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CAPÍTULO 5 - ACORDO SINCERO

“Meia-noite, no meu quarto, ela vai subir, ouço passos na escada, vejo a porta abrir -
Ritchie, Menina Veneno”
Trilha Sonora do Capítulo
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Olhando as estrelas que cobriam o céu sem lua, procurei a cruz formada por cinco estrelas. Os [Conteúdo protegido por direitos autorais] antigos diziam que, durante a Grande Sede, essa era a única coisa que lhes trazia um pouco de tranquilidade.

Sentindo o suor escorrer pela minha testa, ajeitei a menina no colo, onde dormia como se aquele fosse o lugar mais confortável possível. De vez em quando, [Conteúdo protegido por direitos autorais] ela abria os olhos para me encarar e logo voltava a dormir, então continuei cantarolando e ajeitando-a contra o peito sempre que precisava, até ter certeza de que estava tranquila.

A cada poucos passos, aproximava a minha bochecha da testa dela, só para ter certeza de que a [Conteúdo protegido por direitos autorais] febre não tinha aumentado, porque apesar das feridas já terem cicatrizado, o trauma que deixaram, talvez demorasse muito mais para passar. 

Quando finalmente cheguei em casa, já era bem [Conteúdo protegido por direitos autorais] tarde da noite, talvez madrugada e uma gralha-do-campo sobrevoava o telhado.

Olhei para a menina e depois para a ave, mas não senti a presença de nenhuma outra feiticeira além da minha irmã e dela. Só deve ser uma ave qualquer. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Embora aquilo fosse estranho, porque os bichos comuns evitavam se aproximar daqui, fosse por causa dos artefatos que usava como proteção na cerca, fosse porque o cheiro dos nossos corpos fazia os animais estremecerem de medo. 

De qualquer forma, quando cheguei perto o suficiente da porta, [Conteúdo protegido por direitos autorais] a ave alçou voo e alguma coisa presa em suas patas brilhou.

Será que estava caçando algo? Entrei em casa e encontrei o rádio do meu pai, que ficava numa estante da sala, ligado na reprise dos noticiários da capital. Enquanto [Conteúdo protegido por direitos autorais] levava a menina para o meu quarto, escutei que um grupo revolucionário protestava contra os Chicos, culpando o governo pela existência dos aluados e pela animosidade do novo imperador contra os reinos vizinhos.

Fora isso, o noticiário mencionou uma nova doença que estava deixando algumas pessoas enfermas nas favelas próximas à capital imperial, Porto Rubro. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Talvez fosse só uma preocupação besta, mas uma doença surgir justamente quando a Grande Sede voltava a ficar ativa me parecia um mau agouro.

Continuei andando pelo corredor com a menina ainda agarrada ao meu cangote e só quando tentei colocá-la na cama, percebi como os [Conteúdo protegido por direitos autorais] seus bracinhos eram finos e delicados. Não eram totalmente cambitos, mas magros o suficiente para deixar claro que ela não comia bem havia algum tempo.

Preparei uma papa de água e sal, e quando tentei acordá-la para comer, ela apenas murmurou alguma coisa antes [Conteúdo protegido por direitos autorais] de continuar dormindo. Sentei-me ao lado da cama e comecei a alimentá-la às colheradas, segurando sua cabeça para que não se engasgasse. 

Só depois de deixá-la acomodada percebi o quanto eu estava cansada. A vertigem veio quando tentei me levantar, lembrando-me de que, depois de tantos combates e de abusar da minha transformação, eu precisava relaxar. Enchi o tanque de banho [Conteúdo protegido por direitos autorais] que, sem dúvidas, era uma das melhores coisas que meu pai tinha construído naquela casa, para me lavar olhando para as estrelas. Com a água já cobrindo boa parte da  banheira de barro, fui ao quarto dele buscar uma toalha limpa.

Empurrei a porta sem bater, porque ainda não tinha me acostumado com a ideia de que a casa não era mais só minha e de Nina, e acabei dando de [Conteúdo protegido por direitos autorais] cara com Apollo sem calça, de costas para mim. Parei por um instante, observando de cima a baixo, antes de voltar para o rosto dele que me encarava com a testa franzida.

— Precisa de alguma coisa? — perguntou [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele, ao caminhar até a calça sobre a cama.

Não desviei os olhos de imediato, pois já tinha [Conteúdo protegido por direitos autorais] visto o que era para ver e nada daquilo havia me desagradado.

— Desculpa, eu... — limpei a garganta, entrando no [Conteúdo protegido por direitos autorais] quarto sem pressa — Esqueci de bater. Vim só pegar uma… toalha.

Ele deu alguns passos em direção à cama, mas o corpo falhou antes que alcançasse a calça. Antes que ele caísse, [Conteúdo protegido por direitos autorais] segurei-o pelo braço e o ajudei a se sentar, sentindo a camisa úmida sob os dedos e percebendo a sua careta de dor.

Por que Apollo tinha vestido a camisa antes da calça? Eu sabia [Conteúdo protegido por direitos autorais] que ele era estranho, mas não tanto, será que ele queria esconder alguma coisa?

Esperei, enquanto ele vestia a calça sentado, observando-o fazer outras caretas sempre [Conteúdo protegido por direitos autorais] que movia o ombro. Quando terminou, agarrei a frente da camisa, fazendo-o se virar forçadamente.

— O que você tá me escondendo? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntei e levantei o tecido para ver as suas costas.

— Eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] não estou... — ele começou.

Havia um sulco fundo e irregular no alto, de onde o sangue escorria, mas o pior era a própria articulação, que parecia ter decidido abandonar o resto do corpo e arrastar o braço junto. Grunhi ao encarar o [Conteúdo protegido por direitos autorais] ferimento. Apollo tinha conseguido se machucar de novo e, de quebra, me arrumado mais uma dor de cabeça. Do jeito que estava, comecei até a desconfiar que ele tinha feito isso de propósito, só para continuar comendo de graça aqui.

— O que é que você fez para se ferir [Conteúdo protegido por direitos autorais] desse jeito? — perguntei, incrédula, encarando o ombro deslocado — Que merda Apollo!

— Tentei me… movimentar um pouco. Dizem que, para se curar, é preciso se movimentar, certo? — disse ele, parecendo querer me convencer — Mas como deu para ver, ainda não estou totalmente curado, [Conteúdo protegido por direitos autorais] então… acabei deslocando o ombro um pouco quando me transformei e voltei ao normal. Você sabe como é… o meu corpo demorou para acompanhar a mudança de forma e alguma coisa saiu do lugar no processo.

Ergui a sobrancelha, [Conteúdo protegido por direitos autorais] voltando a encarar a ferida.

— Alguma coisa? — Estalei a língua — Se para você isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] é deslocar um pouco, nem imagino o que considera ter seu braço totalmente arrancado.

Peguei uma pilha de panos dentro da [Conteúdo protegido por direitos autorais] mesinha de canto e comecei a enxugar o sangue.

— Eu me empolguei um pouco — disse ele, parecendo sorrir, mas nem me dei o trabalho de [Conteúdo protegido por direitos autorais] olhá-lo — Passar tantos dias deitado estava me deixando tão sufocado que até… temi não saber mais usar a minha metamorfose.

O ângulo do ombro estava totalmente esquisito e aquilo não parecia um [Conteúdo protegido por direitos autorais] deslocamento só por ter errado a transformação. Esse idiota tinha ido para onde?

— Eu preciso colocar o osso no lugar antes que você morra por causa de uma infecção — disse [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu, grunhindo — Esta é a pior parte, então se segura um pouco e grite, mas… sem ser muito alto pra não acordar a Nina.

Olhei apenas o suficiente para vê-lo assentir. Segurei o seu ombro, [Conteúdo protegido por direitos autorais] firmei o braço e me preparei para colocá-lo no lugar com um impulso rápido.

— Confio em você, Luna — sussurrou ele — Isso pode [Conteúdo protegido por direitos autorais] doer, porém duvido que doa mais do que está doendo, então... vá em frente.

— Você confia em alguém só porque tão te dando comida e um teto? — fiz [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma careta — Porque, sinceramente… eu não confio em você, já que nem sei quem diabos você é.

O suor já brotava no meu rosto, porque recolocar uma articulação do ombro era um [Conteúdo protegido por direitos autorais] trabalho árduo nas melhores circunstâncias. Só esperava que ele não desmaiasse quando o osso voltasse ao lugar.

— No três… [Conteúdo protegido por direitos autorais] — avisei, olhando-o de soslaio.

Ele assentiu.

— Três.

O ombro emitiu um estalo suave e a articulação voltou ao lugar. Afastei-me um pouco e ele me encarou com os olhos esbugalhados, genuinamente [Conteúdo protegido por direitos autorais] espantado. Por algum motivo inexplicável, aquilo me fez sentir bem. Ainda incrédulo, Apollo levou a mão ao ombro e começou a explorar o que eu tinha feito.

— Não dói mais! — Um [Conteúdo protegido por direitos autorais] sorriso largo de alívio se espalhou pelo rosto dele.

— Não dói agora, mas ainda vai doer — respondi, ainda suando pelo esforço, mas satisfeita com o [Conteúdo protegido por direitos autorais] resultado — O ombro vai ficar sensível por vários dias, então pega leve, do tipo… pescar e fazer uma caminhada.

No meio das instruções, percebi que, embora ouvisse respeitosamente, ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] me olhava com uma expressão que ia da admiração à suspeita declarada.

— Sei o que tá se perguntando. Morar sozinha com a minha irmã me fez aprender uma ou duas coisas — expliquei, já na defensiva — Conheci [Conteúdo protegido por direitos autorais] também muitas curandeiras que me ajudaram a cuidar de Nina, então, se você quiser usar esse braço de novo, recomendo que você me escute e faça o que eu digo.

— Já disse, eu confio [Conteúdo protegido por direitos autorais] em você — O olhar dele parecia sincero.

Dei um sorriso [Conteúdo protegido por direitos autorais] desdenhoso, lavando a mão na bacia.

— A sua irmã parece bem… fragilizada [Conteúdo protegido por direitos autorais] — disse ele — Vocês duas são feiticeiras… não são?

— Sim... — eu disse estreitando os olhos, será que ele já estava desconfiando [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eu era a carcará fantasma? — Tá com medo que eu vá comer seu fígado?

— Não, é… porque... — Ele levantou o [Conteúdo protegido por direitos autorais] rosto e me encarou — A sua irmã sofre das escamas?

— Sim — respondi com aspereza — E peço desculpas se ela lhe incomodou. A [Conteúdo protegido por direitos autorais] minha irmã não tem muito o que fazer, então, quando aparece alguma novidade, ela fica extremamente focada.

— Não, não! Ela não me incomodou — Ele pareceu procurar uma posição [Conteúdo protegido por direitos autorais] mais confortável para apoiar o braço — Quando foi que… a doença começou a se manifestar?

— Primeiro, preciso desinfetar esse ferimento — interrompi, percebendo que a dor começava a incomodá-lo. Fiz com que se virasse de costas de novo [Conteúdo protegido por direitos autorais] e examinei o ombro com cautela — Não sei que maluquice você fez, mas evite repetir enquanto estiver na minha casa. Um galho atravessou seu ombro?

— Você parece não ter muitos recursos por aqui, mas consegue fazer tanto com tão pouco... — Apollo aparentou medir as palavras, dando a impressão de que [Conteúdo protegido por direitos autorais] também tentava mudar de assunto — Vejo que é uma mulher de muitas virtudes, o que torna essa sua mesquinharia quase... uma armadura? É por isso que precisa de dinheiro? 

— Você é mesmo um intrometido, não é? Tá [Conteúdo protegido por direitos autorais] querendo sondar para saber se eu valho a pena como esposa? — eu disse com deboche.

— Não, só… queria [Conteúdo protegido por direitos autorais] saber se posso ajudar com alguma coisa.

— Pode — disse eu — Evite que [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu tenha que gastar mais recursos com você e suas feridas.

Por algum motivo aquilo o fez rir. Que cara [Conteúdo protegido por direitos autorais] mais esquisito… será que era masoquista e gostava de ser tratado com desdém?

— Mas, já que você quer saber — suspirei — Vamos fazer um acordo então. Eu te digo algumas coisas sobre mim, você [Conteúdo protegido por direitos autorais] me diz algumas coisas sobre você. Não precisam ser verdadeiras. O que você me disser, eu decido se acredito ou não, e você faz o mesmo.

Ele balançou [Conteúdo protegido por direitos autorais] a cabeça em concordância.

— As pessoas da região não gostam muito de mim, mas, quando ofereço dinheiro, esquecem quem eu sou, mesmo que muitas vezes eu tenha que pagar mais do que o necessário — expliquei, ao começar a [Conteúdo protegido por direitos autorais] tirar a camisa dele, ajudando-o a erguer o braço — O dinheiro é pra financiar algum médico particular pra cuidar de Nina. Nos últimos tempos, a doença tem ficado mais… agressiva, então preciso de um pesquisador de sangue amaldiçoado.

— Por que você [Conteúdo protegido por direitos autorais] não pede ajuda ao reino dos encantados?

— Como eu disse, as pessoas não gostam de mim e isso inclui o seu povo — disse eu. Ao ver que ele não parecia entender, tentei explicar de novo: — Sou [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma das últimas feiticeiras, filha de pai e mãe com sangue de feiticeiros. Além disso, no passado… matei alguns membros da nobreza do seu povo, então só tenho boa relação com a encantada desta região.

— Você é uma das… que foram [Conteúdo protegido por direitos autorais] vendidas para os inquisidores do império? Pelo antigo rei?

Assenti.

— Mas isso aconteceu já faz muito tempo, não é algo importante… — disse eu, com toda a paciência [Conteúdo protegido por direitos autorais] que pude — Agora vamos ser sinceros... Seu povo iria oferecer ajuda para uma feiticeira que fez parte da revolta que matou o seu antigo monarca?

Ele pareceu ponderar a pergunta. Quando as suas costas ficaram totalmente expostas, vi um emaranhado de linhas brancas e desbotadas, [Conteúdo protegido por direitos autorais] cicatrizes que visivelmente não eram recentes. Reconheci nelas marcas de espancamentos, chicotadas e outros ferimentos causados com selvageria, mais de uma vez.

— Inclina um pouco o corpo para a frente — pedi, passando um [Conteúdo protegido por direitos autorais] braço por baixo do dele para ajudá-lo a se ajeitar — Preciso limpar esse ombro.

Ele obedeceu e comecei a limpar o ferimento com um pano úmido. Meus dedos deslizaram por [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma das cicatrizes mais fundas e, no mesmo instante, senti o corpo dele estremecer sob o meu toque.

— Desculpa, eu... não queria ser [Conteúdo protegido por direitos autorais] invasiva — murmurei, voltando a atenção para o ombro.

— Não se preocupe. Eu já fui tocado de [Conteúdo protegido por direitos autorais] maneiras muito piores e por gente bem menos bonita — disse ele.

Dei um sorriso de [Conteúdo protegido por direitos autorais] lado, me atentando a limpar a ferida.

— Quem quer que tenha feito isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] te odiava muito — eu disse, fazendo uma careta.

— Na verdade... eu mereci [Conteúdo protegido por direitos autorais] — disse ele, quase sem força na voz.

— Você é algum ladrão? Ou [Conteúdo protegido por direitos autorais] um criminoso muito procurado no reino dos encantados?

— Não. Foi a [Conteúdo protegido por direitos autorais] minha madrasta, mas… ela tinha seus motivos.

— Para te machucar, açoitar e ferir dessa forma? Ela não parece uma boa pessoa… — estreitei os olhos [Conteúdo protegido por direitos autorais] ao torcer o pano, sentindo uma raiva inesperada subir pelo peito — Mesmo pra um encantado, deve ter demorado muito para cicatrizar.

— É um pouco complicado... Ela é alguém muito importante no reino e, bem… [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu era... — ele hesitou — Um bastardo. Alguém de quem ela foi forçada a cuidar.

— Ela te bateu apenas... — tentei manter a voz firme ao passar a esponja pela pele, com movimentos mais bruscos [Conteúdo protegido por direitos autorais] do que pretendia — Porque o seu pai não segurou as próprias calças? Ela não devia punir o seu pai ao invés de você?

— Eu sei, parece meio [Conteúdo protegido por direitos autorais] idiota quando se fala em voz alta...

— Não que seja justificável uma madrasta fazer algo assim, mas… [Conteúdo protegido por direitos autorais] você, realmente, fez alguma coisa para ser punido desse jeito?

— Eu fui... — Vi a mandíbula dele travar — Culpado [Conteúdo protegido por direitos autorais] por algo que aconteceu com o meu irmão e que… o marcou para sempre.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Filho dela, eu presumo.

Ele assentiu.

— Bem... sendo sincera, eu não confiaria em um homem que não tem feridas ou cicatrizes pelo corpo — Mordi o lábio, surpresa com a minha própria franqueza — Eu também tenho algumas feridas [Conteúdo protegido por direitos autorais] que me trazem lembranças nada agradáveis, mas isso, mostra que eu lutei por tudo, passei por muita coisa e mesmo assim ainda tô viva, mesmo muita gente, preferindo que eu fosse apenas, uma marcação em uma lápide.

Ele suspirou e moveu o ombro. Parecia cansado e machucado em partes [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eu não era capaz de curar ou aliviar, por mais que tentasse ser gentil.

— Essas suas… feridas foram causadas pelos... pesquisadores? — ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntou e sua voz me passou a sensação de que ele estava irritado.

— Sim.

— Se você não confia nos encantados... — disse ele, olhando para mim por cima [Conteúdo protegido por direitos autorais] do ombro com uma veia saltada no pescoço — Por que você ainda mora perto dos humanos?

— O pai de Nina era dono desse lugar. Ele sempre ajudou as pessoas da cidade e mesmo que me olhem estranho, não nos fazem mal aqui — respondi, cada vez mais confusa com a [Conteúdo protegido por direitos autorais] facilidade com que as palavras saíam — Sem contar que o líder dos Chicos daqui é tio dela, então… digamos que estamos protegidas. Nem um nobre do império ousaria colocar um dedo em nós, enquanto ele estiver aqui.

Ele esfregou a [Conteúdo protegido por direitos autorais] testa com a mão livre.

— Ah... Quer dizer [Conteúdo protegido por direitos autorais] que a sua irmã é uma mestiça?

— Isso. Somos irmãs só por parte de mãe [Conteúdo protegido por direitos autorais] — falei em tom leve, esperando distraí-lo do que eu fazia.

— Por isso que ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] não se adaptou ao sangue? — perguntou.

Balancei [Conteúdo protegido por direitos autorais] a cabeça em negação.

— A minha irmã era capaz de se transformar, mas… [Conteúdo protegido por direitos autorais] por causa dos experimentos acabou perdendo as habilidades e a doença se manifestou.

— Então é verdade? — Ele engoliu em seco — [Conteúdo protegido por direitos autorais] De que eles faziam vocês se metamorfosearem parcialmente e arrancavam as suas asas?

Terminei o curativo e permaneci quieta atrás dele, com a mão pousada sobre o seu ombro bom. A minha mente pareceu abrir uma caixa [Conteúdo protegido por direitos autorais] trancada e as memórias daqueles dias voltaram de forma sufocante. Prendi a respiração, tentando impedir que aquilo transbordasse e me deixasse ainda mais confusa, fragilizada e exposta.

— Sim... — respondi, respirando com dificuldade — Mas a doença de Nina demorou para se manifestar. Pensávamos que [Conteúdo protegido por direitos autorais] ela só tinha perdido os poderes, mas, dois anos atrás... a doença se ativou e ela ficou como… você a viu.

— Eu realmente não entendo... — disse de [Conteúdo protegido por direitos autorais] repente — Como você ainda consegue conviver com os humanos?

— Como eu disse eles podem me olhar com medo, terror ou pavor... — eu disse em voz baixa — Mas isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] nem se compara com o que os nobres fizeram com a gente... Não tenho motivo pra odiar a todos só por causa de alguns.

Ele sorriu de repente e a [Conteúdo protegido por direitos autorais] névoa de dor pareceu desaparecer de seus olhos.

— Estou começando a entender que tipo de pessoa você é... [Conteúdo protegido por direitos autorais] Lady Luna — disse ele, parecendo finalmente perceber que o curativo estava completo. 

— Não sou Lady, não me chame assim — respondi, afastando-me — De qualquer forma, você não deve mexer o seu ombro ainda, na verdade... — olhei [Conteúdo protegido por direitos autorais] para a mesa, certificando-me de que ainda havia tiras de pano que pudesse usar — Vou amarrar esse braço junto ao corpo pra evitar que você faça mais uma estripulia.

Uma estranha sensação de intimidade tomou conta de mim quando passei a faixa envolta do peito dele. Para conseguir prendê-la, precisei me aproximar ainda mais, quase encostando o rosto nas costas dele, mas ainda assim, não me senti desconfortável ou [Conteúdo protegido por direitos autorais] esquisita com aquela proximidade. Talvez fosse porque eu já me sentia confortável o bastante até para compartilhar um pouco do meu passado. Quando terminei de amarrar a faixa, ajudei-o a vestir uma camisa limpa, passando o tecido com cuidado pelo ombro machucado.

— Mas, pensando bem, só eu falei até agora... — [Conteúdo protegido por direitos autorais] fiz uma careta — Sua madrasta te machucou só por causa desse motivo?

— Não apenas por isso, ela procurava vários motivos diferentes, o último [Conteúdo protegido por direitos autorais] foi que eu me recusei a aceitar os casamentos que ela tentava me empurrar.

— Ah... então [Conteúdo protegido por direitos autorais] foi por isso que você fugiu?

— Eu não fugi. Eu já disse [Conteúdo protegido por direitos autorais] a você, estou procurando a criança que Lady Serena mandou.

— Sei... — assenti, em deboche — Deixa ver se eu entendi... Você teve problemas com sua madrasta, recusou os casamentos que ela queria arrumar para você e acabou [Conteúdo protegido por direitos autorais] vindo parar longe do Reino dos Encantados atrás de uma criança que, supostamente, é o primeiro milagre... Apollo, sua vida é bem mais complicada do que eu imaginava.

Apollo soltou o [Conteúdo protegido por direitos autorais] ar pelo nariz, num quase riso.

— Falando assim, parece estranho, não é? — Ele pareceu relaxar — Mas, [Conteúdo protegido por direitos autorais] sendo sincero, preciso realmente encontrar essa criança para ajudar o meu… irmão.

— Seu irmão? — franzi [Conteúdo protegido por direitos autorais] o cenho — O que aconteceu com ele?

— Ele está… doente e eu não tenho outra [Conteúdo protegido por direitos autorais] maneira de ajudá-lo. Supostamente, só essa criança é capaz de curá-lo.

— Hum... — estreitei os olhos [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Essa criança tem o dom da cura?

— Assim como você... [Conteúdo protegido por direitos autorais] pelo que notei — respondeu ele.

— Ela seria [Conteúdo protegido por direitos autorais] capaz de curar qualquer doença?

— Não sei... — Ele pareceu entender do que eu estava falando [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Mas, se essa criança for capaz de curar a sua irmã... você me ajudaria?

— Sendo sincera... não confio muito nesse boato, mas, se [Conteúdo protegido por direitos autorais] for verdade, talvez — uni as sobrancelhas — Você realmente acha que é?

— Tenho esperança de que sim. Só o meu irmão [Conteúdo protegido por direitos autorais] é capaz de fazer a minha madrasta parar com o que está fazendo.

— Ah... — sorri com sarcasmo — Então você tá atrás dessa criança [Conteúdo protegido por direitos autorais] porque quer escapar do casamento que a sua madrasta quer arrumar pra você? Agora entendi…

— Não! Eu...

— Eu entendo — assenti com condescendência, [Conteúdo protegido por direitos autorais] cruzando os braços — É uma fuga bem elaborada, admito.

— [Conteúdo protegido por direitos autorais] Não é isso...

— Mas por que a sua madrasta quer tanto que [Conteúdo protegido por direitos autorais] você se case? Você deve ser um nobre bem importante — disse, rindo.

— Eu… — [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele engoliu em seco — Sou.

Arregalei os olhos, sentindo uma onda de [Conteúdo protegido por direitos autorais] satisfação e me levantei quase dando um pulinho de alegria.

— Eu sabia! — assenti — Então vou cobrar caro, [Conteúdo protegido por direitos autorais] viu? Se eu te ajudar a encontrar essa criança, vou receber um bônus?

Ele se virou na [Conteúdo protegido por direitos autorais] minha direção com um sorriso contido.

— Pagarei tudo o que devo a você e, se isso não for suficiente, posso [Conteúdo protegido por direitos autorais] lhe oferecer tudo o que tenho ou… caso seja isso que deseja, posso me casar com você.

Pisquei algumas vezes.

— Se casar comigo? — apontei para mim mesma, incrédula — Apollo, eu só quero o seu [Conteúdo protegido por direitos autorais] dinheiro. Não quero o seu... — apontei para ele, percorrendo-o com os olhos — Corpo bem definido, bonito e... elegante.

— Não vejo por que isso seria um problema, você poderá ter o dinheiro e o [Conteúdo protegido por direitos autorais] meu… — Ele soltou uma risada baixa — Acho que seria uma solução bastante conveniente para nós dois.

— Você tá insistindo bastante nessa história — estreitei os olhos, segurando um sorriso — Tá começando a parecer que você quer se casar [Conteúdo protegido por direitos autorais] comigo. De qualquer forma, eu agradeço a oferta… tentadora — pisquei para ele — Mas não quero um marido, apenas uma boa e bem gorda bufunfa.

— Eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] apenas estou apresentando uma opção.

— Sei...

Apollo estendeu a mão, ainda sentado diante de mim, como se fosse tocar o meu rosto, mas pareceu pensar melhor. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Seus dedos vacilaram antes de recuar e supus que ele também estivesse sentindo aquela estranha onda de intimidade que parecia nos envolver. 

— Você… pode me dizer onde [Conteúdo protegido por direitos autorais] está o carcará-fantasma? — ele sussurrou abaixando a cabeça.

— Vou pensar no seu caso... agora descansa um pouco, porque amanhã você vai tomar um bom banho e depois a gente vai dar [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma caminhada — apertei o nariz entre os dedos, fazendo uma careta — Sério, quantos dias você ficou sem tomar banho antes de eu encontrar você?

Ele riu, um som que pareceu penetrar a minha mente. Por um [Conteúdo protegido por direitos autorais] momento, não consegui desviar o olhar dos olhos esmeraldas que me fitavam de forma profunda.

Merda... eu estava ferrada. Maldita Serena, [Conteúdo protegido por direitos autorais] sabia bem qual era o meu ponto fraco.

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