeira teria. Segurei seu braço com mais firmeza, tomando cuidado para não machucá-la.
— Onde está sua mãe? — puxei-a para mais perto — Tá roubando pra conseguir sobreviver ou… precisa de dinheiro pra cuidar de alguém?
O véu ainda escondia seu rosto, mas ela vacilou e parou de se debater por alguns segundos. Isso foi resposta suficiente para saber que tinha acertado.
— Quem está doente? As escamas já apareceram e estão sangrando sem parar?
— Me solta! — ela gritou, voltando a se debater ainda mais para se livrar de mim — Eu não preciso de ajuda! Eu consigo sozinha. Meu irmão só precisa de mim.
— Onde está seu irmão? Eu posso ajudar.
Puxei o véu para descobrir seu rosto e, nesse instante, senti o corpo dela encolher dentro da minha mão. Meus dedos se fecharam sobre o nada e, quase ao mesmo tempo, um cardeal-do-nordeste saiu de dentro do véu, batendo as asas e disparando pela rua.
— Espera! Eu posso ajudar! — gritei.
Ela parecia experiente o suficiente em sua transformação para fugir rápido. Fiz uma careta, pois eu podia segui-la, mas se ela não queria ajuda não tinha muito o que fazer, persegui-la só ia deixar ela mais assustada e até mesmo provocar uma perda de controle da transformação ao ponto de enlouquecer.
Olhei na direção em que ela tinha fugido e notei algo cintilando no chão. Quando me aproximei para ver melhor, encontrei um pingente bastante antigo, mas bem conservado, com uma estrela cadente de um lado e, do outro, o rosto da deusa Serena entalhado.
Pequenos arranhões marcavam a superfície, embora não houvesse um grão de poeira ou sujeira. Guardei-o com cuidado na bolsa, sem querer danificá-lo. Talvez fosse da garota e tivesse caído quando a segurei, caso fosse, eu devolveria quando a encontrasse. Suspirei, sendo uma feiticeira acabaria encontrando-a de um jeito ou de outro.